segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O DILEMA DO PRISIONEIRO: COMO RICARDO PRETENDE MUDAR COM A BASE PARLAMENTAR DO DEM E DO PSDB?

Ricardo Coutinho não cansa de falar em "governo da mudança", aproveitando-se do desgaste natural de José Maranhão num ambiente de grande renovação que se estabeleceu no Nordeste. Fala agora "republicanizar" o Estado, o que deve significar o estabelecimento de um novo conteúdo (impessoal) às relações entre o governo, seus servidores e a sociedade.

Na Assembléia, o quadro não é muito alvissareiro para que a Paraíba seja de vez uma "república".


A força de Ricardo Coutinho dentro de sua coligação (PSB-PSDB-DEM) foi tão limitada que ele sequer conseguiu eleger um único deputado estadual – Urquiza, o seu chefe de gabinete desde os tempos imemoriais da vereança, conseguiu menos de 15 mil votos e pontuou uma sexta suplência. Para federal, Edvaldo Rosas conseguiu uma segunda suplência com 33 mil votos (35 mil votos atrás do primeiro suplente, Major Fábio).


Assim, é mais do que improvável que Ricardo Coutinho consiga "republicanizar" o Governo da Paraíba com o apoio político que, se eleito, deverá ter, especialmente na Assembléia. Como eu disse, Coutinho não conseguiu eleger um deputado sequer que possa ser considerado um "ricardista".
Vejam com que Ricardo contará na Câmara para "republicanizar" a Paraíba (clique nas imagens para ampliar)

Agora os deputados que farão parte da bancada do futuro governo Ricardo Coutinho, em caso de eleição.

E observem que estão incluídos entre os estaduais "ricardistas" João Gonçalves e Ricardo Marcelo, que apoiaram José Maranhão no primeiro turno. Ou seja, Coutinho é hoje minoritário na Assembléia e, caso eleito, terá que "ralar" para conseguir maioria na Assembléia. Como ele conseguirá isso? Acertou que respondeu "republicanizando" o Estado! Todos os deputados aderentes farão isso pela causa "republicana" e renunciarão à indicação de parentes e aderentes.

Cássio Cunha Lima e Efraim Moraes, num rasgo de emocionante altruísmo e desinteresse, deixarão Ricardo Coutinho montar o seu governo "republicano". Evitarão colocar a faca no pescoço do Mago e nada reivindicarão. Deixarão bondosamente que o republicano governador fique livre para evitar a Cunhalimização do novo governo.

Ricardo é prisioneiro dessa base política, cuja ação é tão dependente do Estado quanto morcegos dependem de sangue para viver. Quando chegar a hora de montar o governo, diante de um governador sem base parlamentar sólida – mais ainda, sem aliados históricos entre eles, – não restará outra alternativa, para que Coutinho governe, que não reproduzir os velhos esquemas, loteando o governo e fazendo da administração pública um extensão dos negócios e interesses familiares.

Em tempo 1: Ontem, em Guarabira, num comício de Ricardo Coutinho, Cássio Cunha Lima discursou efusivamente a favor de José Serra e foi ovacionado pelos cabos eleitorais. Luiz Couto, ao defender Dilma, levou uma sonora vaia. O candidato do PSB permaneceu impassível, "neutro", depois de ter pedido votos para Marina Silva no primeiro turno em João Pessoa.

Enfim, Ricardo, como se previa, foi "engolido" pelos tucanos e demos. Já faz parte da turma. E faz jogo duplo: diz que vota em Dilma, mas no palanque faz campanha para Serra.

Cássio falando em Guarabira. Você vê alguma bandeira de Dilma? E de Serra?

domingo, 17 de outubro de 2010

FHC SE DISSE ATEU E TEVE 2 FILHOS FORA DO CASAMENTO. E DAÍ? E DAÍ QUE A IMPRENSA E A IGREJA NÃO DERAM BOLAS PARA ISSO. POR QUÊ?

FHC, o santo do PIG

Em duas eleições sucessivas (1994 e 1998) Lula teve à sua disposição para usar na campanha pelo menos duas informações que deixariam Fernando Henrique Cardoso no mínimo numa saia justa com o conservadorismo que sempre o apoiou: a de que ele tinha se declarado ateu, informação que o próprio FHC fornecera numa entrevista que concedeu em 1985 à revista Playboy, e dos dois filhos fora do casamento que o ex-presidente teve.

Um com a jornalista da Rede Globo, Miriam Dutra, em 1991, e o outro com a ex-empregada doméstica que trabalhava para FHC e Ruth Cardoso, Maria Helena Pereira. O pai dos dois, um ateu-adúltero, era Senador à época.

E Lula não usou isso à época porque se recusaram a baixar o nível do debate adentrando na vida pessoal do adversário, optando sempre por uma campanha baseada nas diferenças políticas sobre projetos de governo e de país.

No caso da segunda informação, existem dois agravantes: o primeiro, é o de que FHC levou 18 anos para reconhecer o filho, cujo nome é Tomás Dutra Schmidt, o que só aconteceu no ano passado e isso só depois da morte da esposa, Ruth Carodoso.

Além disso, os dois (mãe e filho) foram obrigados a um exílio "voluntário" em Lisboa, depois Barcelona e, por fim, Londres, onde moram até hoje. (Quem quiser ler mais sobre isso no PIG clique aqui e aqui. E no Conversa Afiada aqui.)

No caso do segundo filho, que se chama Leonardo dos Santos Pereira, segundo noticiou a coluna de Claudio Humberto (clique aqui), ele e dona Ruth agiram como agiam os senhores e senhoras de escravos (ele não disse que tinha um pé na senzala? Aí está!): a negra Maria Helena Pereira, ao invés de ser torturada, como faziam as Sinhás, foi demitida. Ao invés de mandá-la para Londres, FHC comprou-lhe uma casa na periferia de Brasília. Reconhecimento? Nem pensar!

Por 18 anos, a imprensa "investigativa" do Brasil sequer tocou no assunto, especialmente no caso de Miriam Dutra. Repito: um assunto que era do conhecimento de muita gente (veja aqui), inclusive dentro da Rede Globo, pois tratava-se de uma funcionária sua.

Pois bem. Na semana passada um repórter da Rede Globo do Piauí perguntou se Dilma era lésbica. Baseado em quê? Num "boato" que, segundo ele, corre na internet! Veja bem: um boato tornou-se fonte da imprensa, mesmo que seja esse o mesmo reconhecidamente uma farsa, mais uma armação grosseira contra Dilma, como todas as outras que circulam nas caixas de mensagens das pessoas.

Nesse caso, a mensagem que deu origem ao boato se baseou em cópias de um processo falsificado, assinado por um advogado que não existe, nem muito menos o número de inscrição da OAB lá registrado. E mesmo que essa informação fosse verdadeira, o que não é, isso não tem relevância alguma para o debate político, apenas serve para estimular o preconceito e do moralismo político.


Um parêntese: Em 2008, durante a campanha para prefeito de São Paulo, foi divulgado um outro boato pela internet de que Gilberto Kassab, o sucessor de José Serra na prefeitura, filiado ao Dem e candidato eleito, era homossexual. Esses mesmo setores que hoje acusam Dilma, especialmente a imprensa, fizeram um escândalo, com razão, por conta do uso de questões de ordem pessoal na campanha. Hoje, refestelam-se bem acomodados no banquete da hipocrisia.

Nas duas eleições seguidas em que FHC concorreu à presidência contra Lula, esses setores conservadores e moralistas das igrejas católica e evangélica não dispensaram um pedacinho de sermão sequer para tratar desses casos de adultério de FHC e esqueceram que o ex-presidente já se declarara ateu. Por isso, não se trata de mera divergência de ordem moral. A questão é ideológica e política, que expõe o quanto conservadores são esses setores da igreja, apoiados pela imprensa anti-lulsta.

Agora, imaginem se o que aconteceu com FHC acontecesse com Lula? Imaginem se fosse com Dilma? Os dois já estariam excomungados. E não iriam para a fogueira da Inquisição porque já não se queimam mais infiéis como antigamente, como eles desejariam fazer. Hoje, esse setores preferem que os considerados por eles "infiéis" ardam no fogo do preconceito, do ódio e da intolerância que esses grupos promovem em nome de Deus e da religião.

E esse grupos religiosos dizem que não misturam religião e política. Ora, pois! Se há alguma coisa que essa parte conservadora das Igrejas – vide o bispo Aldo Pagotto e o pastor Silas Malafaia – sempre souberam foi fazer política. A política da direita e do conservadorismo, travestida de moralismo religioso. A política dos poderosos contra o povo.

Foi assim, por exemplo, que, em mais um triste capítulo de sua história, a Igreja Católica, através do Partido Católico alemão, deu apoio parlamentar para que Hitler tivesse maioria no parlamento alemão e iniciasse a ditadura mais assassina da história da humanidade. Sem esses votos, Hitler não teria conseguido os 2/3 que precisava para conquistar plenos poderes. Em razão de quê? Do anti-comunismo nazista.

Portanto, ser católico, como era Hitler, ou evangélico, não pode ser um salvo-conduto para nada, especialmente para governar um país (ou um estado, não é mesmo Ricardo Coutinho?) Quantos políticos maus-carateres vivem a proclamar o nome de Deus para impor sua moral? Que atitude Deus desejaria dos que o seguem numa eleição? O apego ao moralismo - de uma moral que nada tem de divina, pois isso tornaria Deus tão humano como qualquer mortal - ou à justiça social?

Em tempo: Ontem, foram apreendidos pela Polícia Federal 1 milhão de panfletos com ataques a Dilma Rousseff e assinados por uma regional da CNBB de São Paulo e encomendados pela Diocese de Guarulhos, numa gráfica que tem como uma de suas donas uma filiada ao PSDB desde 1991 (clique aqui.)

É a Igreja partidarizando-se definitivamente, tornando-se braço eleitoral de um partido político.

PROFESSORES DA UFPB ORGANIZAÇÃO MANIFESTO PRÓ-DILMA. ASSINE VOCÊ TAMBÉM

Professores da UFPB estão levantando assinaturas para um manifesto em defasa da candidatura de Dilma Rousseff. Caso você seja professor da instituição, ativo ou aposentado, e deseje contribuir para essa luta, subscrevendo o manifesto, basta enviar mensagem para flavioluciovieira@gmail.com ou ederdant@hotmail.com até a próxima terça-feira (19/10).

Se você quer retornar aos tempos em que a UFPB não tinha recursos sequer para comprar papel para imprimirmos programas de curso, não tinha concursos públicos para a substituição de professores que se aposentavam, não tinha política salarial e tinha greves de 2 em 2 anos, pode ficar à vontade para votar em Serra.

Mas, se você deseja a continuidade do Reuni, que vai dobrar (DOBRAR) o número de alunos nas federais, ampliando o número de vagas e novos cursos (com destaque para o de Medicina, em Cajazeiras) e novos campi nas já existentes (aqui na Paraíba foram: Mamanguape, Rio Tinto, Pombal, Sumé e Cuité), bem como criando mais 10 (DEZ) nova universidade. Mais do que isso, Lula triplicou os investimentos para as Universidades: em 2003, eram R$ 17 bilhões, hoje é R$ 51 bilhões. Além disso, estabeleceu de maneira negociada, o que jamais aconteceu nos governos de FHC-Serra, uma política salarial que assegurou a reposição das perdas da inflação e ganhos reais para todos (TODOS) os professores, ativos e aposentados. Mais do que isso, governo e sindicatos de professores (Proifes e Andes) negociam uma nova carreira, que promete elevar o teto salarial docente para mais de 15 mil Reais. Se você, professor/a que a continuidade, a consolidação e ampliação desses avanços, vote em Dilma. E assine o manifesto abaixo. A universidade agradece. O Brasil também.

Abaixo o texto do manifesto.

MANIFESTO DE PROFESSORES DA UFPB EM DEFESA DA CANDIDATURA DE DILMA (13)

Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais em nosso país, nós, professores e pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba, sentimos a necessidade de nos pronunciarmos formalmente em apoio à candidatura Dilma à presidência da República.

Pesou nesta decisão a preocupação com os rumos da disputa nesta etapa da corrida presidencial. Ao invés de debater o seu programa de governo, preferiu a oposição e seus apoiadores partir para lançar infâmias e calúnias contra a candidata do PT. Temas da Idade Média são evocados por setores ultraconservadores como cortina de fumaça para esconder o silêncio sepulcral desses agrupamentos sobre os caminhos que devemos trilhar para continuar desenvolvendo o país, manter a distribuição de renda e a inclusão social, ampliar a educação básica e superior, ampliar e melhorar o acesso à saúde de qualidade, promover a integração regional e fortalecer o papel proativo do país no cenário internacional.

Somos pessoas do mundo da ciência. Tratamos cotidianamente com a criação, inovação e reconstrução do conhecimento. Fazemos pesquisa básica e aplicada. Lecionamos e repassamos este conhecimento para a sociedade. Debruçamo-nos também sobre as indagações maiores da humanidade, sobre os meios e os fins da política, e sobre as condições sociais e políticas para alcançarmos o bem-estar material e espiritual do ser humano, sem qualquer preconceito com relação às opções religiosas, sexuais, políticas ou de etnia. Estudamos o passado, problematizamos o presente e inquirimos sobre o futuro. Nossa inquietude é fruto da extrema necessidade do homem e da mulher de buscar a maneira mais adequada para viver em equilíbrio com os demais seres humanos e com o meio ambiente que nos circunda. Não podemos ficar agarrados a preconceitos. Nossa profissão exige racionalidade, método e, sobretudo, discernimento ético e moral.

O atual governo (Lula/Dilma) respeitou a comunidade acadêmica e ampliou consideravelmente as condições de trabalho das universidades públicas. Preocupa-nos a interrupção desse projeto. Enxergamos não só a necessidade de continuidade, mas seu aperfeiçoamento.

O Brasil, de forma tardia, mas felizmente, ingressou na rota da inclusão social. Direitos sociais, como saúde, educação, transporte e moradia, presentes em quantidade e certa qualidade há mais de 50 anos nos países desenvolvidos, apenas agora começam a se tornar uma realidade, porém longe de atender, de forma ideal, a toda população. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, de 2003 a 2008, o governoLula já havia tirado 20 milhões de pessoas da pobreza.

Percebe-se, no entanto, uma grande resistência de setores da sociedade a esse progresso. A visão elitista da oposição recusa-se a romper a velha contradição da casa grande e da senzala. Formou-se, desse modo, ampla aliança retrógrada que vai desde ruralistas, setores do grande capital, conglomerado da mídia, religiosos fundamentalistas e toda a sorte de homens de negócios escusos para barrarem qualquer avanço porventura conquistado nos últimos oito anos.

Caminhamos em sentido oposto. Acreditamos que o Brasil precisa manter a estabilidade econômica, mas com inclusão social. Para tanto, é preciso que o Estado, que mantém uma dívida histórica com a maioria do povo brasileiro, assuma papel mais propositivo com relação às políticas de desenvolvimento econômico e social. Defendemos a continuidade dos avanços ocorridos no campo da educação desde 2003 até agora. Neste período, o governo federal ampliou o orçamento do MEC de R$ 17 para R$ 51 bilhões e criou um fundo que assegura investimentos da creche ao ensino médio (FUNDEB). Diferente da era FHC/Serra, na era Lula/Dilma, foram criadas 10 novas universidades federais, 45 extensões universitárias e 214 escolas técnicas. O Estado voltou a acreditar no ensino público e gratuito.

Acreditamos que a candidatura Dilma é a que, nas atuais circunstâncias, reúne as melhores condições para implementar um programa de governo voltado para a maioria do povo e para dar sequência às políticas públicas de desenvolvimento econômico, aliadas à sustentabilidade e à inclusão social.

João Pessoa, 15 de outubro de 2010.


sábado, 16 de outubro de 2010

DILMA NÃO PERDE VOTOS. AGORA, É HORA DO GOLPE FINAL CONTRA SERRA

Na quinta-feira (16/10), foi um dia de grande apreensão entre eleitores e blogueiros dilmistas com os números das pesquisas mais recentes, especialmente depois que li postagens sobre isso nos excelentes blogs Tijolaço, do deputado federal reeleito Brizola Neto, que honra a história do avô, e Escrivinhador, do jornalista Rodrigo Viana.

Neste último, deixei comentário a uma mensagem (Clique aqui para acessá-la) que compartilho como vocês logo abaixo.

Vamos com calma. Estamos sob fogo cerrado e, ao que parece, estamos sentido o baque. O importante a registrar é que, ao que parece, Dilma mantém não apenas manteve os votos conquistados no primeiro turno, como incorporou de 6 a 8%. Se ela tivesse apenas mantido os mesmos votos do 1º turno, ainda seria bom. Serra, ao que parece, terá que tirar votos de Dilma e isso, também ao que parece, ainda não está acontecendo. O desafio é nos organizarmos para a guerra aqui por baixo e contra-atacar. Já convenci meu irmão, que no primeiro turno me enviava vários a-mails por dia contra Dilma. O convenci mostrando a carlhordice dessa campanha tucana. Se Dilma está segurando a peteca sozinha, quando o Lula entrar em campo, resolve o jogo. Nós temos um eleitorado firme e fiel. Nesse momento, é tudo que importa.

Pois bem. Para alívio de muitos – que costumam regular seu ânimo pelas pesquisas – o Datafolha de ontem manteve os dois candidatos muito próximo dos percentuais que conquistaram na última pesquisa, realizada no fim de semana passado. Serra manteve o mesmo percentual (41%) e Dilma oscilou de 48 para 47%. Em suma, o quadro pouco foi alterado na segunda semana de campanha, e indica que Dilma conseguiu frear o avanço que Serra conseguiu na euforia da primeira semana após o primeiro turno, quando a candidata do PT e de Lula enfrentou seu prior momento nessa campanha.

Veja os dados da pesquisa Datafolha publicada ontem (clique nas imagens para ampliá-las):

E a reação se deu em quatro frentes.

A primeira, no debate do último domingo na Band, quando Dilma finalmente partiu para ofensiva e colocou José Serra nas cordas. Entre outras coisa, acusou explicitamente o nome da esposa do tucano de envolvimento na campanha de difamação movida contra ela, especialmente na questão do aborto. Serra manteve-se calado, incapaz de defender a própria mulher para salvar a pele. Covardia? Covardia e medo.

E foi Dilma, na mesma ocasião, quem trouxe Paulo Preto, que embolsou 4 milhões de reais arrecadados de empreiteiras com negócios no governo de São Paulo, para o centro do debate eleitoral. Serra primeiro negou que o conhecesse, mesmo que ele tivesse ocupado um importante posto no governo paulista; depois das ameaças "veladas" feitas por Preto à Folha, Serra passou a defendê-lo. Isso porque ele é um homem que não muda de opinião. (O blog Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, publicou um série de postagens que mostram quem é Paulo Preto. Para acessá-las, clique aqui, aqui, aqui e aqui).

A segunda, foi no guia eleitoral, que intensificou as críticas e passou a jogar pesado na comparação entre os governos Lula e FHC, e enfatizando a participação direta e decisiva de José Serra no processo de privatização tucano, lembrando que, e isso é o que realmente importa nessa eleição, o que os tucanos desejam elegendo Serra é se apoderar do Pré-Sal para vender suas imensas reservas às multinacionais do petróleo. Dilma ainda começou a mostrar a verdadeira face do governo de Serra em São Paulo.

A terceira frente foi a sociedade civil organizada que começou a se mobilizar para evitar a volta dos tucanos ao poder. Centrais sindicais, professores, intelectuais, MST organizam ações e preparam manifestos em apoio à Dilma por todo o país, entrando no debate e ajudando a esclarecer o que de verdade está em jogo nessa eleição.

E a quarta frente foi a internet, que foi subestimada (e ainda é, especialmente aqui na Paraíba) no primeiro turno, mas foi aqui que o ovo da serpente do conserdadorismo e da desinformação foi plantado e levou a eleição para o segundo turno. Começamos todos a responder as mensagens difamadoras contra Dilma e a enfrentar o debate eletrônico. Nesse aspecto, os blogs jogaram importante papel, tanto para informar os eleitores, quanto para fornecer dados para a guerra "internética".

Nas duas semanas que restam dessa campanha, a disputa tem que continuar sendo voto a voto. Contra o obscurantismo tucano, a razão; contra a política do ódio, a solidariedade; contra o oportunismo, a coerência da história de gerações que lutam por um Brasil mais justo; contra o pragmatismo, a paixão que nos arrebata a todos; contra o fim da política, a sua afirmação, a sua necessidade para o Brasil e para o mundo, o debate franco e aberto das diferenças. Só assim nós avançaremos para uma sociedade mais igual.

O povo brasileiro precisa dessa vitória. E ela está nas mãos de todos nós. Felizmente.

PROGRAMA DE DILMA EM HOMENAGEM AO PROFESSOR

Professor/a, assista abaixo o programa de Dilma em sua homenagem. Veja porque você e quem gosta do Brasil e do seu povo não pode votar em Serra.
Em tempo: ontem, um grupo de outras ex-alunas confirmaram o que escreveu Sheila Ribeiro a respeito do aborto que fez Mônica Serra. Para conferir a matéria do único jornal que cobre o fato (Correio do Brasil) clique aqui.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O QUE PENSAM DO POVO BRASILEIRO OS MENSAGEIROS DO ATRASO? DISSECANDO UMA MENSAGEM PRÓ-SERRA

Estamos vivendo uma verdadeira cruzada conservadora. Foi o que restou ao PSDB: despir-se de todo prurido ideológico e assumir de vez as bandeiras da extrema-direita, num campo em que o DEM andava sozinho. É um tudo ou nada que aposta no medo, na desinformação, no obscurantismo, e alimenta o que há de latente em muitas pessoas, especialmente de classe média: o preconceito, a intolerância e o desprezo pelos mais pobres.

Ontem, meu irmão me escreveu informando, um tanto atônito, que recebera mais de 50 mensagens contra Dilma Rousseff atacando-a de tudo: de terrorista, de atéia, de defensora da morte de bebês, e, essa é a última, de lésbica.

Hoje, recebi a mensagem abaixo, vinda de uma das tantas correntes que circulam pela internet e que criaram essa onda de terror que atinge pessoas bem intencionadas, mensagens cuja legitimidade é conferida por quem as reenvia. Normalmente, a pessoas conhecidas. Leia com atenção e perceba a brutalidade das palavras, o desprezo pelo povo brasileiro, especialmente os mais pobres.

Trata-se de uma compilação, pois o texto é um pouco longo. Leia e depois eu volto. Quem assina a mensagem é um tal de Joao SSouza Fh (?).

"- Brasileiro é um povo solidário. Mentira. Brasileiro é babaca. Eleger para o cargo mais importante do Estado um sujeito que não tem escolaridade e preparo nem para ser gari, só porque tem uma história de vida sofrida;

- Brasileiro é um povo alegre. Mentira. Brasileiro é bobalhão. Fazer piadinha com as imundices que acompanhamos todo dia é o mesmo que tomar bofetada na cara e dar risada.

- Brasileiro é um povo trabalhador. Mentira. Brasileiro é vagabundo por excelência. Um povo que se conforma em receber uma esmola do governo de 90 reais mensais para não fazer nada e não aproveita isso para alavancar sua vida (realidade da brutal maioria dos beneficiários do bolsa família) não pode ser adjetivado de outra coisa que não de vagabundo.

- Brasileiro é um povo honesto. Mentira. 90% de quem vive na favela é gente honesta e trabalhadora. Mentira. Muito pai de família sonha que o filho seja aceito como 'aviãozinho' do tráfico para ganhar uma grana legal. Se a maioria da favela fosse honesta, já teriam existido condições de se tocar os bandidos de lá para fora, porque podem matar 2 ou 3 mas não milhares de pessoas.

- O Brasil é um país democrático. Mentira. A maioria do povo acha que bandido bom é bandido morto, mas sucumbe a uma minoria barulhenta que se apressa em dizer que um bandido que foi morto numa troca de tiros, foi executado friamente.

Democracia isso? Pense ! O que me deixa mais triste e inconformado é ver todos os dias nos jornais a manchete da vitória do governo mais sujo já visto em toda a história brasileira.

Para finalizar tiro minha conclusão: O brasileiro merece! Como diz o ditado popular, é igual mulher de malandro, gosta de apanhar. Se você não é como o exemplo de brasileiro citado nesse e-mail, meus sentimentos amigo, continue fazendo sua parte, e que um dia pessoas de bem assumam o controle do país novamente.
Só falta boa vontade e consciência, será que é tão difícil assim?"

Para quê servem essas mensagens? Antes de tudo, para incutir na classe média desprezo pelos mais pobres, que dão apoio e base social ao governo Lula.

Mensagens assim deveriam ser mostradas no guia de Dilma Rosseff para o povo saber o que contém nelas. É assim que os serristas vêem o povo e é desse ódio de classes que eles se alimentam. Essa turma despreza o povo, não suporta a distribuição de renda, odeia ver pobre frequentando faculdade pública e privada, viajando de avião, indo a supermercado.

Essas pessoas querem porque querem desconstruir o governo Lula, e como não tem o que falar das melhorias econômicas - inclusive para o capital - e sociais, ficam incutindo nas pessoas a discórdia, o ódio e o preconceito. Quem achou que a luta de classes acabou, ela se mostrou em sua forma mais pós-moderna: a internet.

Mais do que tudo, elas tem o objetivo de atacar a auto-estima do brasileiro, independente de sua origem social. É para isso que servem essas desqualificações.

Agora, eu pergunto: Quem repassa mensagens desse tipo discorda que somos um povo alegre, honesto e trabalhador? De outro lado, concorda que somos, SOMOS, babacas, bobalhões, desonestos, vagabundos? Isso é uma visão elitista, de uma elite colonizada, que não gosta do seu país e do seu povo, que o despreza. E, se pudesse, viveria na Europa ou nos EUA, exercitando seu complexo de vira-latas. Por isso, eles odeiam Lula, que deu independência à política externa brasileira.

O nosso povo merece um futuro melhor e deve lutar por ele. Para tanto, precisa identificar quem o despreza para derrotar os adversários de um projeto de país mais independente, mais igual e mais justo. Derrotar aonde quer que eles estejam. Quem é eleitor de Dilma não vota em tucano e democrata. Nem em quem tem o apoio deles.

Debate da TV Clube: Ricardo não é aquela "Brastemp"

O debate de ontem na TV Clube teve pelo menos a qualidade de mostrar que:

  1. Nem Ricardo Coutinho é aquela "Brastemp" que seus aliados e ele próprio gostam de cultivar como imagem (Serra e o PSDB, não sei exatamente por que, também se dizem mais "preparados"). Ele tem a vantagem de ser um político talhado na e pela mídia, pertencendo a uma geração que nasceu na política tendo a TV como principal meio de se comunicar com o povo;
  2. Nem José Maranhão é uma calamidade participando de debates eleitorais, como ele deixou transparecer ao evitar ir ao último debate do primeiro turno, fator que teve tido alguma importância na derrota de 3 de outubro. Falta-lhe o traquejo de quem nasceu na política quando a principal forma de contato com o eleitor era o comício. Apesar de ter melhorado muito, Maranhão ainda não se sente à vontade diante das câmeras e com a prisão do tempo.
Um erro da assessoria do governador foi não ter detalhado como seria implantada a proposta da PEC-300. Vê-se claramente que esse transformou-se no tema central da campanha, inclusive, foi a questão que abriu o programa, o que deixa claro que a campanha de Maranhou começou a pautar a disputa. Maranhão poderia ter, por exemplo, dito que, pela convivência, Ricardo Coutinho tinha incorporado a visão neoliberal de tucanos de demos por sua preocupação com o controle de gastos sociais. Tudo agora é o orçamento!

Quanto ao resto do debate, prevaleceu a superficialidade no tratamento dos temas e, ao final, ninguém saiu nocauteado, como se esperava que acontecesse com Maranhão. Passado o susto inicial, agora é o candidato de Dilma e Lula na Paraíba ir para cima nos próximos debates. Tema para colocar Ricardo Coutinho nas cordas é o que não falta.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

DEM, RICARDO COUTINHO E PSB. TUDO A VER?

Sempre que eu escuto uma entrevista do deputado federal Efraim Filho eu acordo para a realidade e me convenço. Não, ninguém se elege sozinho nem muito menos governa sozinho. Quando eu escuto o excelentíssimo deputado dos Democratas atacando o Presidente Lula, com seu insosso jargão conservador, adquirido, como aluno dedicado que deve ter sido, de gente da estirpe de ACM Neto, Rodrigo Maia, Ronaldo Caiado, o eterno presidente da UDR (União Democrática Ruralista), e Índio da Costa, o até então desconhecido candidato a vice de José Serra, eu lembro da figura de proa que ele é da candidatura a governador de Ricardo Coutinho.

Voltando da UFPB para casa, hoje, sintonizei o rádio na CBN. Ao invés de uma entrevista, imaginei que era um treino de vôlei verbal em que o apresentador do programa, o jornalista Nonato Guedes, levantava a bola para o entrevistado cortar, o deputado Efraim Filho.

Aliás, reconheçamos, Guedes é um bom levantador, especialmente quando quem está na rede ao lado dele é um adversário de Lula. E Efraim Filho, sem bloqueio, cortava com gosto as levantadas açucaradas. Se Efraim Filho tivesse ele mesmo elaborado as perguntas talvez não tivesse sido tão generoso consigo mesmo. Ali, era a junção perfeita entre a fome e a vontade de comer, ou seja, o conservadorismo com a vontade (ou a função?) de agradar em perfeita "sintonia".

Mas, houve um momento em que o deputado do Dem, agora com a idade mais próxima da idade de suas idéias, não foi tão direto, talvez para evitar transparecer um "já ganhou" em suas palavras. Foi quando ele teve que responder sobre o "futuro" governo de Ricardo Coutinho e a participação do Dem.

Primeiro, ele fez questão de esclarecer que o Dem estava com Coutinho desde quando a época era de "vacas magras" (eu pensei que era desde quando Ricardo era presidente do Sindicato dos Farmacêuticos, mas não...); e mais ainda agora, que as vacas parecem engordar a olhos vistos. E o Mago também... Mas, o deminho se fez de rogado. Disse que o Dem não vai exigir cargos porque o importante é a "causa" da Paraíba. Essa generosidade política é bem a cara do Dem.

E observou um fato que me esclareceu de vez aquela aparição de Ricardo Coutinho no guia eleitoral justificando a aliança com os Cunha Lima e os Moraes. Que, apesar das diferenças, o PSB, o Dem e o PSDB deixaram de lado questões "menores" para se unirem em favor do povo paraibano.

Ele só faltou esclarecer que "detalhes" são menos importantes do quê essas diferenças: a história das legendas envolvidas? O apoio à ditadura militar? O governo FHC? O neoliberalismo? O coronelismo do Dem? O reacionarismo, cada vez mais raivoso, dos tucanos? Nada disso. O sentido da aliança é ganhar a eleição e governar. Todos juntos, obviamente, o que é mais do que legítimo.

Engraçado é que eu esperei que Ricardo Coutinho no guia de ontem anunciasse também sua solidariedade a Dilma Rousseff, quando Jose Serra, o candidato do Dem e do PSDB, usa como expediente o preconceito, inclusive e principalmente o religioso, para atacar a candidata do presidente Lula. Mas não.

Por que Coutinho não faz isso? Porque, apesar de retoricamente dizer ser ela sua candidata, Coutinho quer preservar o eleitor serrista, que o adotou também como candidato (quem o PSDB de Serra apóia na Paraíba?) No primeiro turno, o candidato do PSB comeu na mesa farta do reacionarismo brasileiro e paraibano, que deu a Dilma Rousseff uma das poucas derrotas no Nordeste, que foi em Campina Grande. E o laicismo de Coutinho agora reclama do ovo da serpente que seus "aliados" da extrema-direita na Paraíba puseram para chocar há décadas. E hoje se esforçam para ver rebentar o dragão da intolerância.

Na Paraíba, quem está com Dilma Rousseff não apóia essa prática, mas não se junta aos seus detratores. Se algum partido precisa ser desautorizado, Coutinho precisa começar por PSDB e o Dem. Mas, na Paraíba, eles estão com quem?

Amanhã eu volto para tratar da base de apoio de um futuro governo Ricardo Coutinho. O título eu já adianto: Ricardo: o dilema do prisioneiro.


PEC 300: A PM VAI PERDER ESSA CHANCE?

José Maranhão moveu a rainha para cima do rei de Ricardo Coutinho, cujo flanco estava desguarnecido, e aplicou-lhe um xeque. O Mago rodopia e quer, a todo custo, mudar de assunto.

Ao defender a implantação imediata da PEC-300 Maranhão mata dois coelhos com uma só cajadada. Primeiro, deixa numa situação difícil os deputados do Dem e PSDB que fizeram a maior festa (pré-eleitoral) pela aprovação da PEC-300, que pretende criar uma isonomia entre os salários dos militares estaduais ativos e inativos de todo o Brasil e teve como referência, inicialmente, os salários dos militares do Distrito Federal.

Segundo, responde com a mesma "generosidade" a "generosidade" que teve Cássio Cunha Lima, quando, ao ser cassado pelo TRE, danou-se a negociar e implantar Planos de Cargos, Carreira e Salários (PCCR) sabendo que quem herdaria a conta seria seu sucessor, José Maranhão. Ganharam os servidores estaduais beneficiados.

Pode-se dizer que isso é manobra de campanha. Provavelmente sim, mas, reconheçamos, não é apenas inquestionável que os policiais (civis e militares) merecem, como colocar-se contra essa proposta demonstra o quanto demagógica foi e é a campanha conta a Segurança Pública da Paraíba nos últimos dois anos. Como é inegável que uma boa educação começa pela valorização do professor, da mesma forma não se concebe que policiais mal remunerados se sintam motivados a arriscar a vida para assegurar o cumprimento da lei.

E não me venham com o argumento de que não existem recursos, pois foram os próprios tucanos que demonstraram, quando ainda estavam no governo, que eles existiam para a implantação dos PCCRs. E, até onde eu sei, não houve sequer um mês de salários atrasados.

Agora, é o próprio governador José Maranhão quem lança a proposta. A grande dúvida para os policiais paraibanos agora é: apostam num compromisso de campanha para atingir um objetivo há muito esperado, pois é improvável que, se eleito, pela repercussão que teve, José Maranhão não efetive a proposta; ou esperar pela aprovação de uma lei no Congresso depois das eleições?

E não é um peso qualquer. Só o Major Fábio teve mais de 68 mil votos para deputado federal montado quase que exclusivamente na defesa da PEC-300. Para uma diferença menor que 10 mil votos no primeiro turno, a PEC-300 pode fazer a diferença...

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

MULHER DE SERRA JÁ FEZ ABORTO. ELA SE CONSIDERA "ASSASSINA DE CRIANCINHA"?

O que você acha de uma mulher que já fez aborto e, por razões eleitorais, não apenas concorda, mas defende que o seu marido-candidato torne a condenação dessa prática o centro de sua campanha? Que, para atacar a adversária (uma outra mulher), chega ao ponto de dizer que ela defende o assassinato de "criancinhas"? Pois bem, essa mulher existe e é real. Ela se chama-se Mônica Serra, esposa do candidato do PSDB à presidência, José Serra, ambos envolvidos na campanha de segundo turno numa verdadeira cruzada contra o aborto.

Quem confirmou que Mônica Serra já fez aborto foi uma de suas ex-alunas na Unicamp, cujo nome é Sheila Ribeiro. Ela contou essa história na sua página pessoal no Facebook (que é cadastrado pode acessar clicando aqui). Ela é solidária com a dor de sua ex-professora, mas desmascara sua hipocrisia. Transcrevo abaixo o texto de Sheila.

RESPEITEMOS A DOR DE MÔNICA SERRA

Meu nome é Sheila Ribeiro e trabalho como artista no Brasil. Sou bailarina e ex-estudante da Unicamp onde fui aluna de Mônica Serra.

Aqui venho deixar a minha indignação no posicionamento escorregadio de José Serra, que no debate de ontem, fazia perguntas com o intuito de fazer sua campanha na réplica, não dialogando em nenhum momento com a candidata Dilma Roussef.

Achei impressionante que o candidato Serra EVITA tocar no assunto da DESCRIMINALIZAÇÃO do aborto, evitando assim falar de saúde pública e de respeitar tantas mulheres, começando pela SUA PRÓPRIA MULHER. Sim, Mônica Serra já fez um aborto e sou solidária a sua dor.

Com todo respeito que devo a essa minha professora gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre o aborto, sobre o seu aborto traumático. Mônica Serra fez um aborto. Na época da ditadura, grávida de 4 meses, Mônica Serra decidiu abortar, pois que seu marido estava exilado e todos vivíamos uma situação instável. Aqui está a prova de que o aborto é uma situação terrível, triste, para a mulher e para o casal, e por isso não deve ser crime, pois tantas são as situações complexas que levam uma mulher a passar por essa situação difícil. Ninguém gosta de fazer um aborto, assim como o casal Serra imagino não ter gostado. A educação sobre a contracepção deve ser máxima para que evitemos essa dor para a mulher e para o estado.

Assim, repito a pergunta corajosa de minha presidente, Dilma Roussef, que enfrenta a saúde pública cara a cara com ela: se uma mulher chega em um hospital doente, por ter feito um aborto clandestino, o estado vai cuidar de sua saúde ou vai mandar prendê-la?

Nesse sentido, devemos prender Mônica Serra caso seu marido fosse eleito presidente?

Pelo Brasil solidário e transparente que quero, sem ameaças, sem desmerecimento da fala do outro, com diálogo e pelo respeito a dor calada de Mônica Serra.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

ENTRANDO NO DEBATE: ABORTO, SEXUALIDADE E ESCOLHA

Quem é a favor da prática do aborto? Uma mulher optaria pelo aborto sem que isso não lhe causasse nenhum sofrimento? Consideraria isso uma atitude banal, como mudar a cor do cabelo? Não acredito. Certamente, uma decisão como essa conduz a dilemas morais e afetivos. É só olhar para nossos filhos e enxergarmos neles a vida pulsante que os habita. Como qualquer animal, somos capazes de tudo para proteger nossa cria.

Por isso, esse debate sobre o aborto causa tanta celeuma, tanto desconforto, no Brasil e no mundo. Mesmo assim, o aborto é uma prática mais comum do que imaginamos. Veja alguns dados abaixo

O aborto, não incluídos os espontâneos ou os praticados por motivos médicos, é um dos procedimentos que mais ocupa leitos dos serviços públicos e privados do país.

  • Entre Janeiro e Junho de 2010 no Brasil ocorreram 54.339 internações hospitalares em razão de abortos inseguros, numa média de 12 casos por hora;
  • As internações por conta de abortos inseguros superam a soma de tratamentos para câncer de mama e útero;
  • Por conta disso, o Brasil gastou só nos 6 primeiros meses deste ano R$ 12,9 milhões com internações de mulheres com hemorragias, infecções ou perfurações por conta de abortos inseguros.
  • Nesse mesmo período foram realizada 110.483 mil curetagens, em valores que superam R$ 30 milhões.
  • Entre as mulheres brasileiras de 18 a 39 anos 15% declararam já ter feito um aborto alguma vez na vida o que representaria 5,3 milhões de mulheres". (Clique aqui)

Na Paraíba, de 1998 até 2008 houve um aumento de 176% no número de internações por abortamento, quando foram verificados 20.655 interrupções da gravidez induzidas, configurando uma taxa de 19,6 por mil mulheres de 15 a 49 anos que optaram por esse procedimento. Em João Pessoa e Campina Grande, foram realizados 5.151 procedimentos pós-aborto (Clique aqui)

Como os dados mostram, trata-se de um problema de saúde pública para o qual o Estado e seus dirigentes não podem fechar os olhos nem muito menos virar as costas para essas mulheres que tem o direito a um atendimento de saúde digno. Fazer de conta que o problema não existe não ajuda a diminuir os abortos, apenas a manter desprotegidas essas mulheres que, muitas vezes sem alternativa, optam por interromper a gravidez.

Por isso, tendo em vista a amplitude do problema, é inevitável não concluir que há algo de desumano nos argumentos daqueles que se opõem à descriminalização do aborto por razões exclusivamente morais. Como se sente uma mulher que optou por interromper a gravidez sendo acusada de "assassinato"?

Nesse debate, recoberto de questões morais, éticas e afetivas, não é possível excluir as determinações sociais, econômicas e mesmo aquelas referentes às opções individuais da mulher. Ser mãe não pode ser uma obrigação, especialmente porque não serão aqueles que apontam o seu dedo acusador que irão cuidar dos filhos. Todas as mulheres são capazes de criar seus filhos e amá-los tanto quanto aqueles que se acham recobertos de virtudes. Basta que elas estejam preparadas psíquica e econômicamente para esse desafio, que não é pequeno.

Sexualidade e aborto: o que somos, afinal?

No debate sobre o aborto, normalmente se encontram concepções de ordem cultural e biológica. Além da capacidade de amar que é própria da cultura humana, nos defrontamos com questões que, inconscientemente, se vinculam à sobrevivência da espécie. Visto assim, o ato sexual é tão necessário como comer ou beber água sendo ele o mais primário dos nossos impulsos, de nossas pulsões.

Mas, como o sexo esteve por milênios exclusivamente vinculado ao ato reprodutivo – hoje as mulheres podem engravidar em laboratórios, – ele se recobriu de moralidade religiosa, especialmente cristã. E como não somos seres puramente biológicos, pelo contrário, descobrimos no sexo e associamos a ele também o prazer. E sexo por prazer, como tantos outros prazeres "mundanos", tornou-se pecado, admitindo-se entre os cristãos apenas o seu valor reprodutivo. Não é por outro motivo que o sexo prazeroso foi incluído entre o 7 pecados capitais (luxúria) e identificado com Asmodeus, um dos cinco príncipes do inferno.

Por curiosidade, pesquisei na internet em páginas cristãs sobre o tema e eis um bom resumo de interpretações sobre o sexo. (Clique aqui)

  • "O sexo é um dom que Deus dá às pessoas casadas para o prazer de ambos." É recomendada leitura de Provérbios 5:18-19.
  • "A Bíblia recomenda que o romance e o dom de sexualidade sejam usados no contexto do casamento". Aqui, remete-se a Hebreus 13:4
  • "Deus criou o sexo como parte do casamento" (1 Coríntios 7:5)
  • "Para que não causemos danos a nós mesmos, os desejos e as atividades sexuais devem ser mantidas sob o controle de Cristo". (1 Tessalonicenses 4:3-5)
  • "Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela."

Vê-se, portanto, porque o sexo tornou-se uma palavra cujo nome não pode ser pronunciado nas igrejas. E de posições assim, por exemplo, decorre a condenação ao homossexualismo. Ora, se Deus criou o sexo para reprodução como aceitar as relações homossexuais?

O problema desse argumento é que, se Deus criou o sexo, deve ter criado também a atração sexual, o desejo. E como não somos animais, somos capazes de transgredir a "natureza" das coisas, adaptando-as às nossas necessidades. Não vivemos mais em estado de natureza, como prezavam, à exceção de Rosseau, os contratualistas.

E há aqui um paradoxo. Segundo Freud, a repressão aos nossos comportamentos instintivos, animalescos, ajuda a preservar a civilização. Ou seja, há um sentido civilizacional na repressão aos nossos impulsos que nos molda e impede a guerra de todos contra todos, no nosso caso, a animalidade do sexo e da violência sexual.

Mas, o sexo está em nós, queiramos ou não, seja porque somos seres biológicos, e precisamos nos reproduzir, seja porque ele é parte fundamental na nossa formação e tem um valor significativo para influenciar o que nós somos. Enfim, o sexo é ineliminável de nossas existências, e, ao contrário daqueles que pensam que conseguiram excluí-lo de suas vidas, ele permanece lá, agindo no seu inconsciente. E a repressão a esses impulsos não tem nada de anti-humano. É porque somos humanos, e só por isso, que conseguimos reprimir o desejo impulsivo.

Que animal luta contra seus próprios instintos? E o que nos caracteriza como humanos é essa consciência que temos da vida, do mundo e de nós mesmos. Somos, também por isso, capazes de acreditar em Deus, e não porque somos animais biológicos, mas porque somos humanos. Demasiadamente humanos, como diria Nietzsche. E imperfeitos, como gostam de nos chamar a atenção padres, pastores e bispos quando querem se referir à fragilidade humana diante das "tentações" da carne.

Ao mesmo tampo, também porque somos humanos, somos capazes de nos libertar da repressão e buscar um ponto de equilíbrio entre nosso "estado de natureza" instintivo e nosso ideal civilizacional. Contra a opressão religiosa, a sociedade começou a emergir para começar a se livrar dos grilhões que querem manter os humanos presos à sua animalidade, como se o Deus uno não fosse a expressão mais ancestral do que chamamos hoje de civilização.

E foi exatamente essa consciência de nós mesmos, como indivíduos, que enfraqueceu o poder que a Igreja tinha sobre a sociedade, dirigindo-a com seus desígnios, seja pelo "convencimento" seja pela violência, como aconteceu com povos considerados "pagãos" (os índios brasileiros, por exemplo, durante a colonização), ou com judeus ou mesmo cristãos que foram mortos na fogueira durante a Inquisição.

E a perda dessa hegemonia cultural e intelectual aconteceu pela valorização da ciência no cotidiano das pessoas, pelo avanço do acesso à informação, pela afirmação dos valores individuais. Por outro lado, vimos florescer um dos valores civilizatórios mais caros à democracia que é, sem dúvida, a conquista de um Estado laico, ou seja, um Estado separado da Igreja, no caso brasileiro, da católica, quando a liberdade religiosa foi definida como um direito de todos.

Hoje, o que é um outro aparente paradoxo, vemos recrudescer no setor dominante da Igreja, especialmente católica, uma postura obscurantista que beira, em muitos casos, o fundamentalismo. Num reacionarismo desmedido, irracional, membros da Igreja Católica chegam mesmo a bradar contra o uso dos preservativos. Se opõem às pesquisas com células-tronco, que poderão salvar milhões de vida em um futuro cada vez mais próximo.

Governantes são criticados abertamente porque permitem que o poder público distribua camisinhas, considerando isso um ato injurioso e inaceitável moralmente, só para manterem-se fiel a um valor que enxerga o prazer sexual como uma transgressão moral e religiosa. Preferem recomendar a hipocrisia e a repressão sexual a reconhecer os perigos de um ato sexual desprotegido.

- Renunciem à imundice do prazer!, clamam pastores, bispos e padres. Só assim não terão nem filhos nem doenças, que é o mesmo que dizer:

- Sintam culpa de sua humanidade!

Um parêntese: (Aqui na Paraíba esse setor da Igreja Católica é liderado pela hipocrisia oportunista do bispo Dom Aldo Pagotto, que critica o envolvimento político de sacerdotes, mas sempre se perfilou ao lado do conservadorismo de direita na Paraíba, participando diretamente da campanha de Cássio Cunha Lima ao governo e de Ricardo Coutinho a prefeito. Hoje, na busca dos holofotes da mídia, provavelmente com inveja dos pastores que ganharam notoriedade atacando Dilma Rousseff pelo Youtube, ele lança o veneno da discórdia e do preconceito fazendo coro com as viúvas de FHC, que encontraram no aborto um flanco para desviar o foco do verdadeiro debate que interessa nessa eleição, que é sobre projetos de desenvolvimento para o Brasil. Dom Aldo Pagotto não merece mais do que essas poucas linhas. Quem fala em dignidade humana e protege pedófilos, quem brada contra o aborto e desampara uma criança indefesa, não merece a condescendência de uma resposta à altura.)

Enfim, acabamos diante de uma questão: como debater aborto sem debater sexualidade? Especialmente porque a saída para todos os lados dessa contenda é a informação e a prevenção. Com a descriminalização do aborto, todos (Estado, escolas, universidades, meios de comunicação, igrejas) podem cumprir um importante papel e contribuir para que as mulheres, especialmente as mais jovens, bem como os seus parceiros, especialmente os mais jovens, evitem uma gravidez indesejada. Quando não conseguirem, católicos e evangélicos continuarão sua pregação contra o aborto, e poderão convencer suas seguidoras a manterem sua gravidez. Como sempre, continuarão sendo elas (e só elas) que poderão decidir.

Em tempo: assista abaixo excelente depoimento do Pastor Paulo Kazão, do Ministério Internacional Graça Sobre Graça. Ele mostra que as lideranças evangélicas não são todas iguais.


quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O QUE DERROTOU JOSÉ MARANHÃO NO PRIMEIRO TURNO?

Nas derrotas de José Maranhão ao Governo do Estado – nos dois turnos, em 2006, e agora no primeiro turno, em 2010 – muitos culpados foram apontados, menos o próprio candidato. Análises foram e continuam sendo feitas em abundância para explicar uma derrota que, até o dia da eleição, era vista como improvável, inclusive por este que vos escreve.

E os argumentos para justificar o infortúnio eleitoral maranhista vão desde os altos índices de votos nulos e brancos, que seriam em grande parte despejados no governador caso o eleitor tivesse tido um pouco mais de paciência (ou sapiência), até o "salto alto", o que significa dizer que os aliados e o próprio José Maranhão se desnudaram do manto da humildade e passaram a exibir as vestes da soberba, contando com uma vitoria antecipada.

A presunção deve ter sido abalada quando nos últimos dias de campanha uma avalanche de indecisos começou a definir seu candidato e uma outra multidão começou a mudar de lado. Inevitavelmente, como acontece em toda eleição, as pesquisas começaram a captar essa mudança. E o susto deve ter sido grande quando uma diferença que era de quase 20%, segundo o Ibope, caiu para 5% na véspera da eleição, e deve ter se transformado em terror quando as urnas começaram a mostrar o que traziam dentro delas.

Urna a urna, uma diferença em favor de José Maranhão que era de 400 mil votos foi sendo pulverizada e transformou-se em quase derrota antecipada caso Ricardo Coutinho tivesse obtido apenas 4.735 a mais (ou 0,26% dos votos válidos).

Depois desse resultado, a grande questão a ser desvendada é: o que provocou a derrota parcial de José Maranhão?

Eu ensaio aqui uma tentativa de resposta e começo por afirmar: quem derrotou o candidato do PMDB à reeleição foram as grandes e médias cidades paraibanas. A soma das diferenças pró-Coutinho obtidas em João Pessoa e Campina Grande chegou a 136.388 votos, determinante para a estratégia eleitoral ricardista. Considerando o aparato político-administrativo do PMDB, o esperado era que essa diferença diminuísse quanto mais os votos da cidades menores fossem contados. Mas, não foi isso que aconteceu. Pelo contrário.

Seguindo a rota da BR-230, o que se viu foi uma sucessão de derrotas maranhistas que começou em Bayeux, passou por Patos, foi a Souza e chegou finalmente a Cajazeiras. Contadas as diferenças das 10 maiores cidades (João Pessoa, Campina Grande, Santa Rita, Bayeux, Patos, Sousa, Cajazeiras, Guarabira, Sapé e Cabedelo) a diferença ao invés de cair, subiu para 152.232. E é importante ressaltar que dessas 10 cidades, apenas os prefeitos de João Pessoa e Sousa não apóiam José Maranhão. E mais: ampliando o número de cidades para as 20 maiores, que representam mais de 50% do eleitorado, a diferença decresceu apenas 8.784, caindo para 143.448.

Em suma, José Maranhão chegou à perigosa situação de ter que tirar mais de 140.000 votos de diferença nas 200 cidades restantes, que representam a outra metade do eleitorado (num universo próximo dos 900.000 votos válidos) e que contam com menos de 20.000 eleitores. Enfim, a candidatura de Ricardo Coutinho empurrou a de José Maranhão para uma hegemonia restrita às pequenas cidades, assim como o candidato do PMDB fizera com Cássio Cunha Lima, em 2006.

Nesse ponto, outra questão se apresenta. Como explicar o frágil desempenho maranhista nessas cidades? Os altos índices de votos nulos e brancos, que na Paraíba alcançaram 18,5% ou 368.335 votos, não resolvem a questão. Mesmo que esses votos fossem destinados ao atual governador, e mesmo que eles tivessem permitido a vitória maranhista no primeiro turno, o problema político permaneceria, ou seja, o desempenho do candidato do PMDB nessas cidades continuaria sofrível.

A responsabilidade é dos prefeitos? Não acho. Veja o caso de Campina Grande. Fosse a liderança de Cássio Cunha Lima tão incontestável, ele teria vencido as duas últimas eleições na cidade, e não foi isso que aconteceu. Veneziano Vital o derrotou nas duas ocasiões. Entretanto, em 3 eleições seguidas para Governador o esquema cassista na cidade impôs uma humilhante derrota ao PMDB.

Esse fenômeno começou a ser observado também em João Pessoa. O eleitorado começou a se movimentar massivamente para Ricardo Coutinho, mesmo uma parte dele torcendo o nariz para a aliança PSB-PSDB-DEM. Enfim, um voto em potencial José Maranhão não conseguiu transformar em força eleitoral. E, enfim, não há como fugir dessa constatação: a liderança de José Maranhão está se esgarçando e o seu desgaste político é óbvio. E um fenômeno que acontece em todo o Nordeste, onde as lideranças mais tradicionais foram derrotadas, parece que chegou à Paraíba.

Por mais qualidades que José Maranhão tenha como administrador e como político, o fato de postular ser governador da Paraíba pela quarta vez provoca um inevitável desgaste. Diante de um eleitor cada vez mais exigente, e ao ter como principal oponente uma liderança que representa essa nova geração de políticos que ascendeu na Paraíba nos últimos anos, originada nos grandes centros, essa característica que vincula José Maranhão ao tradicionalismo político ficou mais acentuada.

E o atual governador não fez muito para alterar esse estilo e enfrentar a situação. Como escrevi aqui neste blog em abril, numa postagem intitulada Nada de novo no front? José Maranhão e as armadilhas do debate programático:

"considero que José Maranhão vai precisar redefinir seu discurso e reconhecer que a política está mudando. E que ele não subestime isso. A Paraíba é o único estado do Nordeste que ainda não experimentou a ascensão de uma nova liderança com origem e discurso de esquerda.

"Coutinho pretende ocupar esse espaço, e ele pode tentar fazê-lo apontando o dedo para a ferida. Deste modo, para além das questões de ordem administrativas, ao ser questionado sobre suas responsabilidades e de seu partido quanto ao quadro social e econômico da Paraíba, hoje, mais do que apontar a contradição no discurso do candidato do PSB, José Maranhão precisa apresentar a si e ao seu próximo governo, e se possível o atual, como de transição, para ajustar a Paraíba a um novo modelo de desenvolvimento que se constrói no Brasil atualmente." (clique aqui para ler a postagem).

Foi exatamente isso que faltou ao discurso de José Maranhão: ele esqueceu de apontar para o futuro. O seu candidato a vice-governador, por exemplo, o jovem Rodrigo Soares, sequer apareceu no guia eleitoral. Veneziano Vital, a mais expressiva liderança do PMDB, apareceu na campanha também apenas residualmente.

Enfim, José Maranhão acreditou que a mesmice do discurso administrativo era suficiente para reencantar o eleitor. E parece que não foi.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Os desafios de Dilma no segundo turno

O Brasil foi às urnas neste domingo e seu eleitorado reforçou um comportamento que é cada vez mais indômito. Na eleição presidencial, esticou a eleição para o segundo turno transferindo parte dos votos que seriam de Dilma Rousseff, do PT, para Marina Silva, do PV. Nos estados, derrotou sem dó nem piedade lideranças tradicionais que tiveram a tribuna do Congresso e os holofotes da Globo para bradarem sua raiva contra Lula.

Dilma, com 46,9%, repetiu no primeiro turno quase a mesma proporção dos votos que Lula obteve em 2002 e 2006: 46,4% e 46,6%. Marina Silva repetiu o mesmo papel que foi conferido pelo eleitor a Ciro Gomes e Antony Garotinho, em 2002, e Cristovam Buarque, em 2006, só que agora sozinha, mas reunindo características que os outros não tinham: é "verde", o que agradou ao ambientalismo de classe média; é mulher, o que a fez competir nesse ponto com Dilma; é evangélica, o que a tornou candidata de uma campanha que uniu evangélicos e católicos, especialmente contra o aborto, e que fez estrago na votação final da candidata de Lula, talvez decisivo para levar a eleição para o segundo turno; é de "oposição", o que agradou aos serristas envergonhados; e, por fim, foi a candidata "alternativa" da grande imprensa, que deu a Marina Silva uma cobertura desproporcional ao peso política e eleitoral da ex-petista.

Pode-se, assim, concluir que candidatas como Marina Silva representam um eleitorado que não é nem de direita nem lulista? Na campanha de 2010, ficou clara a existência de eleitores que não se sentem à vontade nem com tucanos nem com petistas no poder. Buscam uma terceira via, seja porque rejeitam enfaticamente a experiência do governo tucano de FHC e o bloco de partidos conservadores que ainda se mantém unido na oposição a Lula, seja porque são fortemente influenciados pela campanha que faz a imprensa contra o presidente e, especialmente, contra o PT. É um eleitor majoritariamente de classe média, agora encorpado por religiosos influenciados pelo conservadorismo de padres, pastores e bispos.

Claramente, a campanha de Dilma (e os "dilmitas" na outra ponta) subestimou os subterrâneos das campanhas pela internet, onde a mentira e a desinformação rolam soltas. Quem subestimou isso, não lembrou o que aconteceu no início da campanha de vacinação contra a gripe H1N1. No início da campanha, muita gente recusou a vacina por acreditar que ela poderia trazer complicações, inclusive a morte. A fonte? Uma corrente de e-mails que circulou pela internet. Enfim, essas pessoas preferiam ficar exposta a um vírus que poderia matar e acreditar numa mensagem sem nenhuma dado que a comprovasse. Foi necessário o Ministério da Saúde vir a publico esclarecer que não haveria mal algum, pelo contrário, em tomar a vacina.

E a mentira de que, por exemplo, Dilma aprovaria o aborto ou o "casamento homossexual" caso eleita só foi feita por e-mail. Ela só apareceu de maneira muito marginal e pouco clara na campanha de TV e rádio. Por isso, é importante enfrentar esse debate no segundo turno sem se render à hipocrisia e ao conservadorismo da direita. Não vamos cair na armadilha moral que envolve essa questão. É preciso reafirmar a tradição republicana que separa Estado e religião; é preciso salvaguardar a universalidade dos direitos sociais, independente de posições ideológicas, políticas ou religiosas. Querer que o Estado fique subordinado às posições da religião é fundamentalismo.

Entretanto, se seria um erro fugir novamente desse debate, pois ele inevitavelmente voltará, agora com mais força, um outro erro seria torná-la o centro da campanha, como certamente desejará o PSDB, que buscou durante todo o primeiro turno mudar o foco do debate sobre o que realmente importa nessa eleição: qual o melhor projeto de desenvolvimento para o Brasil? Pois foi essa questão que impulsionou a candidatura de Dilma Rousseff, tornando-a favorita para ganhar a eleição, favoritismo que ainda persiste, pois basta a ela preservar os votos conquistados no primeiro turno e incorporar pouco mais de 3% dos eleitores dos outros candidatos (pouco mais de 1% desses votos provavelmente virão dos eleitores do PSOL, PSTU e PCO.

Como em 2006, a realização do segundo turno obrigará ao PT debater com mais profundidade as diferenças que o separam do PSDB e do Dem. E isso ajudará a romper o debate puramente burocrático e administrativo que assumiu a candidatura Dilma, centrado nas realizações do governo Lula, sem dúvida fundamentais. No segundo turno, o PSDB será colocado no seu devido lugar na história recente do Brasil, e escaparemos do insípido debate administrativo.

A política agradecerá.

A derrota do tradicionalismo político nas eleições estaduais

De Norte a Sul foram derrotadas figurinhas carimbadas da política nacional, o que fez desmoronar de vez a força que Dem e PSDB ainda ostentavam no Senado.

Do PSDB foram aniquilados nas urnas: Artur Virgílio (AM), Tasso Jereissati (CE), Albano Franco (SE), Rita Camata (SE), Marcelo Cerqueira (ex-governador do RJ) e Gustavo Fruet (PR).

Do DEM: Heráclito Fortes (PI), Efraim Moraes (PB), Marco Maciel (PE), José Carlos Aleluia (BA), Cesar Maia (RJ). Além de Mão Santa ("Luiz Inácio, Luiz Inácio..."), e Cezar Borges, ex-governadores do PI e da BA.

As exceções foram o Rio Grande do Norte, que elegeu em primeiro turno (52,46%) uma governadora do Dem, e reelegeu dois políticos das oligarquias mais tradicionais daquele estado (José Agripino Maia e Garibaldi Alves), e do Maranhão, que reelegeu Roseana Sarney por uma pequininíssima margem (50,08%) numa acirrada disputa com Flávio Dino, do PCdoB. Em suma, ao que parece, o tradicionalismo político, especialmente no Nordeste, está em extinção.

E consolida-se no poder uma nova geração de políticos, mais à esquerda. Jaques Wagner (BA) e Marcelo Deda (SE), ambos do PT, Eduardo Campos e Cid Gomes, ambos do PSB, vão continuar governando, eleitos que foram no primeiro turno, os principais estados nordestinos. Em Alagoas e Piauí, Ronaldo Lessa, do PDT, e Wilson Martins, do PSB, enfrentam no segundo turno candidatos do PSDB.

E a Paraíba?

Resta a Paraíba, onde José Maranhão deu a sorte da eleição não acontecer uma semana depois, pois se as pesquisas realizadas até 15 dias antes da eleição estavam corretas, talvez nunca tenhamos presenciado uma ascensão tão rápida e avassaladora como a que presenciamos na Paraíba. De uma derrota que apontava uma diferença próxima dos 20% - o que representava algo em torno de 400.000 votos – o ex-prefeito de João Pessoa arrancou para quase vencer ainda no primeiro turno, confirmando a tendência de um eleitorado cada vez mais em busca de alternativas.

José Maranhão tem a chance de refazer a estratégia de campanha, montada no oba-oba que foi o primeiro turno, onde ele pensou e se comportou como se a disputa fosse um passeio, passeio que só existiu no mundo maravilhoso das pesquisas eleitorais, que não conseguem desvendar os mistérios do eleitorado paraibano.

Os erros poderiam ser atribuídos à manipulação, o que só é factível durante uma certa fase da campanha. Mas, e os erros de véspera, onde os institutos costumam aproximar seus números aos da realidade eleitoral? E os da boca-de-urna, quando as pesquisas são divulgadas depois dos votos já depositados nas urnas?

Enfim, ao que parece, Ricardo Coutinho foi ao segundo turno não só porque soube transformar em votos a aliança "geopolítica" entre Campina Grande, ou seja, o cassismo alimentado pelo antimaranhista, e João Pessoa que, ao que parece, não foi seduzida pelos apelos neo-lulistas do maranhismo e votou em Ricardo Coutinho, com Cássio e tudo o mais.

Mais do que isso: foram os grandes centros que lhes deram a vitória, ficando o PMDB restrito ao pequenos municípios, onde normalmente quem ganha é quem controla a máquina estadual. Aconteceu em 2002, 2006 e voltou a acontecer em 2010.

Só que desta vez, a oposição enfrentou a situação numa descomunal desigualdade de estrutura administrativa (governo federal, estadual e as principais prefeituras interior a dentro, incluindo Campina Grande), o que mostra que o eleitor paraibano dos grandes e médios centros urbanos - que, aliás, concentram mais da metade do eleitorado paraibano, – é cada vez mais independente.

Por fim, num debate eleitoral marcado por um despolitizado embate entre "gerentes", venceu o menos tradicional e, digamos, mais "urbano". A saída de José Maranhão será politizar o debate sobre o sentido de sua candidatura e mostrar, mais do que a superioridade administrativa, a superioridade política do seu projeto.

O de Ricardo Coutinho será manter os votos conquistados nos grandes centros reforçando o seu discurso de mudança, e continuar tirando votos de José Maranhão. Mais do que isso. O desafio Ricardo e dos ricardistas é evitar cometerem o erro que Maranhão e os maranhistas cometeram ao cantarem vitória antes dos votos entrarem nas urnas.

Repito aqui o que escrevi a um colega hoje. Nunca é demais lembrar um exemplo relativamente recente. Roberto Paulino também cantou vitória quando foi para o segundo turno com Cássio, em 2002. Tinha tudo para vencer, porque conquistou no segundo turno o apoio de Avenzoar Arruda, o candidato do PT que conquistou mais de 12% dos votos naquela eleição. E todo mundo sabe quem venceu.

O segundo turno é uma outra eleição. Para os dois. E o primeiro desafio de cada candidato é manter intocado seu eleitorado. O segundo é avançar sobre o do adversário. Em um mês, muita água vai rolar por debaixo dessa ponte.


Reproduzo abaixo trechos de uma postagem aqui publicada ainda em março de 2010 intitulada Ricardo Coutinho X José Maranhão: Davi contra Golias? Nela, são analisadas as chances de Ricardo Coutinho.

(...) a grande incógnita será o comportamento do eleitorado dos dois maiores colégios eleitorais, João Pessoa e Campina Grande. No caso do primeiro, se ele converterá em voto no candidato oposicionista (Ricardo Coutinho) a boa avaliação que ele faz da administração pessoense; no caso do segundo, se o eleitor campinense reproduzirá a rejeição a José Maranhão que permitiu estabelecer uma diferença que foi a principal responsável pela vitória de Cássio Cunha Lima nos dois últimos pleitos.

Se a atitude do eleitor campinense mantiver a atitude das duas últimas eleições - foram 4 as vezes, nos dois turnos de 2002 e 2006, que ele se dirigiu às urnas para derrotar os candidatos do PMDB, - consolidando uma espécie de comportamento eleitoral, José Maranhão precisa começar a se preocupar. Especialmente se Ricardo Coutinho conseguir uma aliança com o PSDB, indicando Ivandro Cunha Lima como o seu vice, e Veneziano Vital permanecer na Prefeitura. Então, as condições políticas estarão montadas para repetir 2002 e 20006, se não nas mesmas proporções, mas com intensidade suficiente para estabelecer uma diferença que precisará de dezenas de pequenas cidades para ser coberta.

E se o eleitor de João Pessoa desconsiderar as alianças que fez o atual prefeito, será a capital dessa vez a derrotar o PMDB. E é bom não esquecer: mais de 50% do eleitorado paraibano está concentrado nas 20 maiores cidades, onde o eleitor é cada vez mais independente e cada vez mais tem acesso à informação.

Portanto, se for mantida hoje a diferença entre José Maranhão e Ricardo Coutinho, como mostram as últimas pesquisas - mesmo desconsiderando a margem de erro, - está certo o prefeito de João Pessoa em ousar, mesmo com as reais possibilidades de derrota. Em política, a ousadia pode ser o diferencial entre uma carreira medíocre e uma carreira vitoriosa.

Para ler a postagem completa clique aqui.

Para ler outra postagem aqui publicada também em março em que analisei as chances de Ricardo Coutinho diante dos resultados das pesquisas Clique aqui. O título é: Pesquisa Consult-Correio: Ricardo Coutinho está no páreo‏.