domingo, 4 de janeiro de 2015

O lulo-brizolismo de Dilma no segundo governo

Em seu discurso de posse para o segundo mandato presidencial, Dilma Rousseff fez questão de enfatizar uma expressão que diz muito sobre o significado dos governos petistas que comandam os destinos dos brasileiros desde 2003: “projeto de nação”. Eu fui conferir os dois discursos de posse de Lula de 2003 e 2007, e o primeiro de Dilma, em 2011, e essa expressão estava ausente.
Antes de continuar, talvez seja necessário explicar ao leitor desta coluna a razão pela qual eu confiro aqui tanta importância a uma expressão que parece, digamos, banal. Parece, mas não é. Especialmente, inserida em um discurso histórico em que cada palavra é medida, pesada, porque tudo que se diz será divulgado e analisado com o intuito de se estabelecer parâmetros para antecipar os rumos do governo que se inicia.
Pois bem. Ao fazer uso de uma expressão tão em desuso, sobretudo depois que os ares da “globalização” passaram a sufocar os raquíticos Estados nacionais – outra expressão que se tornou démodé – dos países “em desenvolvimento”, Dilma Rousseff mostra duas coisas, pouco percebidas entre aqueles que analisaram seu discurso durante e depois do ato de posse: primeiro, a Presidenta reaviva, agora de maneira mais explícita, o sentido mais geral e de alcance histórico que marca a política nacional como uma disputa entre “projetos de nação”, pelo menos desde os anos 1930. Segundo, Dilma assume mais claramente uma faceta ideológica de sua formação “gaúcha”, o nacionalismo brizolista.
Projeto de nação, pátria, educação
Notem que, visto por esse ângulo, fica mais clara a opção estratégica que dá nome ao lema do novo governo: “Brasil, pátria educadora”. Projeto de nação, pátria, educação. Nem se Brizola tivesse colocado na quinta-feira passada a faixa presidencial teria resumido tão bem propósitos para seu governo. E não se trata, quero crer, de palavras soltas ao vento apenas para agradar a ouvidos incautos.
Expressões como essas foram colocadas em desuso na imprensa e na academia pelo poder confrontador e mobilizador que sempre revelaram nos grandes embates que ajudaram a dar forma aos Estados nacionais, notadamente na América Latina, durante todo o século XX. E esses embates voltaram a acontecer com toda a força, desde que fracassaram as experiências neoliberais que se espalharam pelo continente durante a década de 1990. Eles não apenas ajudaram a reacender a força mobilizadora do nacionalismo, como deram a ele um novo componente de esquerda, mais popular e mais radical em razão da modernização e urbanização que a América Latina viveu nos últimos 80 anos. Modernização que, como resumiu Celso Furtado ao redefinir o significado de subdesenvolvimento, acentuou sua outra face nesses países: a miséria. É o desenvolvimento do subdesenvolvimento em ação.
Mas, aos seus modos, Lula e Dilma tem em mente o que a Presidenta no último dia 1º assumiu mais claramente no seu discurso de posse: um “projeto de nação”, ou seja, uma projeção de país no médio e longo prazos que define com precisão quais são seus interesses e objetivos estratégicos, sem que isso implique em aceitação ou concordância das nações mais desenvolvidas. E talvez seja a percepção do alcance desse “projeto” que coloque setores da sociedade brasileira, hoje, em encarniçado confronto com o petismo, assim como aconteceu com a campanha da mídia “contra a corrupção” que levou o nacionalista Getúlio Vargas ao suicídio, em 1954, e, dez anos depois, ao Golpe Militar que derrubou o também nacionalista João Goulart, vítima de campanha semelhante.
A vitória de Lula em 2002 e a consolidação do seu governo trouxeram de volta o tema da corrupção para o centro da agenda política. E desde 2005, quando explodiu o escândalo do “mensalão”, a grande imprensa não fala em outra coisa. Como eu não acredito em obra do acaso, talvez não seja absurdo pensar nos vínculos entre esse projeto de nação que Lula e Dilma abraçaram para explicar tamanha preocupação com a corrupção, o que tem inquestionavelmente seu lado bom, pois o Brasil começa a conhecer quem desde sempre se apropriou do dinheiro público para enriquecer e se manteve intocado. Ou será que a corrupção foi inventada pelo PT no governo?
E a inclusão da educação ao lado de “pátria” no slogan do novo governo, questão tão cara à bi0grafia de Leonel Brizola, talvez pretenda reforçar esse vínculo indissolúvel entre uma coisa e outra. O que pouca gente menciona ao citar países que adotaram a educação como prioridade estratégica, como o Japão, a Alemanha e, mais recentemente, a Coréia do Sul, é que ela, a educação, tinha um papel a cumprir no projeto de nação que a elite nacional formulou, com todas as implicações políticas e ideológicas disso decorrente, que não cabe nem há espaço para discutir aqui. E certamente foi a recusa das elites dirigentes brasileira em adotar um projeto de nação a razão principal para que o Brasil nunca tenha assumido em seus governos a educação como prioridade nacional para a formação do seu povo.
Se Dilma começou a dar esse passo é o que veremos nos próximos quatro anos.
* Publicado no Jornal da Paraíba, na coluna de Rubens Nóbrega, que assumi interinamente desde o dia 03/01.

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