quinta-feira, 30 de julho de 2015

Ofensiva de marketing de Cartaxo resulta em ofensiva política do PSB

Pesquisas, pesquisas...
Parecem nítidos os movimentos da administração Luciano Cartaxo com o objetivo de criar um clima de favoritismo na eleição do próximo ano.

Durante a semana passada, Cartaxo e seus assessores mais próximos concederam entrevistas numa ação claramente articulada e sincronizada. O prefeito, com ênfase na administração pessoense; Adalberto Fulgêncio, enfocando assuntos políticos, especialmente as relações com o PSB.

O que surpreendeu mesmo foi a ausência de um discurso que começasse a ensaiar a confrontação com o PSB, cuja intenção de lançar candidatura própria no próximo ano não parece ser mais segredo para ninguém.

Tanto o prefeito como Adalberto preferiram continuar alimentando a expectativa de que a aliança entre PT e PSB será mantida. E na trilha dessa ilusão, não se sabe exatamente com base em quê, até mesmo uma chapa com a deputada Estela Bezerra como candidata a vice foi lançada.

Parece que as movimentações iniciadas na semana passada, e que se encerraram com a divulgação de uma pesquisa francamente favorável à administração municipal, entretanto, não apenas deixaram de surtir o efeito desejado de interromper o curso do PSB rumo a assumir abertamente uma postura de oposição, como pare tê-lo acelerado.

Tanto que na última segunda-feira à noite já estava a postos para uma longa entrevista ao programa de TV Conexão Master nada mais nada menos que aquele que é tido como o provável candidato a prefeito pelo PSB, o secretário João Azevedo.

Ontem (quarta), foi a vez de outro secretário, Luís Torres, da Comunicação, aumentar o tom e disparar críticas à gestão de Luciano Cartaxo, bem como estabelecer uma outra perspectiva que certamente desagradou muito Luciano Cartaxo, qual seja, a de que em 2016 haverá “outra pauta” no debate eleitoral. Precisa desenhar?

Tanto que o vereador antiricardista, Bira Pereira, foi escalado por Cartaxo para uma resposta e fez circular imediatamente uma nota em que procura desqualificar Torres, afirmando que o “porta-voz” de RC estaria “com dor de cotovelo” em razão da torrente de obras que a prefeitura toca em João Pessoa, e que resultou nos 70% de aprovação obtidos em pesquisa publicada no último domingo.

Uma pesquisa pouco convincente

Na pesquisa realizada pelo IP4 – que também fez pesquisas para governador, em 2014, aqui na Paraíba – e divulgada pelo Correio da Paraíba no último domingo, a administração do prefeito Luciano Cartaxo é aprovada por 70,3% dos pessoenses, enquanto 21,5% desaprovam.

Além disso, a pesquisa quis saber sobre o conhecimento dos eleitores a respeito das obras em execução pela prefeitura (Lagoa, creches, programa habitacional, UPAs, investimentos em mobilidade urbana, e até a “calçadinha da Orla”).

Nenhuma menção negativa a respeito do trabalho desenvolvido pela prefeitura pessoense dessa pesquisa eu tomei conhecimento. Se existe um paraíso na terra, ele foi criado pelo IP4.

Acho que a turma de Cartaxo exagerou na dose, porque os números são realmente exagerados, especialmente porque há muito ainda por fazer.

Há não ser que Cartaxo pretenda ter números de aprovação semelhantes ao que Lula ou Eduardo Campos conquistaram próximos dos 80%, isso no fim do segundo mandato.

Sendo assim, Cartaxo terá pouca margem de crescimento lá para meados de 2016, quando serão mais decisivos esses números.

Os problemas da pesquisa começam com uma metodologia um tanto, digamos assim, “heterodoxa”. Ao invés dos tradicionais “ótimo, bom, regular positivo, regular negativo, ruim e péssimo”, a pesquisa confrontou o eleitor/a apenas com um “aprova” ou “desaprova.

Isso, claro, depois de perguntar a ele/a respeito das principais obras da prefeitura. Depois de ser lembrado dessa lista, que acaba funcionando como uma clara indução à resposta da pergunta que mais importa: e aí, aprova ou desaprova?

O entrevistado não teve nem a opção de pensar: isso está bem, mas aquilo nem tanto; a Orla está bem, mas os postos de saúde precisam melhorar; as creches parecem uma boa iniciativa, mas o trânsito está um horror.

Parece mesmo que o recurso ao “aprova x desaprova” pretende mesmo é esconder dificuldades num momento-chave para as definições de candidaturas em 2016, especialmente do PSB.

No meio desses 70% de aprovação, quantos são mesmo os que acham a administração ótima ou boa?

Se chegar a 50% nesses itens – eu acho que nem isso, porque 44,5% é o número a que chegou um outro instituto, que não é ligado ao PSB, mas a um “possível” aliado – a situação é dramática para Luciano Cartaxo.

Estamos a um ano do início da campanha, e três anos já é tempo suficiente para mostrar resultado, especialmente para uma administração de "continuidade".

Sejamos concretos: se Cartaxo ostentasse mesmo esses números tão expressivos ele estaria nessa posição que é de quase paralisia diante do acirramento das críticas do PSB?

É pouco provável, mesmo considerando o estilo pouco afeito aos confrontos do prefeito petista, o que não vem a ser um estilo adequando para esses dias de acirramento nacional que vivemos.

Mais ainda num quadro que tende a evoluir cada vez mais para um provável enfrentamento com um candidato apoiado pelo governador Ricardo Coutinho, no próximo ano, que ensejará uma disputa que tende a ser acirradíssima e, portanto, imprevisível.

Diferentemente de 2012, como eu já registrei antes, RC chegará a 2016 com um grande portfólio de obras e ações do governo do estado na Capital, que será acrescido ao trabalho como prefeito. 

Tudo isso impulsionado por uma máquina política e administrativa cada vez mais azeitada. E com um discurso com uma clareza que não deixa margem para titubeios, como já conhecemos do estilo de Ricardo Coutinho.

As palavras que escutei ontem de um socialista não dizem tudo, mas dizem muita coisa: “O problema da administração de Cartaxo não é apenas político. É principalmente administrativo: pouca coisa funciona, e o que funciona não foi ele que fez.” 

No campo de Cartaxo reina a confusão, tanto administrativa quanto política. Há tempo para superá-las, mas esse tempo é cada vez menor.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Ciro Gomes põe novamente o dedo na ferida


Ciro Gomes ensaia um retorno à política e não poderia escolher momento melhor do que esse em que o Brasil está imobilizado diante de uma crise sem paralelo na história recente brasileira.

Em seu estilo inconfundível, moldado por um discurso que recusa o floreio habitual tão comum na maioria dos políticos, inclusive nos de esquerda, quando instado a tratar de temas difíceis, Ciro Gomes coloca o dedo nas várias feridas abertas que enfeiam hoje a política nacional.

E o faz com a coragem de quem nunca tangenciou naquilo que, segundo diz, considera ser o fundamento de seu projeto político, que parece se conformar numa associação do projeto de país que vislumbra, há muito já esboçado num pequeno livro que ele escreveu com Mangabeira Unger (O próximo passouma alternativa prática ao neoliberalismo) antes da eleição de 1998, na qual foi candidato, e que tem por base a formação de uma consistente aliança que possa mobilizar os melhores quadros políticos da República.

Na abertura da entrevista que concedeu hoje ao site ConversaAfiada, de Paulo Henrique Amorim – notem que a escolha do veículo também diz muito a respeito do público para quem Ciro Gomes pretende falar,  o ex-governador do Ceará explicou porque resolveu voltar à cena política nacional.

Ciro expôs as razões que deveriam impelir a se manifestar quem dispõe de um mínimo de responsabilidade política nos dias de hoje.

Em primeiro lugar, a percepção de que o Brasil vive uma “escalada golpista” que procura transformar o país, de modo artificial, numa Venezuela.

Essa escalada golpista, que está em pleno andamento, tem variantes e todas elas assumem as feições de um golpe paraguaio, ou seja, dos golpes brancos levados a cabo recentemente na América Latina e que buscam a “legitimidade” por dentro da justiça (TSE) e do parlamento (TCU e Congresso), e cujo desenlace pode colocar em risco as instituições políticas da democracia brasileira duramente conquistadas.

Ciro Gomes, como se espera, não se recusa a apontar que a liderança oculta do golpismo está na “plutocracia”, no “estamento dos endinheirados, especialmente do setor financeiro”, que jamais deram trégua ao governo.

Isso mesmo depois de Dilma ter nomeado um dos seus representantes para o Ministério da Fazenda, o que para ele representa uma loucura da Presidenta, em vários sentidos, seja do ponto de vista político, seja do ponto de vista teórico.

Em segundo lugar, o que Ciro chama de “descaminhos” do segundo governo Dilma, que traiu as expectativas daqueles que, mesmo sem plena satisfação com os resultados do primeiro governo, enxergaram que a candidatura da petista representava a coesão de uma inteligência nacional que foi capaz de identificar ali os valores que importam para o país: a questão nacional, o compromisso moral com a superação das desigualdades e com uma política nacional de desenvolvimento para o Brasil.

Dilma, segundo Ciro, logo após ser eleita, lançou-se numa agenda que é a negação do que a sua candidatura representou, o que acabou por deslegitimar essa agenda que uniu o Brasil em 2014. E isso Dilma certamente fez cultivando uma ilusão de que, ao abraçar-se com “nossos adversários”, eles lhe dariam trégua.

Os problemas de Dilma no governo expressam a ausência de uma visão articulada, homogênea, coerente do ponto de vista político e ideológico, e que resultaram na constituição de um governo sem consistência, a começar pelos petistas que o compuseram no primeiro mandato.

Para Ciro, Dilma não entendeu direito o que fez com que ela se reelegesse. Ao desconsiderar isso, ela abriu o flanco para o golpe e, para evitar continuar jogando água no moinho do reacionarismo, Dilma precisa tomar outro caminho na “gestão da economia, na gestão da política brasileira”.

Ciro deseja, e isso é fundamental, “reconstituir essa legitimidade” perdida, o que significa dizer que ele pretende retomar as bandeiras que uniram o campo vitorioso em 2014 sob sua liderança. Segundo ele, esse campo não pode se recompor mais sob a liderança de Lula, que, para Ciro, será derrotado se abraçar nova candidatura em 2018.

Enfim, Ciro Gomes deu o recado. Um recado de quem percebeu, assim como faz o governador Ricardo Coutinho, o imenso espaço vazio que se abriu na política nacional após as denúncias da Operação Lava Jato e a desorientação política que tomou conta do governo e do PT, que não souberam ainda criar condições para sair da paralisia política que a mídia lhes impôs.

Diante da última pergunta: “Ciro Gomes é candidato em 2018?”, a resposta não poderia ser mais direta: “ Se eu não conseguir me desintoxicar (da vontade que o impele hoje a ser), não. Mas, seu eu achar que é necessário, sim.”

Mais do que a vontade de ser Presidente, que nunca deixou de ter, Ciro Gomes enxerga o campo aberto e uma esquerda órfã de alguém que responda à altura às inquietude e os dilemas atuais da política brasileira.

Lula tem desde hoje um oponente no campo da esquerda.

terça-feira, 14 de julho de 2015

PSB terá candidato; Cartaxo que se cuide


Quem cultivava nos gabinetes da Prefeitura de João Pessoa a esperança de que a aliança PSB-PT seria mantida, perdeu-as durante o último final de semana, quando o presidente nacional do PSB, o pernambucano Carlos Siqueira, incluiu João Pessoa entre as cidades nas quais os socialistas deverão lançar candidatos no próximo ano.

Mais expressiva ainda foi o acréscimo de Siqueira: “Essas já são as pré-candidaturas confirmadas”.

A informação contida na entrevista de Siqueira não foi confirmada, mas também não foi negada aqui na Paraíba. E como em política, em geral, quem cala consente, o silêncio do governador Ricardo Coutinho parece confirmar o que muitos tinham como certo já há algum tempo: o PSB terá mesmo candidato/a em João Pessoa.

E algumas questões parecem já plenamente amadurecidas para que uma decisão como essa se precipite aparentemente antes do tempo. Senão vejamos.

Cartaxo, Cássio e a “disputa nacional”

Luciano Cartaxo permitiu que Ricardo Coutinho liderasse na Paraíba desde que tomou posse do segundo mandato de governador a luta contra os que querem derrubar a presidenta Dilma Rousseff.

Esse movimento da oposição tucana tem na Paraíba um território importante desse embate, já que é paraibana uma das principais lideranças pró-impeachment, Cássio Cunha Lima.

Enquanto RC não perdeu uma oportunidade sequer de confrontar Cássio e o PSDB em razão do que ele chama de “golpe”, afinado com o discurso de Dilma, Lula e das principais lideranças nacionais petistas, Cartaxo mantém um silêncio que certamente constrange petistas e a base social do partido em todo o estado, especialmente em João Pessoa.

Há uma semana, instado a comentar sobre o resultado da última Convenção Nacional do PSDB que decidiu abraçar a proposta de impeachment, Cartaxo fez que não era com ele e deu uma de Conselheiro Acácio: “as críticas fazem parte da disputa política nacional”.

E repetiu o bordão preferido do momento: “Eleição só em 2016”. Tudo pare evitar uma mera crítica a Cássio.

Seria bom que alguém avisasse ao prefeito pessoense que essa não é uma mera disputa “nacional”, e mesmo que fosse ele é uma das figuras “nacionais” do PT, afinal vem a ser o único prefeito petista de uma capital nordestina.

Não é esse modelo de discurso, por exemplo, que adota Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, de longe a cidade que certamente abriga o maior contingente de antipetistas do país. Parece ser só uma questão de convicção, compromisso, consistência política.

E coragem.

Esse embate que se desenrola no país atualmente pode resultar no afastamento do governo de uma presidenta eleita pelo povo e empossada há pouco mais de seis meses.

E numa ação que, caso atinja seu objetivo, submeterá os avanços democráticos e institucionais dos últimos 30 anos aos caprichos de um mau perdedor.

Se isso fosse pouco, essa mudança não se resumiria a uma simples mudança de pessoas no governo, mas que resultaria na adoção pelo país de um outro modelo de desenvolvimento. Além das implicações de ordem geopolítica.

Nesse embate, o prefeito petista corre o risco de perder a confiança de boa parte da tradicional militância petista. Pior ainda: a base social pode migrar em peso para o PSB de Ricardo Coutinho.

Mesmo experimentados dirigentes, como o presidente estadual do PT, Charliton Machado, está tão desconfortável com os posicionamentos do prefeito petista que resolveu ser ele mesmo o principal porta-voz do partido no embate direto com Cássio Cunha Lima na Paraíba, criando um imenso óbice para essa aproximação.

Charliton, ao que parece, está só. Nem a tal “esquerda” petista, que dispõe de cargos na prefeitura, faz ecoar as críticas do seu presidente.

Os ataques de Charliton Machado deram certo porque forçaram Cássio a se posicionar. Mas, mesmo reconhecendo as dificuldades conjunturais para uma aliança com Cartaxo em 2016, deixou em aberto o futuro:

“Não vejo no curto prazo a possibilidade de uma aliança com o PT, apesar do respeito que registro pelo prefeito Luciano Cartaxo. Existe hoje um fosso que nos separa pela conjuntura nacional. É realmente algo muito difícil”.

No “curto prazo” (2016), não. Mas, quem sabe no médio prazo (2018)?

Ricardo vai construir seu candidato

O problema de Cartaxo no curto prazo talvez seja porque ele só mira o médio prazo. Cartaxo quer ser candidato a governador, em 2018.

Para isso, ele precisa não apenas se reeleger, mas deixar alguém de sua estrita confiança na cadeira de prefeito de João Pessoa quando precisar renunciar à PMJP.

Eis uma das razões que levam Cartaxo a transferir tudo para 2016: ele quer medir sua força eleitoral para poder decidir se banca uma chapa puro-sangue ou se, para sobreviver, entrega a vice a outro partido.

É claro que RC percebeu a intenção de Cartaxo e decidiu não esperar pela iniciativa do prefeito pessoense.

Coutinho vai construir o espaço do seu candidato para testar suas próprias chances de vitória, o que deve levar ao rompimento definitivo já que as rusgas, que já começaram, tenderão a se aprofundar, porque o espaço que resta ao PSB é o da oposição.

E com um candidato ricardista na oposição, o pesadelo de Luciano Cartaxo – enfrentar um candidato apoiado por Ricardo Coutinho no governo – deve se realizar.

E não será o Ricardo Coutinho desgastado de 2012 que Cartaxo irá enfrentar, mas um governador que planeja cuidadosamente cada passo que dá no seu segundo governo, especialmente em João Pessoa.

Ou seja, o RC de 2016 terá o portfólio da administração que realizou em João Pessoa e que o credenciou a disputar e a vencer o governo do estado em 2010.

Associado a isso, RC é cada vez mais uma liderança estadualizada, mas que precisa manter-se enraizado na capital, sua principal base eleitoral. Como complemento, uma azeitada máquina política e administrativa para contrapor à poderosa máquina que dispõe Luciano Cartaxo.

E uma aliança estadual, que pode juntar num mesmo palanque PSB, PMDB, PDT, PCdoB, PPS, PRB, PR, PTB e Dem.

Na próxima postagem, tratarei de uma questão pouco lembrada, e que passa por 2016, que se relaciona ao projeto de Ricardo Coutinho em 2018.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Lúcio Flávio Vasconcelos​ e a legitimidade do golpe

Print da postagem publica no Facebook de Lúcio Flávio Vasconcelos
Lúcio Flávio Vasconcelos, meu homônimo às avessas e colega de departamento na UFPB, publicou em sua página do Facebook uma defesa do impeachment da presidenta Dilma Rousseff sob o título “A legitimidade do Fora Dilma”. 

Infelizmente, é imperativo reconhecer isso, Lúcio passa a entoar o cântico golpista e a compor o coro aecista da oposição.  

Para justificar sua opção, Lúcio Flávio apela aparentemente para a memória histórica ao lembrar que o PT também defendeu, em momentos distintos, o “Fora Sarney”, o “Fora Collor” e o “Fora FHC”.

Como se trata de um debate político, é bom situar essas posições no seu tempo para evitarmos diversionismos.

Contra Sarney, havia no PT mais retórica do que uma intenção golpista de afastar a qualquer custo o então presidente, tanto que nenhuma ação destinada a propor o impeachment foi levada à frente. Sarney nunca foi ameaçado de ter o seu mandato interrompido.

Contra Collor, é bom lembrar, a adesão do PT se deu tardiamente e aconteceu apenas quando o movimento começava a adquirir apelo político e base de massas.

Isso porque, politicamente, não interessava ao PT o afastamento de Collor já que, caso ele concluísse o mandato, Lula seria favoritíssimo a vencer a eleição seguinte, a de 1994.

Como ficou demonstrado, o impeachment de Collor serviu antes de tudo para promover uma nova composição política. E a reorganização do bloco de poder que se deu em torno da eleição de FHC, cuja unidade levou às reformas promovidas durante o governo tucano.

Lembremos ainda que a proposta de impeachment de Collor partiu das organizações da sociedade civil (OAB, CNBB, ABI, UNE, etc.) e representou uma rara unidade da sociedade brasileira. Eis uma situação em que o impeachment torna-se uma saída política para uma grave crise institucional. Collor perdera a legitimidade como presidente e seu apoio no Congresso se reduzia ao então PFL, hoje DEM, e alguns parlamentares individualmente.

No caso de FHC, a afirmação não é verdadeira. O PT – nem o PCdoB – jamais defendeu o Fora FHC, mesmo que outras organizações políticas, como o MST, tenham empunhado a bandeira.

É importante situar isso porque, com essa posição, o PT demonstrava uma clara intenção de promover as mudanças que seu programa defendia por dentro da institucionalidade, e, para o bem e para o mal, sem as posturas mais à esquerda que orientaram as posições petistas na década de 1980, cujo corolário foi o programa de Lula, em 1989.

Além disso, também representava amadurecimento político e delineava uma preocupação com a consolidação das instituições democráticas no país: o PT temia ser vítima de possíveis maiorias ocasionais que desejassem lhe apear do poder quando o partido a ele chegasse.

E as alianças feitas em 2002 para eleger Lula, que foram ampliadas durante o governo, mais uma vez para o bem e para o mal, representam que o PT conquistou esse objetivo de se tornar “confiável” no exercício do poder.

Em uma outra passagem bastante sugestiva da postagem de Lúcio Flávio, por incorporar esse desprezo da oposição à Dilma pelo aperfeiçoamento das instituições democráticas, num país cuja história republicana até 1985 foi marcada pelo golpismo civil-militar, as circunstâncias são decisivas para que os oposicionistas abracem essa bandeira:

“Inegavelmente o governo Dilma enfrenta a pior crise da era petista. Com uma mistura de desemprego crescente, escalada da inflação, mega corrupção na Petrobras e outros órgãos, e derrotas sucessivas no Congresso Nacional, é legítimo e esperado do jogo democrático que a oposição clame nas ruas: fora Dilma.”

Percebam que essas circunstâncias de dificuldades econômicas e de denúncias de corrupção que resultaram de investigações dos órgãos do Estado – o que deveria ser saudado como um avanço e não servir de justificativa para intenções pouco republicanas , – é o que demonstra o caráter golpista da defesa do impeachment de Dilma.

Notem que até agora nada implicou a presidenta Dilma Rousseff e, portanto, a defesa do afastamento antecede qualquer constatação de seu envolvimento com o que a oposição aponta. 

É uma mera questão de momento, de timing, de circunstância. Enfim, trata-se do velho e conhecido oportunismo político, que é movido inegavelmente pelo desespero de Aécio Neves (e Cássio Cunha Lima, seu fiel escudeiro) de promover novas eleições em breve, já que eles não podem esperar por 2018 pois serão engolidos por Alckmin no PSDB.

Além disso, são fortemente questionáveis os argumentos da oposição tucana para justificar o pedido de impeachment. Seja o depoimento do dono da UTC, que procura corroborar a tese de procuradores de que as doações legais – sim, porque até agora nada do que foi apontado como “propina” apareceu em nenhuma conta particular de qualquer dirigente ou político petista – eram resultado de “propina”. 

A hipocrisia e o cinismo atinge o seu grau mais elevado quando se constata que o mesmo empresário “doou” um valor muito mais alto à campanha de Aécio Neves.

Quanto as tais “pedaladas fiscais” – recursos de bancos públicos que foram usados, entre outras coisas, para pagamento de programas sociais, que foram em seguida devidamente ressarcidos pelo Tesouro, – os tucanos querem que sejam convertidas em crime de responsabilidade uma prática que se tornou usual desde o governo FHC e que foi aprovada pelo TCU até 2013. Por que só agora lembraram dessa “ilegalidade”?

Para terminar, meu caro Lúcio Flávio Vasconcelos, eu sugiro uma releitura a respeito da frase de Montesquieu que você utiliza para abrir sua postagem (“liberdade é o direito de fazer tudo o que as leis permitem, ou não proíbem.)

A frase nem de longe justifica as opções golpistas de figuras marcadamente republicanas como Aécio Neves, Cássio Cunha Lima, José Agripino Maia, Ronaldo Caiado e Eduardo Cunha. Pelo contrário. Montesquieu está preocupado com o abuso do poder – daí a necessidade de separação dos poderes.

O que vemos acontecer no Brasil, hoje, é o uso de instrumentos do Estado (juízes de várias instâncias, policiais federais, procuradores), com o claro e decisivo apoio da mídia, que esqueceram esse princípio elementar e fundante das sociedades democráticas modernas que é o da equidade jurídica. Sem ela, não pode haver lei para todos; sem ela, não pode haver liberdade plena, a não ser para alguns que estão acima da lei.


É uma pena, meu caro Lúcio, que sua adesão a Cássio tenha se estendido às ideias mais conservadoras que ele hoje abraça. 

terça-feira, 30 de junho de 2015

A história se repetirá como farsa no Brasil?

Os invisíveis para o desenvolvimento econômico brasileiro: quem se importa com eles?
A hora é essa: petistas, socialistas, comunistas, a esquerda em geral, democratas e todos aqueles que lutam e lutaram sempre por igualdade social e soberania nacional esquecerem suas diferenças e se preocuparem com o momento decisivo que o Brasil vive.

Como alertou, ontem, Joaquim Palhares, do site Carta Maior, a “história apertou o passo” e diante de um confronto que parece cada vez mais inevitável e cujas consequências todos nós conhecemos, trata-se agora de “escolher um dos lados e tomar posição para o combate”.

Quando todos nos encontrarmos lá na frente, nós que nos colocaremos do lado de cá dessa trincheira histórica, será a hora de resolvermos nossas “pendências, críticas, autocríticas, repactuações, concessões e escolhas estratégicas que vão modelar o passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.” Espero que na vitória e não sob os escombros de mais uma derrota histórica.

Para os donos do Brasil, o país não pode mudar no essencial

A direita brasileira nem longe descansará enquanto não extirpar do governo todo traço que represente qualquer veleidade igualitária, por mais tímida que seja.

Ela não aceitará qualquer alinhamento estratégico do país que não tenha a chancela americana e corrobore seus interesses.

Que ninguém se engane porque é isso que sempre esteve em jogo: que modelo de desenvolvimento queremos para o país? Dito de outra forma, desenvolvimento para quê e para quem?

Essa foi a pergunta que sempre ressoou em todos os momentos históricos em que o país se defrontou depois de sua modernização industrial e cuja origem sempre esteve na raiz de todos os nossos reais conflitos políticos, desde 1950.

A resposta a essa questão-chave definiu sempre os lados na política nacional e opôs aqueles que, empurrados ou não pela dinâmica dos conflitos sociais engendrados pelas formas perversas que assumiram o desenvolvimento brasileiro, se perfilaram para o combate.

Em um dos países que mais cresceram economicamente no século XX como o Brasil, vivenciar a miséria, a fome, os baixos salários, a concentração da renda e da terra, os péssimos serviços públicos, especialmente aqueles destinados aos mais pobres – tudo isso convivendo ao lado da riqueza mais abastada – sempre foi expressivo o suficiente para nos fazer compreender que esse tipo de desenvolvimento econômico e social não nos interessava, pelo menos não interessava à maioria empobrecida que sempre viveu à margem da imensa riqueza produzida.

E a quem sempre pensou em um desenvolvimento nacional autônomo.

O conservadorismo de nossa “elite econômica” é uma permanência histórica. Parece ser algo endógeno, “naturalizado”, nascido de sua formação colonial.

Parece ser próprio de quem é rico no Brasil, mesmo que esse “novo rico” tenha saído da pobreza (vejam os casos dos nossos jogadores de futebol, que passam a pensar e agir como “rico brasileiro”, no seu individualismo doentio, assim que assinam seu primeiro contrato milionário). Vejam os Ronaldos e Neymares da vida.

A começar pela burguesia industrial que sempre foi incapaz de se pensar no mundo sem assumir um papel associado, secundário, auxiliar, subsidiário dos interesses dos grandes impérios.

E de um latifúndio, modernizado agora como “agronegócio”, cujo papel histórico na política e na economia foi sempre barrar qualquer avanço social que colocasse em risco a posse de suas imensas propriedades e seus negócios com os mercados externos.

E uma classe média, que foi se tornando numerosa quanto mais a industrialização brasileira avançava, mesmo que diversa política, intelectual e culturalmente, perfilou-se sempre em sua ampla maioria ao lado desse conservadorismo rançoso dessas elites econômicas, hoje comandada por banqueiros e empreiteiros.

Sempre aberta ao envenenamento ideológico dos donos do oligopólio midiático-conservador, a mais legítima expressão ideológica dessas elites econômicas.

Os donos da informação no Brasil sempre foram parte integrante desse condomínio reacionário, que tem como partícipe a onipresença americana em nossa história – dessa vez não será preciso esperar 50 anos para termos a comprovação factual do envolvimento direto nos EUA, como aconteceu com o golpe de 1964; o Wikileaks já antecipou que a ingerência americana permanece e como sempre conta com sabotadores internos de alta plumagem na política e na imprensa.

De volta ao passado

Ontem (29/06), o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, essa indefectível criatura que representa tão bem esses tempos de falso moralismo, anunciou a intenção de aprovar o parlamentarismo.

Como eu registrei ontem no Facebook, Dilma deve estar vivenciando uma irremediável sensação de déjà vu – aquela expressão francesa que nomeia uma estranha sensação de familiaridade com fatos do presente, como se já os tivéssemos vivenciado.

Em 1961, depois da renúncia de Jânio Quadros à Presidência e da ascensão de João Goulart ao cargo, como estava previsto constitucionalmente, a saída para que a UDN – o PSDB de hoje – evitasse o retorno do Varguismo ao poder foi aprovar às pressas o parlamentarismo no Brasil.

Essa foi a primeira ação golpista, um golpe parlamentar urdido nos gabinetes da reação com pleno apoio das mesmas famílias que continuam dominando a imprensa no Brasil de hoje.

Depois que o povo derrotou em plebiscito a proposta, o golpe militar virou a alternativa número um para afastar os trabalhistas do poder.

Uma diferença importante entre as circunstâncias históricas dos anos 1960 e a atual é que, há 50 anos, em plena guerra fria e numa América Latina envolvida pelo ambiente da Revolução Cubana, a radicalidade política tinha um fundo ideológico evidente e o governo de João Goulart abraçava o propósito de fazer as chamadas reformas estruturais que a esquerda reclamava no Brasil há muito.

Hoje, o PT, com Lula e Dilma, nem sequer ousaram até agora enfrentar esses dilemas estruturais que, a rigor, continuam os mesmos. Mas, mesmo assim, recebem encarniçada oposição.

Não sei se é burrice ou cegueira histórica, mas certamente essa turma não leva a sério o adágio de Karl Marx segundo o qual história só se repete duas vezes, “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.”

A tragédia já se realizou nos 21 anos de ditadura militar. A farsa estamos vivenciando, faltando apenas os militares que estão fora da cena política em todo o continente.

Depois da farsa que representou para Marx a tentativa de repetição do bonapartismo na França, com a ascensão, em 1851, de Lu´s Bonaparte, sobrinho de Napoleão, que eleito presidente golpeou a República para logo depois se tornar Imperador, veio a Comuna de Paris, que foi o primeiro movimento operário de inspiração socialista a tomar o poder.

Como nesses tempos de “globalização”, ao que parece, não cabem milicos com veleidades nacionalistas, o golpe será dado por dentro das instituições, como, aliás, já acontece faz tempo sem uma reação à altura nem de Lula nem de Dilma.

Até que o povo reaja, como aconteceu em 1961.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

LUCIANO CARTAXO (PT) VISITA ROMERO RODRIGUES (PSDB). E DAI?



Uma imagem vale por mil palavras também na política? Às vezes sim, às vezes não. Mas, em política, uma das maneiras de falar é o silêncio. Ou um ato. Ou uma imagem.

Quando o prefeito Luciano Cartaxo resolveu fazer, no último sábado, uma visita ao camarote da Prefeitura de Campina Grande no Parque do Povo, onde foi recebido por Romero Rodrigues e devidamente anunciado ao grande público, para em seguida a dupla fazer um périplo pelos camarotes, é de dar o que falar, não é mesmo?

Alguns dirão que se trata apenas de um ato de cortesia, de civilidade política. Que é sempre bom não misturar questões pessoais com política e não exigir tanto do prefeito petista quando o assunto for suas incursões na vida social. Quem sabe o prefeito petista queria apenas conhecer aquela bela festa? Quem sabe?

Se não for por isso, talvez seja adequado pensar que Cartaxo não dá lá muita importância ao que o líder de Romero Rodrigues, Cássio Cunha Lima, diz e faz no Congresso, sempre com grande destaque da mídia, desde que a Presidenta Dilma tomou posso para cumprir o seu segundo mandato presidencial – Cartaxo nem sequer deixou esfriar a repercussão da última visita que a trupe de senadores comandada por Aécio Neves, que Cássio compôs, fez à Venezuela para constranger o governo brasileiro, num ato da mais pura provocação e desmiolamento político.

Talvez Luciano Cartaxo não consiga ver relação entre sua condição de prefeito petista e a de Romero Rodrigues de prefeito tucano em um Brasil conflagrado pela radicalização política, onde os mais altos dirigentes petistas declaram que o objetivo tucano – e da mídia e seus parceiros – é destruir o PT e impedir a candidatura de Lula em 2018, mesmo que para isso tenham de prendê-lo.

Será que estamos diante de mais um caso de autismo político? Como eu não costumo subestimar a sagacidade política de ninguém, especialmente de alguém que se elegeu prefeito da maior cidade do estado, nem a capacidade de ler e ver a realidade – mesmo que seja ao seu modo, – vou considerar que Cartaxo quis mandar um recado.

A visita de Luciano Cartaxo ao Parque do Povo foi antecedida por um aumento da pressão política, proporcionada pelas visitas e inaugurações de obras do governo do estado em João Pessoa, levando muita gente a crer que estavam diante de mais um capítulo da esgarçada aliança entre PT e PSB na Paraíba.

Talvez – é bom ressaltar: talvez – haja na iniciativa de Luciano Cartaxo um recado que insinua a possibilidade de que, sem o PSB, outras alianças podem dar suporte ao projeto político do prefeito, que é se reeleger abrigado numa chapa puro-sangue.

Se for isso mesmo, o recado de Cartaxo funciona não como um antídoto, mas um estímulo, e mesmo uma justificativa, para o rompimento de uma aliança que, se não deu frutos eleitorais para o PT, em 2014, ajudou a transformar o governador Ricardo Coutinho na principal liderança a defender a presidenta Dilma e a denunciar o golpe branco, parlamentar, que está em pleno andamento.

Enquanto o PSDB e determinados seguimentos da política paraibana fazem pesada oposição a RC, a principal liderança do PT no estado se desloca da capital para participar de uma festa promovida por uma administração tucana, cujo prefeito é primo do líder da oposição no Senado e homem de confiança da principal liderança oposicionista no Brasil, hoje.

Nesses tempos sombrios em que vivemos na política nacional, que podem resultar em perigosas rupturas institucionais, é necessário não subestimar o significado de determinadas atitudes políticas. 

terça-feira, 16 de junho de 2015

PMDB, JOÃO PESSOA, CAMPINA...

PMDB sela apoio a RC, em 2014. Acordo temporário ou aliança duradoura?
A ida do deputado federal Manoel Jr. à convenção estadual do PSDB causou um certo frisson naqueles que imaginam (ou torcem) para que o peemedebista se consolide como candidato e uma alternativa em João Pessoa tanto ao PT quanto ao PSB.
Manoel Jr. se esforça por estabelecer sua candidatura como um fato consumado, mas ele mais do que ninguém sabe que muita água vai rolar até que seja batido o martelo a respeito de qual vai ser mesmo o destino do PMDB, não apenas em 2016, mas em 2018.
Por enquanto, José Maranhão estimula uma candidatura própria em João Pessoa, o que dá esperanças a Manoel Jr., ao PSDB e a setores da imprensa interessados no racha do bloco partidário vitorioso em 2014 na Paraíba.
Não apenas Maranhão sabe que é muito cedo para definir qualquer objetivo quando ainda resta tanto tempo para se tomar um decisão, especialmente porque tanto o PMDB continua dividido como o quadro ainda está bastante indefinido nas duas principais cidade do estado quando o assunto é eleição de 2016.
A aliança PT-PSB será mantida? O PSB lançará candidato? Quem? Veneziano disputará a prefeitura de Campina? A resposta a essas questões definirá o destino do PMDB daqui a um ano.
O amadurecimento desse quadro irá nos revelando a verdade sobre os motivos para que cada ator político esconda o jogo sobre seus objetivos para o próximo ano.
Só há uma decisão tomada e anunciada: a de que Luciano Cartaxo será candidato à reeleição. Como ele não responde com clareza se concorda com a indicação do PSB para a vaga de vice-prefeito em sua chapa, tudo se mantém indefinido e os socialistas que defendem lançamento de candidatura animam cada vez mais, enquanto o clima pró-rompimento com o PT se consolida.
Caso isso se efetive, o PMDB será tratado como a noiva da eleição, com grande probabilidade de vir a compor com o PSB, com quem mantém relações cada vez mais próximas em nível estadual.
Há indefinição também no caso de Campina Grande. Se Cartaxo pode trabalhar com tranquilidade sem temer que o PT não lhe ofereça legenda para concorrer no próximo ano, o mesmo não acontece em Campina, quando Romero Rodrigues, por mais que afirme o contrário, convive com sérias dúvidas a respeito de seu projeto de reeleição. Quando setembro passar, bem como o prazo de mudança partidária, um capítulo dessa novela terá se concluído, mas teremos de esperar pela conclusão do enredo final, quando será batido o martelo e confirmada ou não a candidatura tucana na cidade.
Essa indefinição deixa em suspenso o lançamento da candidatura de Veneziano Vital do Rego em Campina, apesar de que isso possa estar vinculado ao receio de antecipar o anúncio e deixar o “cabeludo” a mercê dos ataques adversários, como aconteceu em 2014.
Veneziano também deve observar com atenção os movimentos do outro lado, esperando para ver se enfrentará Romero Rodrigues ou algum Cunha Lima.
Essa definição é estratégica, mas é possível que Veneziano se arrisque numa empreitada que provavelmente deságue na retomada do seu caminho para disputar, talvez em 2022 ou 23, o governo do estrado.
Todas essas injunções ajudarão a definir a estratégia de cada força política para o próximo ano, especialmente do PMDB.

Se fosse obrigado a antecipar qualquer posição, eu consideraria bastante improvável que o PMDB mantenha a disposição de lançar candidatura própria em João Pessoa, no próximo ano. O partido tem mais a perder do que a ganhar com isso.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Pamela X Indaiá - ou quando os papéis se invertem



Para algumas patroas, essa é a posição em que suas
empregadas deveriam ser mantidas
O caso de agressão que envolveu a babá Indaiá Moreira e a ex-primeira-dama da Paraíba, Pâmela Bório, é muito didático para mostrar pelo menos duas coisas: a persistência da típica mentalidade senhorial/colonial que ainda nos assombra em pleno século XXI, e o quanto parte da imprensa, na sua ânsia de atingir o governador, se esforça por deslocar o foco do verdadeiro debate que o caso enseja, procurando transformar a vítima em algoz.

Na noite desta quarta-feira, 03, no início da madrugada, a Delegacia de Crimes Contra a Pessoa da Capital recebeu a visita da babá Indaiá Moreira, de 47 anos. Indaiá estava lá para registrar uma agressão.

Segundo consta no Termo de Declaração onde relata a ocorrência, por volta das 22h30 da terça, dia 2, sua patroa invadiu seu quarto para exigir que a mesma fosse embora para que não contaminasse com a virose que a deixara de cama nem a ela nem a seu filho, de quem Indaiá cuidava.

Como era tarde e como estava doente, Indaiá apelou para ficar e não foi embora. Como ela também relata que já tinha se comprometido a deixar a residência da patroa no dia seguinte, é presumível que a discussão tenha começado antes, em outro cômodo do luxuoso apartamento em que mora a patroa na praia do Cabo Branco.

Mesmo assim, a patroa quis porque quis que ela dali se retirasse.

Sempre segundo o que consta no TD, diante de nova recusa, a patroa de Indaiá tentou retirá-la à força do apartamento, agredindo-a com socos, chutes e unhadas, que lhe feriram o rosto e o braço.

Depois de tentar atirar os dois celulares da vítima pela janela, além da bolsa pela porta da cozinha, Indaiá foi atacada com uma faca por Pâmela Bório, cujas investidas, ainda que impedidas pelo irmão da patroa que presenciava a discussão, forçaram a babá finalmente pegar o elevador e chegar a salvo no térreo do prédio, de onde ligou para o governador Ricardo Coutinho, que lhe enviou apoio.

Do local, Indaiá dirigiu à delegacia onde registou o ocorrido. A delegada que ouviu a babá solicitou a realização de exame de corpo de delito, quando ficaram constatadas “escoriações lineares no braço direito” e no dorso. Os documentos foram divulgados por sites pessoenses.

Boletins de Ocorrência sobre o mesmo caso. Inversão de papéis 24 horas depois


Pâmela, de agressora a vitima

Vinte e quatro horas depois de denunciada como autora da agressão, Pâmela Bório denunciou Indaiá como agressora. No dia 4, o blog de Helder Moura, que publicou o caso em primeira mão, relatou assim o ocorrido:

“O caso trata de uma tentativa de agressão envolvendo Pâmela e a babá, identificada por Indaiá. Segundo a ex-primeira-dama, a babá vinha apresentando-se como doente e quando ela pediu que ela voltasse para sua casa, para se tratar, Indaiá teria partido para a agressão física, dizendo que não iria e que só receberia ordens do pai da criança, referindo-se ao governador Ricardo Coutinho.”

Notem que pelo relato da ex-primeira dama, não apenas os papéis se invertem, como um novo personagem aparece na história: o governador Ricardo Coutinho. A inverossímil versão de Pâmela Bório, construída um dia depois dos acontecimentos, quando a babá já havia registrado a ocorrência, só se sustenta e ganha adeptos quando a figura quase onipresente de RC aparece para lhe oferecer ares de vítima nessa sórdida história, que repisa, como veremos, relações de poder históricas entre patroa e empregada – ou entre as sinhás da aristocracia colonial e suas “negrinhas” escravas.

O que impressiona é que alguns jornalistas já compram a história de Pâmela Bório, relegando a babá e a agressão por ela sofrida a um mero detalhe nisso tudo, e ajudam a converter a vítima em agressora, e vice-versa.

Violência contra empregadas domesticas: uma questão tristemente atual

No Brasil, o que é mais comum: patroas agredirem empregadas domésticas ou o contrário?

Não consegui dados oficiais para medir essa forma de violência, mas uma simples pesquisa no Google no permite ter uma dimensão do problema e o quanto ele é mais recorrente do que gostaríamos que fosse nos ambientes privados brasileiros. 

A resposta à questão acima deve ser buscada, em primeiro lugar, considerando a importância dessa modalidade de trabalho, que é quase exclusivamente feminina (93,6% segundo a última PNAD Contínua) e predominantemente negra (61%), e a baixa qualificação dessa mão de obra (menos de 15% tem segundo grau completo).

Em segundo lugar e, sobretudo, na história. Não vou me alongar muito nessa abordagem, apenas citarei uma das mais conhecidas passagens de Casa-Grande e senzala, de Gilberto Freyre, sobre as violências cometidas pelas Sinhás contra suas escravas:

“Não são dois nem três casos de crueldade de senhoras de engenho contra escravos inermes. Sinhás-­moças que mandavam arrancar os olhos de mucamas bonitas e trazê-los à presença dos maridos, à hora da sobremesa, dentro da compoteira de doce e boiando em sangue ainda fresco. Baronesas já de idade que por ciúme ou despeito mandavam vender mulatinhas de quinze anos a velhos libertinos; ou mandava-lhes cortar os peitos, arrancar as unhas, queimar a cara ou as orelhas.” (pp 392­393).

Como acentuou Freyre, não foram dois nem três casos de violências horripilantes perpetradas por senhoras de família de firmes convicções cristãs contra escravas das quais se consideravam donas.

Era a vingança motivada em geral pela inveja ou só por ciúme. Era a mentalidade da “dona” sobre a “coisa”, sobre o “instrumentum vocale” como definiam os romanos na antiguidade, aquele que se diferia do animal apenas porque falava.

Babás e empregadas sem nome 

O acidente aéreo envolvendo a família de Luciano Hulk e a abordagem da imprensa ao relatá-lo mostra bem o quanto ainda persiste essa lógica coisificada quando o assunto é trabalhadora doméstica.

A duas babás, tão presentes no avião quanto o piloto e a família do apresentador global, só foram citadas como um número, passageiras a mais daquele drama que quase lhes tirou a vida.

Mesmo quando o assunto foi o atendimento em hospital do SUS, para o qual todos os passageiros do voo, do qual elas poderiam fazer um juízo mais adequado, elas sequer opinaram.

E na matéria produzida pelo jornal O Globo sobre o acidente, todos os envolvidos tinham nomes (Luciano Hulk, Angélica, os filhos Benício, Joaquim e Eva, o piloto Otomar Fratini, o co-piloto José Flávio de Sousa), menos as duas moças que cuidavam das crianças, identificadas apenas como “duas babás”, pessoas (?) sem rostos, sem nomes, sem histórias.

Quem acha que essa mentalidade desapareceu por completo mais de um século depois que a escravidão foi abolida no Brasil tem uma visão no mínimo ingênua sobre o nosso país e a cultura senhorial que ainda permeia boa parte da nossa elite econômica.

Mais uma vez, a internet serve como instrumento para mapear esse preconceito doentio de pessoas incapazes de lavar um prato ou varrer uma sala. No twitter, foi criado um perfil cujo nome é “A minha empregada”.

Lá são postados os comentários que muitos twitteiros escrevem e publicam para o mundo tomar conhecimento do desprezo que nutem pelas pessoas que cuidam de suas casas e, às vezes, até dos seus filhos. Vejam alguns exemplos, se você tiver estômago (@aminhaempregada):

“the key tem cheiro de perfume de empregada velha”;

“O ódio q eu tô depois da empregada ter jogado minha comida da semana fora... Tnc e a fdp não fez outra”

“A filha da puta da empregada saiu e nem arrumou meu quarto filha da puta”

“A puta da minha empregada sumiu com a minha blusa branca que eu tanto amava”

“Vou mudar essa senha do Wi-Fi e ela vai se fuder, filha da puta. Agora tenho que ficar usando 3G por causa daquela piranha”
“que ódio da empregada!!! essa vaca falta e eu q tenho q limpar essa casa”

“preciso compra umas ropinha mais top , só tenho roupa de favelada , umas de faxineira e outras que tão furada\rasgada”

“Minha mãe só arruma faxineira esquisita. Quando n é uma favelada q fica me chamando de ‘colega’ o dia todo é velha carente que fica de papo”

“Tô igual empregada hoje de rasteirinha e trança pior que favelada”

“EU VOU MATAR A PESTE DA EMPREGADA PUTA MERDA”