sexta-feira, 30 de maio de 2014

"Não vai ter Copa" é o mesmo que "não vai ter Brasil soberano"

Índio contra a Copa. Índio?
Essa semana eu divulguei no Facebook uma matéria da revista Exame (da Abril, claro!) em que, segundo a Bloomberg (tem alguma mídia mais ligada ao mercado financeiro?), a vitória do Brasil na Copa beneficiaria a candidatura de Dilma Rousseff, o que não era bem visto pelos "investidores", que preferem um governo mais "amigável" em relação aos seus interesses.

Parte da esquerda que não apoia a experiência Lulista gosta de repetir  que os governos do PT também ajudaram muito aos bancos. Isso, tem só uma parte da verdade porque, entre outras ações, Dilma Rousseff baixou os juros próximos de patamares, digamos, "civilizados", como gostam de se referir os vira-latas da grande mídia. 

A campanha "inflacionária" - a média de inflação dos oito anos de FHC foi próxima de 10% - tinha por objetivo criar um clima de descontrole dos preços para forçar o aumento dos juros. A mídia é dominada pelo rentismo, esse mau que quase matou o Brasil durante os governos tucanos. Mas, isso é apenas parte do problema. 

Lulismo e um novo modelo de desenvolvimento?

O mais relevante é que Lula deu início a transição rumo a um novo modelo de desenvolvimento, que pode ser - em muito já é - uma referência para outros países. Uma transição que, bem situada na tradição política brasileira de promover as mudanças de maneira lenta e gradual, tem promovido a economia nacional a um ritmo consistente de crescimento baseado no mercado interno e no aumento da renda do trabalho, um velho sonho furtadiano. 

O "novo radicalismo" de parte da classe média é caolho
Ao contrário do que pensa a ignorância crônica e servil de setores da classe média, que muitas vezes só sabe distinguir bolsas originais da Louis Vuitton das falsificadas - para, assim assim, usá-las, - isso nada tem a ver com "comunismo". Isso é keynesianismo. Um keynesianismo de esquerda, já que, nas condições de hoje, o keynesianismo só pode ser de esquerda. E para o que restou dela. A social-democracia europeia desvanece, desorientada, sem papel no mundo contemporâneo. E é bom prestar atenção para o que começa a acontecer na Grécia!

Além disso, tem a questão geopolítica. Ora, com a Europa e EUA em crise, e sem perspectiva de recuperar a condição anterior de hegemonia no longo prazo - a não ser através da guerra, - a experiência brasileira de unir os BRICS e o hemisfério sul não pode ir adiante. Não pode mesmo. Foi isso que fez Lula, certamente, com a inteligente e consistente contribuição intelectual de Ciro Gomes (lembram de “O Próximo Passo – Uma Alternativa Prática ao Neoliberalismo”?). 

A força de Brasil, China, Índia, Rússia e Africa de Sul juntos é poderosíssima. Essa será, sem dúvida, a grande novidade na geopolítica do século XX. Quebrar a perna dos Brics na América do Sul, portanto, é estratégica. Mas também é simbólica, já que o Brasil, dessas experiências, é a única cujo modelo de democracia é tipicamente ocidental, portanto, a mais adaptável de todas para as condições latino-americanas. Principalmente, depois da descoberta da imensa reserva petrolífera do Pré-Sal, que pode viabilizar os recursos financeiros para o salto que planeja Lula (que um dia Vargas também planejou) sem que para isso precise ir para o enfrentamento aberto para consegui-lo.

CIA no "Não vai ter Copa"?

Por isso, derrotar Dilma Rousseff não é só uma questão ligada apenas às disputas internas - Aécio Neves e Eduardo Campos desejam cumprir à risca seus papéis históricos, - mas também externas. É nesse ponto que entra a Copa e a CIA, o serviço de inteligência americano. Pensem bem. As "mobilizações" da Primavera Árabe foram tão espontâneas assim? Elas tiveram comprovadamente o dedo da CIA e do Departamento de Estado norte-americano. Recentemente, as "mobilizações" na Ucrânia também. 

Agora, na Venezuela, você acha que não? Só a ingenuidade política ou a má-fé pode considerar a fauna de Blackblocs, Anonymus, Instituto Millennium como manifestação espontânea da sociedade civil. Ou mesmo a campanha quase terrorista que faz a mídia, incentivando o "Não vai ter Copa", com uma cobertura desproporcional ao peso insignificante delas, e seu comentaristas, boa parte a soldo do Departamento de Estado americano, que, como ficou demonstrado pelos documentos divulgados pelo . 

Essa turma está aí, querendo ocupar as ruas contra a Copa, não tem objetivos generosos. 1964 já demonstrou isso de maneira cabal. São mesmo, só que vestindo outros trajes, mais "pós-modernos", nesses tempos de pós-gerra-fria, pós-"socialismo", pós-"iluminismo", pós-"marxismo". 

PSDB e PT são iguais?

Nisso, eles tem a companhia de parte da esquerda, como o PSTU. Partidos de cariz trotskista nunca tiveram em meio à sua retórica preocupações com a questão nacional. Erroneamente, penso eu, pois na periferia a questão nacional só pode ser de esquerda, em razão de nossa formação histórica estruturalmente vinculada ao setor externo. Por que nossas elites econômicas sempre rejeitaram as teses nacionalistas?

Em razão disse, esses partidos não conseguem enxergar diferença entre PSDB e PT, nem na conjuntura que vivemos hoje. Uma simples pergunta aos governos da Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador, Argentina, Uruguai, Peru, se, para eles, é indiferente que esteja no poder no Brasil qualquer um desses partidos e nós teremos uma resposta contundente a respeito. E não é por outro motivo. Sem o apoio do Brasil, à exceção de Cuba, esses países subsistiriam com muitíssimas dificuldades. Derrubar Maduro, por exemplo, passa pela derrota de Dilma.


E se Dilma vencer, eles tentarão derrubá-la pela força, nas ruas. O “Não vai ter Copa” não é só contra a Copa. É contra o Brasil. É contra o povo brasileiro.

Em tempo: assistam esse vídeo. Ele mostra que a "Primavera Árabe" não foi  tão "árabe" assim.


terça-feira, 27 de maio de 2014

O que o eleitor aprendeu a fazer bem na Paraíba foi desmoralizar pesquisa eleitoral

Em agosto de 2010, a campanha de José Maranhão comemorava os
resultados das pesquisas. Em outubro, o TSE anunciou o eleito.
Pesquisa é aquela coisa. Mesmo que elas sejam feitas fora do ambiente ditado pela campanha eleitoral e procurem traduzir a circunstância, o momento, e mesmo que todos saibam que, em geral, esses resultados tendem a ser alterados quando as urnas forem abertas, é inegável o peso psicológico que elas tem no meio político. 

Por mais experimentado que seja o político tradicional, a grande maioria, acostumada apenas a considerar o curto prazo na tomada de decisões, tende a ser mais influenciável do que o eleitor comum, sempre mais aberto a mudar de posição no decorrer das campanhas. 

Isso também acontece com os financiadores de campanha que, tanto quanto esses políticos tradicionais, são muito avessos ao risco eleitoral. 

Muita água vai rolar

Vejam bem. Estamos em maio, antes do mês de uma Copa que será realizada no Brasil. Alguém acha que o eleitor comum, o cidadão trabalhador, está mesmo preocupado com uma eleição que acontece só daqui a quatro meses? Muita água vai rolar por baixo dessa ponte. 

Antes de tudo, é relevante racionar que, quem lidera hoje as pesquisas - no caso, o Senador Cássio Cunha Lima - se tornará alvo preferencial dos seus principais adversários durante a campanha, especialmente na TV. 

E, pense comigo, Cássio é tão inatingível assim? Quando governador, fez uma gestão que, em pontos centrais como educação, saúde, habitação e segurança, possa oferecer a segurança ao eleitor de que, diante das informações e lembranças que a ele serão oferecidas sobre os mais de seis anos de governo cassista, o tucano continuará a merecer o seu voto?

E mesmo aquele eleitor mais impedernidamente antirradicalista, que hoje aposta em Cássio apenas com o objetivo de evitar a reeleição do atual governador, manterá seu voto quando for lembrado do silêncio e, em alguns casos, do apoio que deu Cunha Lima a algumas das medidas tomadas por RC durante mais de três anos de governo?

É bom também não subestimar os impactos da eleição presidencial na Paraíba. Eu começo a achar que, em razão da radicalização em andamento, será inevitável que parte do eleitorado seja envolvido pela disputa nacional e se renda aos apelos para dar coerência entre seu voto nacional e estadual. 

Esse é fenômeno difícil de prever, mas já aconteceu em 2002, quando Lula se elegeu Presidente da República pela primeira vez. Naquela eleição, o PT foi ao segundo turno em nada menos do que oito estados (São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia, Sergipe, Ceará, Pará, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal). 

Boa parte desses candidatos eram considerados "azarões" antes da campanha começar e foram para o Segundo Turno, desalojando de lá muitos candidatos considerados "favoritos", impulsionados pela campanha eleitoral. 

E o que dizer do desempenho de Avenzoar Arruda, candidato do PT, e de Roberto Paulino, do PMDB, aqui na Paraíba, ambos apoiadores de Lula, e que fizeram desvanecer o favoritismo que o mesmo Cássio ostenta hoje nas pesquisas?

Isso não significa em absoluto que a eleição presidencial definirá a eleição para governador na Paraíba. A campanha é estadual e seu resultado será definido pelas decisões que serão tomadas ao longo da campanha na Paraíba. 

Mas, é bom não desconsiderar que parte do eleitorado pode (pode) ser influenciado por esse clima de polarização e radicalização da disputa nacional e orientar seu voto em função dessa disputa. 

Enfim, nada está definido e é muito bom que os apressadinhos de sempre coloquem as barbas de molho, porque o que mais o eleitor da Paraíba sabe fazer é desmoralizar pesquisa.

Em 2010...

Em março de 2010, essa mesma onda começava a se estabelecer meses antes da eleição. Na ocasião, depois da divulgação de mais uma pesquisa que dava boa vantagem para o então governador José Maranhão, eu registrei aqui mesmo no blog:

"Apesar das comemorações dos maranhistas com os resultados da pesquisa Consult-Correio não custa nada lembrar que o jogo está apenas começando. Por outro lado, mais do que criticar a pesquisa, ou desdenhar dela, os ricardistas deveriam comemorar o fato de Ricardo Coutinho, um político relativamente desconhecido no resto do estado, atingir uma percentagem de indicações de quase 33%.

Trata-se de um considerável suporte que permite ao atual prefeito de João Pessoa iniciar uma campanha que, acredito que ninguém desconhece esse fato, será dura e difícil, pois Coutinho vai enfrentar uma união de duas máquinas poderosíssimas: a administrativa (especialmente a estadual, mas também a federal que o PMDB e o PT controlam na Paraíba, e as das principais prefeituras do estado) e a partidária, especialmente a do PMDB. (...)

E por que o resultado da pesquisa não é de todo mal para Ricardo Coutinho?

Primeiro, porque ele enfrenta um candidato muito mais conhecido, que já foi governador do estado, participou do último pleito e, mesmo derrotado, obteve um inquestionável bom desempenho, quando foi derrotado por uma margem mínima de votos, e nas circunstâncias que todos nós conhecemos. (...)

Por outro lado, o nome de Coutinho ainda é relativamente desconhecido da maioria dos paraibanos, que sabe dele de "ouvir falar", ou seja, superficialmente. E um conhecimento maior do atual prefeito de João Pessoa esses eleitores só poderão ter quando a campanha de TV começar.

Entretanto, mesmo com todas essas dificuldades e limitações, o prefeito de João Pessoa conseguiu superar os 30% dos votos, o que demonstra a força inquestionável de sua candidatura. 

Em suma, em meio a todos esse percalços esses mais de 30% atribuídos a Coutinho devem, ao contrário de parecer um desastre - só os ricardistas acreditavam que a eleição já estava ganha e que derrotariam José Maranhão com relativa facilidade, - devem ser lidos como um poderoso ponto de partida, um espólio que só a campanha poderá dizer se será ampliado ou não (...)

São esses os únicos dados que a pesquisa Consult-Correio consegue mostrar nesse momento: que Ricardo Coutinho será um candidato respeitável e que José Maranhão está, por ora, vencendo o embate político.

Fora isso, os maranhistas fazem o que tem que fazer: comemoram e propalam sua vitória como inevitável. Aos ricardistas, cabe reafirmar que a campanha está só começando. E que seu candidato está no páreo."

Para ler o texto completo "Pesquisa Consult-Correio: Ricardo Coutinho está no páreo‏" clique aqui 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Um Luciano Cartaxo de mais atitude e a possível candidatura de Lucélio

Lucélio e Luciano Cartaxo.
Observe bem: eles são parecidos, mas são iguais?
Nesses quase 17 meses depois que se tornou Prefeito da maior cidade paraibana, Luciano Cartaxo parecia sem rumo político ou sem a clara dimensão que sua figura pública havia tomado.

Nos últimos dias, há uma nítida mudança no comportamento político do prefeito pessoense.

Primeiro, Cartaxo parece ter finalmente reconhecido a importância para o PT e para o projeto nacional petista que representam as eleições que acontecerão esse ano.

Isso se revelou recentemente na atitude de assumir abertamente a liderança das conversações com o aliado nacional, o PMDB, dando declarações que não deixam mais dúvida sua opção na disputa estadual e sua disposição em viabilizar esse projeto.

E a agora provável indicação de Lucélio Cartaxo para a disputa do Senado na chapa encabeçada por Veneziano Vital do Rego, algo que ninguém mais apostava no PMDB, muito menos no PT até uma semana atrás, é uma demonstração mais do que cabal da nova postura de Cartaxo.

Veja que não se trata de uma decisão fácil. Lucélio tinha já organizada uma campanha para deputado federal que o colocava como favorito a ocupar uma das cadeiras na Câmara.

Além disso, a saída de Lucélio dessa disputa facilita o caminho para a reeleição de Luiz Couto, esse sim, incapaz de enxergar um dedo além dos seus próprios objetivos pessoais e do seu grupo – mas, deixemos Couto de lado, por enquanto.

Enfim, Cartaxo deixa de lado a dubiedade inicial que marcou sua atuação até aqui, e que abriu caminho para tantas dúvidas e conjecturas por parte de aliados e adversários, e mostra agora que tem lado na política nacional e paraibana. 

Mostra-se com isso ser mais confiável para o eleitorado e para seus aliados e futuros aliados. Quer algo mais apreciável do que isso para o cidadão comum que observa a política de longe?

Lucélio e a disputa para o Senado

Enfim, Cartaxo faz hoje o que se espera de uma liderança política consistente – que mostra comprometimento com o projeto político das forças históricas que ele lidera hoje na Paraíba – capaz não apenas de renúncia, mas também de ousadia.

Pois é disso mesmo que se trata a candidatura de Lucélio Cartaxo para o Senado: ousadia. Quem acha que ela representa a troca do certo pelo duvidoso nada entende das intempéries políticas.  

Para Federal, Lucélio enfrentaria um Luiz Couto reforçado pelo apoio da máquina ricardista, apoio que o padre contou já em 2010 e representou a ponte de RC com Lula e Dilma Rousseff na Paraíba. Esse será de novo o triste papel de Luiz Couto em 2014.

Para o Senado, a disputa não será fácil, como nunca foi para ninguém. Veja que Cássio foi capaz de colocar de cabeça para baixo o tabuleiro do xadrez político da Paraíba, ao quebrar a unidade do bloco maranhista, entre outras coisas, para correr menos riscos na disputa para o Senado em 2010.

Em 2014, já é por demais conhecida a fragilidade eleitoral dos candidatos anunciados, todos legítimos representantes do tradicionalismo político paraibano, Rômulo Gouveia e Wilson Santiago.

Acredito que as chances de Aguinaldo Ribeiro ser candidato ficaram bastante reduzidas com a candidatura de Lucélio. Ribeiro vai ajudar a derrotar o candidato de Dilma Rousseff na Paraíba? O mais provável é que, com a candidatura de Lucélio Cartaxo, este receba o apoio de Ribeiro, porque muita conversa vai acontecer na Paraíba e em Brasília para viabilizar isso, e envolvendo gente de peso na política nacional.

Lucélio deve contar com o apoio da Direção Nacional do PT, em particular de um barbudo bem humorado chamado Lula, que será, de longe, seu maior eleitor em 2014. Ele e Dilma.

Como já está cada vez mais claro, Lula se envolverá na campanha de 2014 como não faz desde 2002, quando se elegeu Presidente do Brasil. Virá à Paraíba várias vezes e já atua para dar força e consolidar o palanque dos partidos que apoiam Dilma na Paraíba.

E esse é outro fator relevante para a candidatura de Lucélio. Um palanque que contará com duas das principais máquinas partidárias da Paraíba, organizadas em todo o estado, dando suporte à candidatura presidencial hoje favorita de Dilma Rousseff, e com um tempo de TV que deve representar quase a metade do tempo total.

E se a chapa contar com a presença de Leo Gadelha, teremos um poderoso atrativo para combinar essa mistura politicamente explosiva de juventude e renovação, cujo discurso só será consistente se tiver amparado em um programa transformador, comprometido com novas prioridades do governo, formas democráticas de se relacionar com a sociedade e com a renovação das práticas políticas.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

RC prescindirá do apoio dos grupos e lideranças locais?

Em Patos, cidade com 70 mil eleitores, o governador Ricardo Coutinho conta com apenas com o apoio do suplente de deputado, Monaci Marques. Isso será suficiente?
Estive em Patos no fim de semana, onde fui participar de uma discussão sobre os “ecos da ditadura” e rever grandes amigos. Na Capital do Sertão, aproveitei para sentir o clima político fora dos ares litorâneos e conversar com muita gente.

Lá, o quadro atual é muito semelhante ao do restante do estado. Segundo a avaliação de um atento observador da política local e estadual, o jornalista e comentarista político Genival Jr., a situação eleitoral dos principais candidatos ao governo permanece inalterada desde que as aferições começaram a incluir o nome do Senador Cássio Cunha Lima na disputa: o tucano lidera, seguido de RC, com Veneziano em terceiro.

A grande dúvida que permanece é se esse quadro se manterá quando chegar a hora da onça beber água, ou seja, quando a campanha começar de verdade e os exércitos de apoio forem pra rua.

Quando isso acontecer, será uma boa oportunidade para confirmar ou não a crença – isso talvez se configure mesmo como uma aposta – do governador Ricardo Coutinho, principalmente depois do rompimento da aliança com Cássio, de que haverá um descolamento de parte expressiva do eleitorado das lideranças e grupos políticos locais.

No caso de Patos, RC conta hoje apenas com o apoio do (suplente de) deputado estadual, Monaci Marques (PPS), que assumiu recentemente a titularidade do mandato.

Os dois principais grupos políticos da cidade liderados por Nabor Wanderley/Francisca Mota (PMDB) e Dinaldo Wanderley (PSDB), que disputam há mais de 20 anos a hegemonia em Patos, apoiam Veneziano e Cássio, respectivamente.

É lícito, então, perguntarmos se a situação atual permanecerá inalterada quando esses grupos colocarem suas estruturas na rua, conjugando as campanhas proporcionais e majoritárias.

Esse quadro também tende a se reproduzir nos principais centros políticos do estado (Campina, Guarabira, Sousa, Monteiro), onde, à exceção de Cajazeiras, RC não conta com um suporte eleitoral local de força e tradição.

É exatamente nisso – apoio de grupos e lideranças locais – que é apontado como a principal fragilidade do governador Ricardo Coutinho, que reside a força de Cássio e Veneziano.

No caso desse último, o suporte que darão PMDB e PT pode ser a chave para visualizar a via pela qual Veneziano Vital pretende percorrer para chegar ao segundo turno, alimentada pela polarização nacional que começa a se consolidar entre PSDB e PT.

Por que RC acena para o PMDB?

Como é por demais sabido, o governador não conta com o apoio das principais máquinas partidárias do estado e de suas lideranças. Em 2010, ninguém duvida que foi o deslocamento do cassismo – não apenas de Cássio Cunha Lima – em direção a RC que lhe deu a apertada vitória para o governo.

E não é por outro motivo que o governador lança publicamente impetuosas cantadas ao PMDB para obter o apoio do partido e retirar-lhe a candidatura própria.

RC procura desesperadamente uma ponte, seja para um acordo já no primeiro – para 
evitar o ato de desespero que será indicar Efraim Moraes para vice, – seja para o segundo turno, a depender do seu desempenho.

E, mais importante: retirar Veneziano da disputa, que é hoje não apenas a principal ameaça à sua candidatura em um possível segundo turno, mas também à de Cássio.

Mesmo que não surta o efeito desejado, a ação de RC tenta criar um sentimento no eleitorado de esvaziamento da candidatura de Veneziano Vital.

Por que Cássio acena para o PMDB?

O mesmo se pode dizer de Cássio Cunha Lima, mas em outra perspectiva. Cássio está numa situação muito mais confortável quando o assunto é presença no segundo turno, mas, nem de longe, ele pode se considerar vitorioso.

Por isso, a reação do Senador tucano à cantada de RC foi imediata ao conclamar a “unidade das oposições”. Ou seja, Cássio respondeu com um outro aceno para o PMDB.

Esse discurso tem quatro objetivos imediatos: afastar os peemedebistas de qualquer diálogo com RC, reforçar sua identidade política com a “oposição”, já que RC – e Veneziano – continuam insistindo no tardio “oposicionismo” cassista, e começar a construir uma “frente” contra RC, neutralizando os ataques de Veneziano a Cássio, e reforçar as tensões internas no PMDB, que ainda existem, quanto a uma aliança com Cássio já no primeiro turno.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Pesquisa Consult-MaisPB mostra disputa em aberto para o governo


Os números da primeira pesquisa de intenção de voto realizada depois do anúncio do rompimento entre o senador Cássio Cunha Lima e governador Ricardo Coutinho (Cássio, 40,8%; RC, 23,9%; Veneziano, 12,15%) nos permite pelo menos uma projeção: teremos uma disputa acirradíssima em 2014, repetindo o que aconteceu nas três últimas eleições.

Com a diferença de que, dessa vez, teremos três candidatos com chances de irem para o segundo turno.

Ainda falta a divulgação dos índices de rejeição de cada um para aferirmos melhor o potencial de cada um deles na disputa. Fiquemos por ora na análise das intenções de votos.

Cássio

Confesso que achei os números do senador e ex-governador tucano um tanto decepcionantes, considerando a competente movimentação política dos últimos anos e a espetacularização do anúncio do rompimento com RC, fato ocorrida há poucos dias.

Se considerarmos que, no campo da imagem, Cássio não fez nada nos últimos três anos não ser cultivar a dubiedade necessária na sua relação com o governo, de quem era apoiador e partícipe, os números de Cássio aferidos em um momento tão favorável devem acender o sinal de alerta entre os tucanos. Cássio não está com essa bola toda, como se imaginava.

Em 2010, Cunha Lima posou de vítima perseguida pelas forças malévolas do maranhismo, o que o ajudou a desviar o foco tanto da avaliação a respeito do seu governo, quanto dos motivos que levaram a sua cassação.

Tanto uma coisa como outra, se bem apresentadas ao eleitor, poderiam gerar grandes problemas para o tucano, mas o PMDB não soube aproveitar esse flanco aberto em 2010.

Por outro lado, a aliança com RC permitiu tanto que Cássio quebrasse a unidade do bloco liderado pelo PMDB, como essa aproximação com um político com uma imagem fortemente positiva no meio do eleitorado, ajudou o ex-governador a suavizar e a reconstruir sua própria imagem.

A vitória de 2010, numa situação inicialmente muito desfavorável, mostra o quanto a estratégia cassista foi correta, no que ela foi ajudada pelos erros primários cometidos por José Maranhão, especialmente durante a campanha.

Após a vitória de 2010, Cássio preparou com paciência o anúncio do rompimento com RC e o anúncio de sua própria candidatura. Sempre dúbio em relação ao governo, Cássio foi capaz de, mesmo de corpo inteiro no governo, manter-se palatável até para o mais empedernido antiricardista. Coisas da política paraibana...

Os 40% obtidos pelo tucano representam um número próximo ao que ele obteve nas eleições de 2002 e 2006, considerando os votos nulos e brancos. A questão é saber se esse é o teto cassista ou se ele pode crescer além disso. Por isso, os dados da rejeição são tão relevantes agora.

É bom considerar que Cássio correu livre e solto nos últimos três anos. Paparicado pela oposição, que ansiava pelo rompimento, e sem poder ser atacado pelo ricardismo, imobilizado diante da esperança de ainda manter a aliança, Cássio manuseou com a habilidade costumeira as expectativas de potenciais adversários em relação a ele.

Depois do rompimento, a situação mudou. E para pior. A máquina de comunicação do governo vai tentar a todo custo desconstruir a imagem do ex-governador. Líder nas pesquisas e, hoje, a ameaça principal tanto ao ricardismo quando ao PMDB, Cássio vai penar sob pesada artilharia.

Ou seja, a tendência é Cássio perder fôlego e alguns dos votos incorporados ao espólio nos últimos anos, o que não tende a inviabilizar sua candidatura, mas igualá-la em potencial a dos principais adversários. Só durante a campanha teremos uma percepção mais clara se o tucano será presença garantida no segundo turno.

Ricardo Coutinho

Para um candidato que está há três anos sentado na cadeira de governador, a situação de Ricardo Coutinho não é nada confortável. Os 24% das intenções de voto o colocam numa posição muita frágil, seja porque esse resultado indica que o seu governo não anda bem avaliado, seja porque sua liderança não parece ainda consolidada no estado.

E RC tem uma dificuldade mais grave para superar essa situação. A sua força aglutinadora parece localizada quase que exclusivamente no controle da máquina administrativa, o que tem lá sua importância, mas é insuficiente para levar um candidato à reeleição à vitória, como 2010 já demonstrou.

Do ponto de vista da estrutura partidária, RC não dispõe de uma que possa lhe dar suporte nos principais municípios, à exceção de João Pessoa. E é nesses municípios de grande porte onde RC tem mais contestação e mais insatisfações com seu governo.

Mesmo na Capital e região metropolitana, o PSB perdeu muito da força acumulada depois que o ex-prefeito Luciano Agra e seu grupo romperam com o governador. Aqui, RC pode viver o pesadelo de ter que dividir por igual o eleitorado da Capital, vendo anulado aquele que foi seu principal colégio eleitoral.

Em Campina, o segundo colégio eleitoral RC tende a ser engolido pelo campinismo e sofrer uma pesada derrota eleitoral para seus principais adversários, que são campinenses. É improvável que Rômulo Gouveia, mesmo na vice, consiga abrir o coração de Campina para “forasteiros”.

Do ponto de vista dos grupos políticos, RC tende a ficar fora da polarização em Patos e Sousa, bem como em Guarabira e Monteiro. Em Cajazeiras, onde conta com o apoio de Carlos Antônio e seu grupo, RC disputa, mas sem grandes perspectivas de obter uma vitória que anule as derrotas em outros grandes municípios.

RC dependerá, enfim, do seu desempenho nos pequenos municípios, onde, aliás, venceram todos os candidatos à reeleição. É preciso saber se cada prefeito desse que está anunciando apoio ao governador entregará a rapadura como prometido.

Mas, é bom não subestimar Ricardo Coutinho. Além de contar com uma poderosa máquina administrativa e de comunicação, RC tem um portfólio de obras para mostrar interior adentro. Além disso, Coutinho tentará se apresentar como o político anti-oligarca, fato reforçado pelo tradicionalismo político e familiar dos outros dois candidatos.

Enfim, RC não está fora do jogo, mas terá grandes dificuldades nessa campanha, especialmente no segundo turno, se ele conseguir chegar lá. RC tem de torcer para o seu candidato a presidente não passar para o segundo turno com Dilma. Nesse caso, ele não terá a quem pedir apoio.

Veneziano

Dos três candidatos ao governo, Veneziano é hoje o menos conhecido e o único que ainda não foi governador. De um lado, isso significa que ele tem potencial de crescimento quanto mais o eleitorado paraibano passe a conhecê-lo. Sem ter sido governador, restará aos adversários a crítica à gestão de oito anos do peemedebista em Campina Grande.

E é bom Vital do Rego se preparar para esse debate para não transformar essa experiência administrativa no seu “calcanhar de Aquiles”.

A imagem que ficou para parte expressiva do eleitorado, especialmente em João Pessoa, foi a dos últimos três meses de gestão, marcada por um clima que tentava traduzir uma situação de caos e abandono de Campina Grande.

Artificial ou não essa imagem se converte hoje em um fator de resistência de parte do eleitorado à candidatura do Cabeludo. Seu maior desafio será mostrar que esses últimos três meses não representam o que foram os seus oito anos de administração.

E Veneziano tem um poderoso argumento. Se sua administração era tão ruim, como foi que sua candidata à prefeitura, a desconhecida e pouco habilidosa, Tatiana Medeiros, obteve mais de 40% dos votos em 2012, superando a conhecida deputada Daniela Ribeiro, do PP?

Ou seja, o desempenho eleitoral de Veneziano em 2014 estará intimamente ligado a esse debate. Se seus adversários conseguiram corroborar como marca da gestão a imagem que ficou dos últimos três meses de gestão em Campina, Veneziano dificilmente se viabilizará. Caso contrário, ele entra no jogo com grandes chances de vitória.

Por vários motivos. Veneziano deve ter o apoio do PT e de parte do “blocão” – 0 PP dificilmente vem, mas aí Aguinaldo Ribeiro vai provavelmente inviabilizar sua continuidade no ministério em caso de da reeleição de Dilma, – e de outros partidos, como o PR, o que dará uma poderoso arma eleitoral: o maior tempo de TV.

Por outro lado, Veneziano tem ao seu dispor uma formidável estrutura partidária, a 
maior da Paraíba, enraizada por todo o estado devido à longevidade política do PMDB. De João Pessoa a Cajazeiras, o PMDB dispõe de lideranças que rivalizam em cada município com outros grupos.

Veneziano, além disso, contará com o suporte político de uma candidatura aliada à campanha de reeleição de Dilma Rousseff e com o apoio e a presença de Lula, um poderoso reforço ao seu palanque.

Diferentemente de 2010, quando RC usou a influência de Eduardo Campos para neutralizar o apoio de Dilma e Lula a José Maranhão, em 2014, Campos será o nome a ser batido no Nordeste. E Lula tratará disso com toda atenção e carinho.

Por fim, Vital do Rego tem discurso. Ele será o único candidato que pode com legitimidade se mostrar ao eleitorado como oposição. Cássio será tratado pelos dois adversários como o oportunista, aquele que se aproveitou do governo até o último instante para depois abandoná-lo.

2014 promete


Enfim, a eleição de 2014 promete muitas emoções. Um prato cheio para quem gosta e acompanha a política.

sexta-feira, 21 de março de 2014

A moda do golpe: da Venezuela à Paraíba

Marchas para o golpe
Em 28 de junho de 2009, o presidente legitimamente eleito de Honduras, Manuel Zelaya, foi deposto pelo Exército depois de uma determinação da mais alta Corte de justiça do país. Em 22 de junho de 2012. O presidente constitucional do Paraguai, Fernando Lugo, foi destituído do cargo pelo parlamento paraguaio depois de um processo de impeachment que durou pouco mais de um dia. Lugo, de esquerda, se elegera em 2008, derrotando o conservador Partido Colorado, no poder há 61 anos.
A Venezuela vive seus dias de mobilizações contra o governo de Nicolas Maduro, lideradas por uma oposição declaramente golpista que também tem o apoio dos EUA. A Venezuela, o país de maior estabilidade democrática da América Latina, já sofreu uma tentativa de golpe, quando em 11 de abril de 2002, o então Presidente Hugo Chavez foi deposto e preso por 47 horas, quando o povo foi às ruas e reverteu o golpe.
Fiquemos na América Latina e para não falarmos do que ocorreu recentemente na Ucrânia.
No Brasil, a pregação golpista é cada vez mais escancarada. Nas mobilizações que tomaram as ruas do país no ano passado, não era incomum ver pessoas segurando cartazes em que defendiam a volta da ditadura. Nas redes sociais, grupos são criados para defender a volta da ditadura militar: Regime Militar Brasil, Ditadura militar já, Golpe Militar 2014 são nomes de grupos criados no Facebook com esse objetivo explícito. Um deles (Golpe Militar 2014) já tem mais de 21 mil “curtidas”.
É desses grupos a iniciativa de realizar a “Marcha da família com Deus pela liberdade”, que acontece amanhã (22 de março), na mesma data da marcha que, 50 anos atrás, mostrou o apoio da classe média ao golpe militar que deporia o presidente João Goulart 11 dias depois.
Com a nossa história, ninguém pode brincar com golpe no Brasil.
Golpe em Santa Rita
É nesse clima que se dá a tentativa de deposição do prefeito de Santa Rita, Reginaldo Pereira, por um grupo de vereadores “insatisfeitos” com a administração santarritense, a partir de motivos obscuros que, se postos em prática, serviriam de justificativa para afastar quase todos os prefeitos do Brasil.
O que acontece em Santa Rita tem nome: “golpe”. E não dá para aplaudir, por maior que seja a insatisfação com a administração de Reginaldo Pereira, que tem pouco mais de um ano.
Além do casuísmo golpista, trata-se de uma demonstração, de um recado para os prefeitos de outras cidades e para os futuros prefeitos de Santa Rita do quanto eles são reféns políticos de parlamentares que sequer tem conhecimento do que significa ser “republicano”, como ficou demonstrado em entrevista que o “líder” da oposição em Santa Rita concedeu ao repórter Fernando Braz, da Rádio Arapuã.
E vamos aplaudir isso, só por conta de divergências políticas?
Golpe contra RC?
E o pior é que o modismo do golpe ameaça chegar ao centro do poder na Paraíba: a Assembleia Legislativa pretende reprovar as contas do governador Ricardo Coutinho para torna-lo inelegível.  E como, ao que parece, não há mais constrangimento político – ou moral – de se tratar de um assunto como esses, tudo é deixado às claras e discutido em toda roda composta de pessoas minimamente informada sobre a política paraibana.
No começo desse debate, eu achava que se tratava apenas de uma ameaça velada, mas infelizmente não é. Figuras proeminentes da oposição já tratam disso quase como um fato consumado e – vejam só – tem deputado do PT entre os mais afoitos na defesa da desaprovação das contas do governador.
Logo o PT, cuja ameaça de golpe – seja “institucional”, como em Honduras ou no Paraguai, seja pela via da força, como acontece hoje na Venezuela – vive a pender-lhe sobre o pescoço como uma espada de Dâmocles, o que lhe forçou a estreitar os laços com o conservadorismo, fato que o imobiliza no governo federal em muitos setores, como o da Reforma Agrária. Para não falar na política de juros.
Mais irônico ainda é ver deputados cassistas recém-convertidos ao oposicionismo começarem a flertar com a tese da desaprovação das contas, isso depois de mais de três anos vivendo sob a frondosa árvore do governismo, mesmo sem o “tapinha nas costas”, o “sorriso fácil” e outras necessidades mais.
Logo Cássio, cuja administração, em quase todos os longos seis anos de seu governo, recebeu pesadas censuras do Tribunal de Contas em razão de manobras contábeis realizadas para atingir a determinação constitucional de gastar 25% das receitas em educação, quando conseguia atingir. O que também acontecia na saúde e em outros setores do governo.
Fora a aprovação das contas de 2006, mesmo com as irregularidades que levaram à cassação de Cunha Lima. Mesmo com a demonstração do uso irregular dos recursos do “Fundo de Combate à Pobreza” que, entre outras coisas, financiou tratamento dentário de dezenas de milhares de reais para esposa de deputado. Convenhamos, esse não vem a ser um território onde o cassismo pode correr solto. Pelo contrário.
Para me opor a essa ação, não vou discutir nem entrar nas argumentações de ordem política, como a possibilidade de tornar RC um “cristo crucificado” pela velha política do familismo e do coronelismo insatisfeitas com seu governo – esse é um argumento falso, mas é um argumento que ganhará força quando (e se) essa questão ganhar força.
Prefiro me ater à necessidade de consolidação das instituições democráticas, que foi o que permitiu a ascensão de políticos cuja origem social era antes um impedimento para que isso acontecesse. Vejam Lula! Não precisamos de golpe, precisamos do aprimoramento dessas instituições.
E se existem problemas nos gastos do governo, que a Assembleia cuide que criar mecanismo para evitar que isso volte a acontecer, e não existe nada melhor que uma transparência radical para inibir ações, digamos assim, pouco republicanas.
De todos. 

segunda-feira, 17 de março de 2014

O silêncio ensurdecedor de Veneziano e a aliança PSDB-PMDB na Paraíba

O silêncio a que as lideranças peemedebistas paraibanas, especialmente o pré-candidato a governador, Veneziano Vital, se impuseram nos dias pós-carnaval é tão ou mais eloquente do que qualquer discurso.

Em política, como se sabe, as ações falam mais do que as palavras.

Quando se esperava uma ofensiva peemedebista imediatamente após a quarta-feira de cinzas, quando oficialmente se inicia o ano eleitoral, o que se viu foi um estratégico silêncio que deixa mais dúvidas do que certeza a respeito da manutenção da candidatura do Cabeludo.

A crise PT-PMDB

Mais ainda quando o silêncio ensurdecedor de Veneziano acontece em meio a maior crise entre PT-PMDB desde que Lula tornou os peemedebistas seus aliados preferenciais para governar o Brasil, com todas as implicações que isso trouxe em termos programáticos.

O PMDB quer mais espaço no governo, como, aliás, quer também todos os outros partidos da ampla aliança nacional, inclusive o PT, que controla hoje mais de 20 ministérios, inclusive os da Educação e da Saúde que, sozinhos, são responsáveis por quase 40% do que o Governo Federal gasta em impostos.

Dilma Rousseff, mais marqueteira do que política, tenta fragilizar o aliado com a mise-en-scène de que não vai negociar apoio político em troca de cargos.

Isso provavelmente para conseguir mais apoio na classe média, onde reside o maior foco de resistência à sua candidatura presidencial.

Jogar para a galera foi um erro que Lula, por exemplo, jamais cometeu com aliados, e por uma razão óbvia: é um tiro que pode sair pela culatra.

E o PMDB, com alguma razão, reclama do tratamento recebido, cuja marca fisiológica a Presidenta e o Ruy Falcão faz questão de acentuar nos últimos dias.

Como Dilma sabe que o PMDB jamais sairá unido em bloco para essa disputa – o que nunca aconteceu, diga-se de passagem, – como também sabe que o partido dificilmente abandonará o barco petista enquanto a presidenta se mostrar viável, e Lula se mantiver no horizonte como substituto de luxo, ela toureia o PMDB para dele se diferenciar, mesmo mantendo-o como aliado.

Cassio e Veneziano junto, isso é possível?

Existe a possibilidade do PMDB romper nacionalmente com Dilma, deixando de apoiá-la?

Não acredito, pelo menos no curto prazo. Mas, a direção nacional do PMDB, como todos sabem, é muito flexível para permitir que suas lideranças levem em conta os interesses de suas estratégias estaduais.

Só assim o PMDB se manteve até hoje como partido. Manter-se-á no futuro? Vamos ver.

É no caso da Paraíba? Eu não subestimaria a possibilidade de uma aliança do PMDB com o PSDB paraibano, com Veneziano Vital ocupando a vaga de Senador.

Internamente, uma parcela cada vez mais expressiva do PMDB começa a aderir a essa tese. Possíveis resistências, ao que parece, já não seriam hoje um óbice para a aliança, como o ex-governador José Maranhão.

Se RC juntou-se a Cássio para derrotar José Maranhão em 2010, qual o problema de Cássio juntar-se ao PMDB para derrotar o atual governador.

É aquela história: quem com ferro fere, com ferro será ferido...

Enfim, não serão problemas internos no PMDB que impedirão a aliança com o PSDB em 2010.

Por outro lado, o PT faz o que pode para ajudar para que isso aconteça, seja porque isso o obrigaria a “ser protagonista”, lançando sua candidata, Nadja Paliot, ao governo, seja porque isso o afastaria em definitivo do PMDB, deixando o PT livre para ocupar o espaço que um dia foi de Ricardo Coutinho. Isso ele já tenta fazer em João Pessoa.

Por isso, o PT continuar a tensionar a relação com o PMDB paraibano, resistindo como pode a uma aliança.

Mesmo que já esteja mais do que claro que a direção nacional petista tem uma indicação de apoiar o PMDB na Paraíba, a direção estadual optou por um processo lento, gradual e – se possível – desgastante para Veneziano, no que ela tem a alegre companhia do PP do ex-ministro Aguinaldo Ribeiro, que sonha dormindo e acordado com a possibilidade de ser ele o “Senador de Cássio”.

Todos juntos num mesmo projeto. E Dilma? Bom, deixemos os petistas em paz com essas perguntas indiscretas, não é mesmo?

Por fim, existe em marcha um movimento que pode se tornar irreversível, especialmente se Veneziano se mantiver imobilizado, como está hoje: a polarização Cássio-RC, que ambos alimentam mutuamente.

Veneziano sabe que pode ser engolido por ela. Por ora, essa polarização já dificulta, ou freia, a ascensão do peemedebista.

Se até maio Veneziano não se mostrar viável, alguns problemas aparecerão, principalmente o financeiro. E a Copa não ajudará muito, pelo contrário, ela tende a encurtar a disputa eleitoral, o que não beneficia em nada, pelo contrário, a estratégia venezianista.

Enfim, se eu tivesse de apostar hoje, eu ainda apostaria na manutenção da candidatura ao governo do PMDB. Mas, não sei por quanto tempo eu mantenho essa aposta.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Candidatura de Cássio impõe unidade PMDB-PT na Paraíba

Um dos argumentos mais utilizados por petistas de alta patente contra a coligação com o PMDB, apesar dos dois partidos estarem unidos no plano nacional, era o alto risco de uma eleição com apenas duas candidaturas, o que aumentava as chances de vitória de RC já no primeiro turno.

O lançamento da candidatura própria do partido ao governo do estado, tinha, portanto, uma justificativa estratégica, além de reafirmar o bordão inaugurado em 2012 (“protagonismo petista”), que o PT levou à vitória em João Pessoa.

Pois bem, o já previsível anúncio da candidatura do Senador Cássio Cunha Lima imporá uma redefinição das estratégias eleitorais para todos os partidos, inclusive e principalmente, para o PT.

Se já era discutível a possibilidade de uma terceira via na política paraibana, imagine agora uma quarta via, que é o espaço que sobrará para o PT diante das candidaturas de Ricardo Coutinho, Veneziano Vital e Cássio Cunha Lima.

Com o agravante de que a candidatura de Nadja Palitot ainda é só uma promessa, carecendo ainda de consistência eleitoral.

E, se considerarmos que 2014 é um o ano de Copa do Mundo no Brasil, que espremerá o tempo de campanha entre meados de julho a início de outubro, portanto, a pouco mais de dois meses, o desafio petista de empinar a candidatura de Nadja Palitot é inglório.

Ou alguém acha que o povo se preocupará com eleição antes que a Copa termine?

Eleição de Dilma é mesmo prioridade para o PT?

Num quadro com quatro candidaturas, duas de oposição e duas em apoio ao projeto nacional do PT, não é desconsiderável o risco de um segundo turno entre dois adversários de Dilma na Paraíba.

E, mesmo que o PT tenha alcançado um novo status político depois da conquista da prefeitura de João Pessoa, não parece provável que sua candidata encontre espaço para crescer e se mostrar viável.

Portanto, o quadro eleitoral da Paraíba é muito distinto de outros estados onde existe o confronto entre peemedebistas e petistas, como é o caso do Rio de Janeiro e Paraná, onde o PT tem candidaturas eleitoralmente viáveis na disputa. No caso do Rio, Lindberg Farias está à frente de Antônio Pezão, do PMDB.

No caso da Paraíba, manter uma candidatura que ainda não mostrou viabilidade apenas ajuda a acirrar desnecessariamente os ânimos de uma aliança nacional que anda em crise. E num momento-chave.

Além desse inconveniente atual, é preciso considerar a situação política que pode se gestar no futuro.

Em razão do fraco desempenho da candidata do PT, não vem a ser uma consideração despropositada afirmarmos que, hoje, temos três candidatos com chances de vitória na disputa estadual, e que disputarão as duas vagas no segundo turno.

Um desses candidatos, Ricardo Coutinho, está sentado na cadeira de onde conduz uma poderosa máquina administrativa e política do governo estadual, e que não pode ser subestimado.

O outro, o Senador Cássio Cunha Lima, tenta encarnar o papel do mais puro antiricardista, e é considerado, hoje, favorito à vitória, desde que antes consiga registrar sua candidatura.

O terceiro, mas não menos importante, é o ex-prefeito de Campina Grande, Veneziano Vital, que conta, além da máquina política e eleitoral do PMDB, o maior partido do estado, com a experiência administrativa de ter governado por oito anos a segunda maior cidade da Paraíba, além de um potencial discursivo que normalmente é uma arma poderosa em campanhas eleitorais.

Assim, numa disputa entre esses três candidatos, o risco de um segundo turno entre PSB e PSDB é altíssimo, o que representará um desastre político para o PT, que terá de optar, a depender de quem vá para o segundo turno com Dilma Rousseff, entre um desses dois adversários.

E qualquer um deles que vença representará um sério óbice para o projeto de o partido manter o controle da Prefeitura de João Pessoa em 2016.

Parece que chegou a hora do PT reavaliar sua estratégia e se inserir na disputa real que começa a se desenhar para 2014, na Paraíba e no Brasil. Nesse caso e nessa conjuntura, lançar candidatura própria pode ser a antítese do protagonismo que o PT exerce desde que conquistou o governo federal, em 2002.

É essa hegemonia que estará em jogo nas eleições presidenciais de 2014, com repercussões históricas na vida política do país e da América Latina.