terça-feira, 21 de julho de 2015

Ciro Gomes põe novamente o dedo na ferida


Ciro Gomes ensaia um retorno à política e não poderia escolher momento melhor do que esse em que o Brasil está imobilizado diante de uma crise sem paralelo na história recente brasileira.

Em seu estilo inconfundível, moldado por um discurso que recusa o floreio habitual tão comum na maioria dos políticos, inclusive nos de esquerda, quando instado a tratar de temas difíceis, Ciro Gomes coloca o dedo nas várias feridas abertas que enfeiam hoje a política nacional.

E o faz com a coragem de quem nunca tangenciou naquilo que, segundo diz, considera ser o fundamento de seu projeto político, que parece se conformar numa associação do projeto de país que vislumbra, há muito já esboçado num pequeno livro que ele escreveu com Mangabeira Unger (O próximo passouma alternativa prática ao neoliberalismo) antes da eleição de 1998, na qual foi candidato, e que tem por base a formação de uma consistente aliança que possa mobilizar os melhores quadros políticos da República.

Na abertura da entrevista que concedeu hoje ao site ConversaAfiada, de Paulo Henrique Amorim – notem que a escolha do veículo também diz muito a respeito do público para quem Ciro Gomes pretende falar,  o ex-governador do Ceará explicou porque resolveu voltar à cena política nacional.

Ciro expôs as razões que deveriam impelir a se manifestar quem dispõe de um mínimo de responsabilidade política nos dias de hoje.

Em primeiro lugar, a percepção de que o Brasil vive uma “escalada golpista” que procura transformar o país, de modo artificial, numa Venezuela.

Essa escalada golpista, que está em pleno andamento, tem variantes e todas elas assumem as feições de um golpe paraguaio, ou seja, dos golpes brancos levados a cabo recentemente na América Latina e que buscam a “legitimidade” por dentro da justiça (TSE) e do parlamento (TCU e Congresso), e cujo desenlace pode colocar em risco as instituições políticas da democracia brasileira duramente conquistadas.

Ciro Gomes, como se espera, não se recusa a apontar que a liderança oculta do golpismo está na “plutocracia”, no “estamento dos endinheirados, especialmente do setor financeiro”, que jamais deram trégua ao governo.

Isso mesmo depois de Dilma ter nomeado um dos seus representantes para o Ministério da Fazenda, o que para ele representa uma loucura da Presidenta, em vários sentidos, seja do ponto de vista político, seja do ponto de vista teórico.

Em segundo lugar, o que Ciro chama de “descaminhos” do segundo governo Dilma, que traiu as expectativas daqueles que, mesmo sem plena satisfação com os resultados do primeiro governo, enxergaram que a candidatura da petista representava a coesão de uma inteligência nacional que foi capaz de identificar ali os valores que importam para o país: a questão nacional, o compromisso moral com a superação das desigualdades e com uma política nacional de desenvolvimento para o Brasil.

Dilma, segundo Ciro, logo após ser eleita, lançou-se numa agenda que é a negação do que a sua candidatura representou, o que acabou por deslegitimar essa agenda que uniu o Brasil em 2014. E isso Dilma certamente fez cultivando uma ilusão de que, ao abraçar-se com “nossos adversários”, eles lhe dariam trégua.

Os problemas de Dilma no governo expressam a ausência de uma visão articulada, homogênea, coerente do ponto de vista político e ideológico, e que resultaram na constituição de um governo sem consistência, a começar pelos petistas que o compuseram no primeiro mandato.

Para Ciro, Dilma não entendeu direito o que fez com que ela se reelegesse. Ao desconsiderar isso, ela abriu o flanco para o golpe e, para evitar continuar jogando água no moinho do reacionarismo, Dilma precisa tomar outro caminho na “gestão da economia, na gestão da política brasileira”.

Ciro deseja, e isso é fundamental, “reconstituir essa legitimidade” perdida, o que significa dizer que ele pretende retomar as bandeiras que uniram o campo vitorioso em 2014 sob sua liderança. Segundo ele, esse campo não pode se recompor mais sob a liderança de Lula, que, para Ciro, será derrotado se abraçar nova candidatura em 2018.

Enfim, Ciro Gomes deu o recado. Um recado de quem percebeu, assim como faz o governador Ricardo Coutinho, o imenso espaço vazio que se abriu na política nacional após as denúncias da Operação Lava Jato e a desorientação política que tomou conta do governo e do PT, que não souberam ainda criar condições para sair da paralisia política que a mídia lhes impôs.

Diante da última pergunta: “Ciro Gomes é candidato em 2018?”, a resposta não poderia ser mais direta: “ Se eu não conseguir me desintoxicar (da vontade que o impele hoje a ser), não. Mas, seu eu achar que é necessário, sim.”

Mais do que a vontade de ser Presidente, que nunca deixou de ter, Ciro Gomes enxerga o campo aberto e uma esquerda órfã de alguém que responda à altura às inquietude e os dilemas atuais da política brasileira.

Lula tem desde hoje um oponente no campo da esquerda.

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