segunda-feira, 14 de março de 2016

Faltaram pobres e negros nas manifestações

Pobre votar é um luxo inadmissível
As manifestações realizadas no último domingo (13/03) levaram muita gente às ruas, especialmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, superando os atos de um ano atrás. Um grande feito político, sem dúvida. 

As grandes empresas de comunicação comemoram os “milhões” nas ruas do país como se, por si só, esse fato representasse um fato consumado para determinar o fim do mandato de Dilma Rousseff.

Não é bem assim. Um primeiro aspecto a ser levado em conta é que, por mais massivas que sejam manifestações contra governos, elas por si só não os derrubam – fosse assim, restariam poucos governos de pé na Europa depois de 2008. 

Especialmente, em regimes presidencialistas como o nosso, onde a única maneira de derrubá-los é por impedimento do presidente/a, identificado, sem que reste margem para dúvida, um crime de responsabilidade. Ou por golpes militares. Ou parlamentares.

Como a primeira opção parece por enquanto descartada, restaria a alternativa do golpe parlamentar. 

Hoje, tramitam no Congresso iniciativas que vão desde a proposta de impeachment de Dilma − cada dia mais difícil em razão da inexistência de crime de responsabilidade − à adoção de um regime parlamentarista – sem novas eleições parlamentares, é bom que se diga, para formar nova maioria. 

Um clássico golpe parlamentar, nos moldes do que fora tentado aqui mesmo no Brasil, em 1961, para impedir que João Goulart, uma liderança de esquerda, assumisse a Presidência com plenos poderes depois da renúncia de Jânio Quadros. Como teimam em repetir a história...

Um segundo aspecto a ser considerado é que as manifestações de ontem apenas revelaram um maior engajamento dos mais ricos em sua obsessão de derrubar um governo de esquerda. 

Mais uma vez ficou notória a ausência de pobres e negros nas ruas no domingo passado. O Datafolha foi à Avenida Paulista no domingo (13) para pesquisar o perfil dos que estavam lá para protestar. 

Resultado: 77% dos entrevistados declararam ser brancos e 50% dos entrevistados informaram receber de cinco a 20 salários mínimos mensais. 12% disseram ser empresários, na cidade mais rica do país onde apenas 2% da população total tem essa ocupação.

Num país onde a população preta e parda corresponde a 50,7% da população brasileira, segundo o Censo de 2010, o que significa números superiores aos 100 milhões de brasileiros, temos aí um fosse que, um anos depois, não foi transposto pela liderança dos ato que pretendem derrubar o governo Dilma. 

Os negros na manifestação da elite
Aliás, negros foram vistos, sim, nas manifestações: servindo famílias de endinheirados, como mostra uma reveladora foto que viralizou nas redes sociais. 

Na imagem, uma madame caminha ao lado marido conduzindo seu cachorrinho, e uma babá (negra e, como sempre, vestida de branco) segue o casal logo trás empurrando um carrinho com dois bebês. Nem para “protestar” essas pessoas dispensam seus “negrinhos”.

Ou seja, o povo, os mais pobres, a amplíssima maioria mantem-se à distância desses movimentos elitizados, talvez com muita razão. 

E a razão está escrita em uma das faixas que abriu uma das manifestações de rua que expõe, num inacreditável rasgo de sinceridade, a lógica dos mais ricos em nosso país e sua inconformidade com a possibilidade de direitos iguais: 

“Os pobres não foram feitos para a política, mas para sustentar o poder dos políticos corruptos”. E essa turma não entende porque os pobres não votam em seus candidatos. 

Enfim, o status quo foi às ruas, ontem. E quando esse pessoal se mobiliza é para defender seus interesses.

Lula, Dilma e a esquerda tem um desafio no próximo dia 18, quando manifestações serão realizadas em defesa do governo e do Estado democrático de direito: mobilizar os mais pobres que, por enquanto, mantém-se à distância do grave conflito que divide o país e que, antes de mais nada, ameaça seus interesses.

Se isso acontecer, esse jogo vira.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Luciano Cartaxo preferiu a companhia de outros braços

Cartaxo preferiu a companhia de outros braços
Ter sangue-frio na política não é para qualquer um. Paciência também. prefeito de João Pessoa, Luciano Cartaxo, anunciou hoje sua desfiliação do PT. Ele passa a compor os quadros do Partido Social Democrático (PSD). 

Ao fazer isso, Cartaxo não resistiu ao medo de enfrentar em João Pessoa o governador Ricardo Coutinho sem ter a certeza de contar com o apoio formal do PSDB de Cássio Cunha Lima. 

Numa conjuntura nacional em que tanto o PT quanto o governo federal se mostram acuados pelo cerco midiático.

Cartaxo viabiliza aliança com PSDB em 2016

O novo partido de Luciano Cartaxo tem pouca ou quase nenhuma identidade política e ideológica com o PT, mesmo compondo a base de apoio do governo de Dilma Rousseff. 

O seu presidente é Gilberto Kassab, que foi vice-prefeito e prefeito de São Paulo eleito quando ainda pertencia aos quadros do antigo PFL (ex-PDS, ex-Arena), depois Dem.

O PSD foi criado como ponte para atrair deputados filiados a partidos oposicionistas, especialmente Dem e PSDB, que não conseguiam sobreviver longe do governo. O presidente do PSD na Paraíba, Rômulo Gouveia, por exemplo, era um tucano-cassista quando se filiou ao partido.

Portanto, Cartaxo faz mais que uma mudança partidária. Ele muda também de campo político no país, e em momento de muita incerteza e de reconfiguração da própria esquerda.

Ao optar por se compor com partidos mais à direita do espectro político nacional, Cartaxo abandona não apenas a disputa com o PSB pela base social do campo da esquerda, que é expressiva numa cidade como João Pessoa. Ele permite que ela se unifique contra ele.

Por isso, o governador Ricardo Coutinho tem muito a ganhar com a saída de Cartaxo do PT.

No anúncio feito hoje, Cartaxo esqueceu de avisar a plateia que estava entregando de bandeja o apoio do PT – que tem o maior tempo de TV e governa o país, lembremos disso, – ao governador Ricardo Coutinho, que agradece sorridente presente tão inesperado,

Ou alguém acha que o PT vai ficar mudo diante da atitude de Cartaxo. O PT vai fazer a prefeito pessoense uma pesada crítica política, especialmente por conta do fortalecimento da aliança com os tucanos.

E com a viabilização do apoio formal do PSDB ao ex-petista, Cartaxo acaba também contribuindo em outros aspecto com a estratégia de RC, que desde o início do ano procura empurrá-lo para a posição que ele, finalmente, assumiu hoje, isolando-o à direita e aliado ao mais legítimo tradicionalismo político paraibano.

RC vai reproduzir em João Pessoa, no próximo ano, a polarização que o levou à vitória por ampla margem na cidade, em 2014. 

Enfim, a decisão de Luciano Cartaxo de sair do PT apenas é o corolários de uma trajetória pendular que ele incorporou desde que sentou na cadeira de prefeito. 

E ela pode mostrar outra coisa: que a vitória de Cartaxo em 2012 não foi mais que um relâmpago em um dia ensolarado.

PS. Com sua saída do PT, Cartaxo praticamente esvazia a candidatura de Manoel Jr., que depende muito do apoio de Cásiso e do PSDB para se viabilizar. 

A questão agora é saber se José Maranhão também está nesse acordo, o que é muito difícil, mas não impossível. Caso Maranhão não esteja, o enfraquecimento de Manoel Jr. pode levar o PMDB de volta para os braços do PSB. É o que veremos nas próximas semanas.)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A força de Luciano Cartaxo

Cartaxo vai para a disputa contra o PSB. Sentado na cadeira de prefeito.
Há uma visível euforia no eleitor ricardista. Ela se deve ao presumível rompimento da aliança com o PT e ao consequente lançamento de candidatura do PSB à prefeitura de João Pessoa no próximo ano.

E nada melhor que a inauguração de grandes e importantes obras de concreto armado para despertar e manter levantado o ânimo dessa militância que se prepara para mais uma batalha.

Mas, é bom que os socialistas evitem cometer os mesmos erros que levaram adversários de Ricardo Coutinho à derrota, tanto em 2010 quanto em 2014: a soberba, o “salto alto”.

No ano passado, os cassistas riam das chances de reeleição de RC da mesma maneira que muitos ricardistas , hoje, embevecidos pelo bom momento político e administrativo de Ricardo Coutinho, ensaiam assumir essa postura.

Em razão disso, não custa nada lembrar duas coisas: 1) quem enfrentará Luciano Cartaxo será provavelmente João Azevedo, e não Ricardo Coutinho; 2) será a gestão de Luciano Cartaxo que estará em julgamento no próximo ano, e, novamente, não a de Ricardo Coutinho.

Da mesma maneira que o eleitor, para o bem e para o mal, separa a administração municipal da federal, também separa da estadual. Eleição não é uma disputa entre esferas de poder e cada uma tem sua própria dinâmica.

E são vários os casos em que governadores muito bem avaliados foram derrotados em suas respectivas capitais.

O contrário também é verdadeiro. Em 2012, por exemplo, o PT administrava duas grandes capitais nordestinas (Recife e Fortaleza) e foi derrotado por candidatos apoiados por governadores, coincidentemente também do PSB (Eduardo Campos e Cid Gomes, este último à época no partido).

Ali, nós tivemos a conjunção de gestões municipais com problemas de avaliação e que tinham como contraponto candidatos apoiados por gestões estaduais muito bem avaliadas.

E é essa a grande questão: o que Luciano Cartaxo terá a mostrar para o eleitorado em termos de realizações de sua gestão? Ele conseguirá convencer que João Pessoa continuou avançando ou prevalecerá a ideia de que a capital retroagiu? Que seu trabalho merece ser aprofundado ou não?

A estratégia de Cartaxo parece ser a de tentar dar à sua administração um perfil mais voltado à periferia e com a população mais pobre: construção de casas populares, creches, postos de saúde.

Já imaginaram o peso dessas imagens no guia eleitoral? Os depoimentos que podem render?

Sem esquecer as grandes obras, como a reurbanização da Lagoa, que deve ser o grande marco da gestão a ser entregue às véspera da eleição.

Além da obra da Beira-Rio, que impedirá os alagamentos frequentes durante a época de chuvas e consolidará o trabalho que que visa acabar com os engarrafamentos naquela área, especialmente com a duplicação da avenida que dá acesso ao Altiplano.

Do ponto de vista político, a consolidação da candidatura de Manoel Jr tende a ser benéfica a Cartaxo, exatamente porque tem Cássio e Maranhão como seus principais fiadores – talvez só seja possível entender essa aproximação entre os dois observando os arranjos promovidos lá por cima, em Brasília.

Tem a ver com 2018? O tempo dirá.

Mesmo sem claras divergências com Luciano Cartaxo, o certo é que Manoel Jr. não pretende reforçar o projeto do governador em João Pessoa, especialmente se tiver Cássio como um dos seus principais “conselheiros”.

E nesse quadro, Cartaxo pode ter um alento no segundo turno se enfrentar o candidato do PSB, já que antes tudo parecia indicar uma perigosa situação de isolamento para o petista.

E se Cartaxo fizer um esforço para atrair Maranhão...


Enfim, como disse o próprio governador durante essa semana, muita água ainda vai rolar por baixo dessa ponte.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O timing do PSB

Ronaldo Barbosa sua para explicar as contradições do PSB
Nas várias entrevistas que concedeu a rádios na semana passada, a pretexto de divulgar evento sobre atuação nas redes sociais promovido pelo PSB, o presidente do partido em João Pessoa, Ronaldo Barbosa, deixou mais dúvidas do que certezas em relação a qual é mesmo o projeto socialista para a capital paraibana em 2016.

Apesar de todos os indícios de que o partido de Ricardo Coutinho pretende lançar candidatura própria no próximo ano em João Pessoa, Barbosa não contribuiu para clarear qual é mesmo a intenção da direção partidária.

Sem confirmar a candidatura e reafirmar o óbvio (“o PSB tem nomes para disputar a PMJP”), a informação mais relevante no périplo radiofônico de Barbosa foi a de que qualquer coisa pode acontecer até a conclusão das convenções partidárias no próximo ano: do lançamento de candidatura a apoio à reeleição de Luciano Cartaxo, tudo pode acontecer em relação ao PSB.

Confusão proposital? A posição de Ronaldo Barbosa parece demonstrar que não.

O problema talvez não esteja na posição individual do presidente do PSB, que talvez expresse a falta de unidade do partido e confusão política que toma conta da cabeça dos socialistas em razão da ausência de uma diretiva mais clara por parte de sua maior liderança e maior eleitor em João Pessoa, que é Ricardo Coutinho.

Como o governador tem enviado claríssimos recados sobre sua intenção de lançar candidato na capital, mas ainda não deixou claro que é isso mesmo que pretende fazer, o PSB parece ser hoje um dos poucos partidos que importam no jogo político da Paraíba a não ter uma clara posição sobre como vai agir em 2016.

Ora, como exigir “reciprocidade” do PMDB pelo apoio que o PSB pretende dar a Veneziano Vital em Campina? Reciprocidade a que posição, se os socialistas ainda não sabem com certeza se pretendem lançar candidato/as em João Pessoa?

Essa dubiedade em relação à posição do PSB em João Pessoa quando o assunto são as eleições de 2016 pode ser medida pela postura da dupla de vereadores que o PSB tem na Câmara de João Pessoa: enquanto Zezinho do Botafogo apoia a administração petista, Renato Martins é um dos mais destacados oposicionistas. 

Até quando isso vai persistir? Até às vésperas das convenções do próximo ano? Isso nem de longe é exemplo de “nova política”.

“Aliança eleitoral”

Voltando a Ronaldo Barbosa, o dirigente socialista foi devidamente emparedado quando participou do programa Correio Debate, na última quinta.

Acossado pelos entrevistadores do Correio Debate, especialmente Fabiano Gomes e Wellington Farias, Barbosa saiu pela tangente quando questionado sobre se a aliança PSB-PT seria ou não mantida. 

Barbosa tergiversou, deixando claro que ainda é muito cedo para antecipar posições.

E citou o exemplo de 2014, quando o PT resolveu de última hora apoiar a reeleição do governador Ricardo Coutinho.  

Para a surpresa geral, Ronaldo Barbosa disse que aquela aliança foi apenas “eleitoral”, o que no jargão da esquerda quer dizer que foi uma aliança não programática, em suma, de ocasião, exclusivamente montada para atingir os objetivos comuns tanto de PT como de PSB.

Toda aliança entre partidos para disputar eleições pretende-se que seja programática. Eu pelo menos espero que assim seja. E cada partido tem seus objetivos próprios, que muitas vezes confrontam com objetivos estratégicos de um aliado. Assim é a política.

No caso da eleição de João Pessoa, o projeto do PSB de disputar sua prefeitura é mais do que legítimo considerando ser ela a mais importante da Paraíba e locus onde nasceu e se irradiou a força política que governa hoje o estado.

Vencer em 2016 em João Pessoa é central para a estratégia do PSB por várias razões, algumas das quais ainda serão analisadas aqui. Além do que as críticas administrativas à gestão petista, a qual o PSB não ajudou a eleger e da qual formalmente o PSB não participa, são pontos de grande relevância a justificar a não manutenção da aliança.

E a questão nacional tende a afastar PT e PSB – só é preciso agora observar se o PSB da Paraíba pretende contribuir para uma crítica “pela esquerda” ao PT ou se vai chancelar o programa adotado por Eduardo Campos, e depois por Marina Silva, em 2014.

Enfim, o problema do PSB parece ser o timing para anunciar o rompimento com o PT.

A questão é que quanto mais os dirigentes do PSB tentam encontrar justificativas para as contradições de sua política, mais eles deixam margens para questionamentos e abrem flancos para serem explorados.

Notem também que o PT permanece calado sobre essa questão, mesmo que deixando passar oportunidades para também responder às estocadas no PSB, e não apenas no campo da política.

Esse melhor momento para o anúncio pode ter passado e quanto mais tempo leve para ser feito mais prejuízos políticos podem causar.

E a perda do apoio do PMDB é um exemplo disso – ninguém no PSB percebeu que Maranhão precisava ter participado desse jogo? Que Gervásio e Veneziano sozinhos não comandam o PMDB, especialmente em João Pessoa?

E Luciano Cartaxo continua a ganhar tempo político e, portanto, administrativo.

Na próxima postagem eu tratarei do projeto de Luciano Cartaxo.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

RC X Cássio: essa disputa permanece atual?

"(Cássio) está coberto por essa aura golpista contra a presidente eleita e quer também derrubar um governador eleito. Mas ele vai ter que esperar quatro anos e vai apanhar de novo”.

A frase acima foi dita ontem (24/08) pelo governador Ricardo Coutinho em entrevista à imprensa durante solenidade de entrega da reforma e ampliação da Escola Estadual Mestre Sivuca.

RC se referia ao senador Cássio Cunha Lima e às esperanças cultivadas, tanto pelo atual líder da oposição no Senado como por boa parte dos seus seguidores na Paraíba, de retornar ao governo pelas mãos não do povo, mas de juízes da justiça eleitoral.

2018?

Mas, há algo que as palavras de Ricardo Coutinho não expressam com clareza e que só vão ficar mais claras na medida em que 2018 entrar em pauta.

Quando RC diz que Cássio terá de esperar, o governador parece indicar que não apenas planeja derrotar o tucano, mas vencê-lo em 2018.

Essas duas alternativas só parecem complementares, mas não são iguais, porque derrotar Cássio não é o principal objetivo do governador. RC não age com o fígado e é estratégia pura.

A primeira questão é que RC chama Cássio para a disputa, tentando escolher novamente o adversário, e um adversário que ele pode novamente vencer. Coutinho mais do que ninguém sabe que antagonizar com Cássio mantem o conteúdo político das disputas eleitorais iniciadas em 2010.

E ninguém hoje representa melhor as características da velha política derrotadas nas duas últimas eleições do que o herdeiro dileto dos Cunha Lima.

Eu diria mesmo que RC anseia por uma nova candidatura de Cássio, mas ela não dependerá exclusivamente da vontade do tucano. A candidatura de Cássio em 2018 dependerá de três variáveis, não necessariamente na ordem a seguir:

1) a disputa em Campina Grande no próximo ano; 2) a sucessão presidencial e a montagem dos palanques tucanos nos estados, especialmente no Nordeste; 3) a evolução da avaliação do governo Ricardo Coutinho nos próximos três anos.

Vencer em Campina, sem dúvida, dará sobrevida ao projeto cassista. Uma derrota será um desastre, e isso pode significar que em 2018 Cássio pode ser obrigado a lançar-se candidato a governador para colaborar com a chapa presidencial tucana. É óbvio que Cássio vai tentar evitar isso a qualquer custo. Restaria a ele a disputa para o Senado, mas na chapa de quem?

Quanto a terceira variável, é preciso antes dizer que eu tenho percebido um erro de avaliação comum sobre o futuro político de Ricardo Coutinho, especialmente a respeito de nomes para sucedê-lo.

Nome se constrói.

O importante mesmo será Ricardo Coutinho manter e ampliar a boa avaliação do seu governo. Com isso, ele pode almejar a escolha de um sucessor que seja expressão legítima do projeto político por ele liderado, sem que necessariamente seja uma liderança política reconhecida – João Azevedo é um exemplo disso?

No campo ricardista, que inclui hoje o PMDB, não há lideranças com capacidade de aglutinar e gerar expectativas de vitória.

Veneziano claramente age para recuperar a força que já ostentou, prejudicada claramente depois que saiu da prefeitura de Campina. Mesmo eleito prefeito da Rainha da Borborema, em 2016, Vené terá apenas um ano e três meses de administração e, claro, não cometerá a loucura de sair da prefeitura para embarcar em uma aventura.

E Veneziano é o nome do PMDB que o partido dispõe para tentar recuperar no futuro o governo do estado, e esse não é um projeto de curto prazo.

Por isso, apostar na consolidação da aliança com o governador Ricardo Coutinho pode ser mesmo a alternativa política que resta ao PMDB. Resta saber se José Maranhão terá essa compreensão ou se preferirá o ziguezague político próprio dos agrupamentos sem projeto.

Fora Ricardo e Cássio não há muitos nomes disponíveis no mercado, exceção feita ao do prefeito pessoense Luciano Cartaxo, que ainda terá de passar pela prova de fogo de 2016.


Bom, essa é uma outra história que merece uma análise à parte.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

FHC lança isca para atrair o PMDB e manter crise

Postagem de FHC

Na última segunda, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso publicou em sua página no Facebook uma enigmática postagem.

Entre outras coisas, FHC defendeu que o governo petista “é ilegítimo” e sem “base moral” para continuar governando, contaminado que está pelas “falcatruas do lulopetismo” e pelos “malfeitos de seu patrono” – quem será? – restando a presidenta o “gesto de grandeza da renúncia”.

Ainda na tarde de segunda, eu publiquei um breve comentário também no Facebook:

“FHC pede a renúncia de Dilma depois de afirmar que ela é uma mulher 'honrada'. Anotem aí: FHC quer agora inviabilizar a recomposição de Dilma com o PMDB acenando para Michel Temer. Essa recomposição pode dar estabilidade política ao país e criar as condições para uma recuperação econômica. E com uma possível candidatura de Lula, em aliança com o PMDB e com um programa mais liberalizante e, portanto, mais palatável para os bancos e o empresariado interno e externo, pode representar uma grave ameaça ao projeto do tucanato paulista.

É bom não esquecer que o PSDB de Aécio Neves abandonou a proposta de impeachment depois que Temer disse que o Brasil precisava de alguém para uni-lo. Foi um recado e tanto. Enfim, o que FHC deseja é evitar que se refaça a aliança PT-PMDB.

Mais uma vez e cada vez mais o PT e Dilma dependem do velho PMDB de guerra.”

Essa postagem foi motivada pela divulgação de um experimentado jornalista, como o blogueiro Rodrigo Viana, do Escrevinhador, também publicada na tarde de segunda, para quem a manifestação de FHC tratava-se de “um duplo recado: para Aécio Neves, em primeiro lugar; mas também para a direita que está nas ruas.”

Pois bem. Um dos porta-vozes do tucanato na grande imprensa, o colunista dO Globo, da Globo News e da CBN, Merval Pereira, tratou dessa questão em sua coluna de hoje e revelou os meandros do mistério.

Sob o título “FH organiza o PSDB”, Merval diz que com a “clareada” do texto de FHC o PSDB não apenas se unificou a “favor da saída da presidente Dilma”, como não mais reivindica para si “o protagonismo para uma eventual ação de impeachment” e “garante respaldo político ao sucessor caso o impeachment seja aprovado”, ou seja, a Michel Temer.

Ele lembra um fato óbvio que impedia que PSDB e PMDB compartilhassem a mesma estratégia era nada mais nada menos que Aécio Neves, cujo projeto só tinha viabilidade se toda a chapa fosse impugnada pelo TSE, com a ascensão de Eduardo Cunha a presidência e a convocação de uma nova eleição, dois gravíssimos inconvenientes, segundo Merval.

Ao que parece, FHC sentiu o alcance da conciliação que representa a Agenda Brasil, especialmente no meio empresarial, e a reunificação da base parlamentar do governo em torno do PMDB.

Essa estratégia deixa clara que, mesmo ao custo de ser chamado de irresponsável, a estratégia de FHC deixa claro que não interessa ao PSDB a instabilidade política e econômica. E mais ainda do quanto ele teme a volta de Lula.


Enfim, FHC lançou a isca e Merval Pereira tenta torna-la apetitosa. Resta saber se Michel Temer pretende abocanhá-la.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Manifestações: Cássio perdeu. De novo

800 pessoas em João Pessoa. O tucanismo de extrema direita morreu ontem
As manifestações ocorridas ontem (16/08) enterraram de vez a possibilidade de Dilma Rousseff sofrer o impeachment, mas dificilmente deixarão de ocorrer no futuro.

Para muita gente, ir para a rua funciona como uma espécie de terapia coletiva para colocar suas raivas – e preconceitos – para fora. Cria uma consciência coletiva de grupo conjuntural e encorajadora.

Se não existiam ainda as condições jurídicas para justificar o início do processo até a semana passada, depois de ontem, se já eram escassas depois do anúncio da Agenda Brasil, deixaram de existir também as condições políticas.

E esse fracasso de público das manifestações representa a pá de cal, o último suspiro para as pretensões dos que, a exemplo de Aécio Neves, Cássio Cunha Lima e as lideranças dos movimentos mais à direita a eles associados que lideraram essas manifestações, ainda sonhavam com a realização de novas eleições.

Esses são os grandes derrotados.

A exceção novamente foi São Paulo, cidade onde o número de participantes foi o único a superar o das manifestações de abril, que já mostraram o movimento em franca decadência. Segundo o Datafolha, foram 135 mil ontem, enquanto que em março esse número beirou os 100 mil.

A turma de Cássio: com Zé Agripino Maia
e Ronaldo Caiado na Venezuela
Isso pode mostrar que os tucanos paulistas, isto é, Geraldo Alckmin e FHC, vão jogar nas duas frentes. Vão apoiar o acordo de sobrevivência para Dilma, que no fundo é uma adesão às ideias tucanas, mas vão também tentar manter a pressão das ruas para manter a influência sobre o eleitorado mais conservador e elitista. Lembremos que 2016 vem antes de 2018.

O Datafolha pesquisou o perfil dos que foram ontem à Avenida Paulista e confirmou o que é visível em fotos das manifestações: 61% eram homens, 40% tem 50 anos ou mais, 30% tinham de 36 a 50 anos, 40% ganham entre R$ R$ 7.881 e R$ 39.400 de renda familiar. Ou seja, faltaram mulheres, jovens e pobres na Paulista ontem à tarde.

De qualquer modo, foi mais uma demonstração de forças dos tucanos paulistas para mostrar aos mineiros quem tem voto e gente pra mobilizar.

Enquanto isso, em Belo Horizonte, segundo a PM, a manifestação de ontem contou com a presença de seis mil participantes. E Aécio participou.

Os impactos políticos na Paraíba

Cássio comemorando o fracasso no Facebook
Em João Pessoa e Campina, as manifestações contra Dilma, segundo a PM, contaram com 800 e 500 pessoas, respectivamente.

Para o apoio explícito de lideranças políticas como os tucanos Cássio Cunha Lima e Ruy Carneiro e o deputado federal Manoel Jr., que deseja ser candidato a prefeito de João Pessoa, além de um aparato de divulgação montado nas redes sociais e com entrevistas em importantes rádios concedidas pelos organizadores na última sexta, esperava-se um número mais expressivo de participantes.

Mas, não foi isso que aconteceu. O fracasso foi tão retumbante que, como previsível, os participantes foram abandonados pelos cassistas dessas lideranças políticas, que sequer deram as caras para não serem associadas a mais esse fracasso político.

No caso de Cássio, ele sai muito menor do que entrou depois desses quase dez meses de crise política. Líder do maior partido de oposição no Senado, Cunha Lima poderia ter se destacado na crítica mais programática ao governo Dilma.

Mas, não foi para isso que ele foi indicado. Cássio preferiu o aventureirismo de Aécio Neves, que não via perspectiva de se tornar presidente dentro das regras do jogo. A força eleitoral e, principalmente, política do atual presidente do PSDB não persistiria até 2018, onde o PSDB paulista o esmagará sem muita resistência.

Restou a Cássio e Aécio a identificação e a aliança com o que havia de pior na política brasileira, como as redes sociais mostram cotidianamente e como as manifestações expõem num espetáculo duro de assistir.

Tudo isso travestido da velha crítica moralista que marca historicamente as posições de certos setores da sociedade, normalmente localizados no andar de cima, e usadas sempre para combater qualquer governo que ameace distribuir renda. Foi assim com Getúlio, foi assim com Jango, foi assim com Brizola, no Rio, foi assim com Lula e está sendo assim com Dilma.

Hoje, nada disse existe. A esquerda é hoje predominantemente neokeynesiana, tanto que um autor declaradamente não marxista como Thomas Pikety vira estrela dessa esquerda.

É claro que, por isso mesmo, deve-se dar um desconto na covardia do PT, nesse imobilismo e falta de iniciativa mesmo para abraçar as bandeiras de defendidas por Piketty, como a taxação de grandes fortunas e das heranças.

Além disso, existem outras grandes diferenças, principalmente em relação aos anos imediatamente anteriores ao pré-1964. Ali havia uma disputa real porque Jango abraçara as bandeiras das “reformas de base”. E havia a Guerra Fria e a Revolução Cubana em pleno curso.

Hoje, esses setores anseiam pela “venezuelização” do país para dar vazão à soluções autoritárias. É o velho o golpismo de setores da sociedade que só esperaram que a memória dos anos pós-1964 arrefecesse e um novo caldo de cultura emergisse.

Para o bem e para o mal, Lula não é Chavez e o empresariado sabe disso. Cássio e Aécio não perceberam essa faceta? Por conta disso, podem penar no isolamento político que essas posições conservadoras representam, porque elas nunca tiveram representatividade eleitoral.

Elas representam nichos e servem apenas para os Bolsonaros da vida manterem seus mandatos sem nunca almejarem qualquer projeto de mais largo alcance, como um executivo.

Cássio pode refazer essa trajetória recente, mas acredito muito pouco que ele faça isso. Os espaços, especialmente na Paraíba, são muito escassos. O PT não é algo a ser considerado, óbvio. E o PMDB deve aprofundar a aliança com o PT, especialmente se Lula for mesmo candidato.

Uma terceira via no plano nacional, com Ciro Gomes, deve incorporar muitos setores da sociedade insatisfeitos, na esquerda e fora dela. No PT, em especial, mas não só nele. Esse deve ser o campo de Ricardo Coutinho.

Um nota sobre Manoel Jr

Passou a ser questionável a posição de que o deputado federal Manoel Jr tem mesmo a força apregoada junto a Michel Temer, principalmente depois do apoio dado às manifestações desse domingo.

Não é a Temer que Manoel Jr é ligado, mas a Eduardo Cunha. E Michel Temer opera hoje para isolar Cunha, ao lado de Renan Calheiros, no Congresso, para fortalecer Dilma.

Enquanto a turma de Cássio procura salvá-lo. É isso que os aproxima hoje.


Simbolicamente, Manoel Jr. deve ter assinado ontem sua ficha de filiação ao PSDB.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A "peemedebização" do governo Dilma


Não foi por acaso que a iniciativa da apresentação da Agenda Brasil foi feita via Renan Calheiros e o Senado. A intenção é fortalecer o Presidente do Senado não apenas como interlocutor privilegiado do governo, mas como alguém que tem responsabilidade política e institucional.

Renan já foi escolhido e aceitou o papel para ser o anti-Eduardo Cunha, o Presidente da Câmara que, de uma hora para outra, virou pó porque não soube entender o mecanismo de funcionamento histórico a respeito de como são promovidas as grandes mudanças no Brasil, assunto que, aliás, Lula é um grande mestre.

O método sempre teve por princípio evitar os grandes enfrentamentos, cujo desfecho, especialmente nesse caso, tem sempre um quê de imprevisibilidade.

Eduardo Cunha foi sempre estimulado pela grande mídia a enfrentar Dilma e o PT, mas sempre foi mantido na rédea curta. 

Mesmo antes do acordo pretendido ser anunciado, Eduardo Cunha fá havia sido devidamente rifado e espera apenas que o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, não sem um certo prazer, emparedar Cunha, que deve ser afastado da Presidência da Câmara para que a nova ordem se estabeleça sem muitos sobressaltos.

Notem que o clima já mudou também no TCU, outro espaço onde o “golpe” prosperava: ontem, Dilma ganhou mais 15 dias para se “explicar”. Alguém tem dúvida que lá também Dilma se salvou?

Até mesmo os vazamentos da Lava Jato deram um tempo – sem a audiência da Globo e Folha o delegados aecistas ficam sem palanque.

Restará o último bastião do aecismo, que é o TSE, o último recurso para que “novas eleições” sejam realizadas. Como Gilmar Mendes sempre foi mais obediente a FHC e à Globo, o futuro da chapa Dilma-Temer estará assegurado por lá também.

Resta observar as implicações políticas da incorporação da Agenda Brasil por Dilma.

A peemedebização do governo Dilma

Logo após a eleição de 2014 numa entrevista que ganhou notoriedade ao Manhattan Connection, da Globo News, porque, entre outras coisas, ajudou a desfazer um velho preconceito em relação aos votos dos mais pobres no Brasil pós-Lula, o cientista político Alberto Carlos Almeida, autor do livro A Cabeça do Brasileiro, chamou a atenção para o papel do PMDB na política brasileira.

Na ocasião, Almeida comparou o Brasil com a América Latina radicalizada politicamente, em especial a Argentina. 

Segundo ele, falta à Argentina um partido como o PMDB, que é, desde 1985, o principal fiador, vamos chamar assim, da estabilidade política no Brasil e que, gestão a gestão, vem permitindo a governabilidade.

O que não acontece na Argentina desde 1930, onde só presidentes peronistas conseguiram concluir seus mandatos até hoje.

Depois do impeachment de Collor – governo do qual o PMDB não participou formalmente, diga-se de passagem – o PMDB foi peça-chave nos governos FHC, Lula e Dilma.

E quando ameaçou ir para a oposição contra Dilma, foi um fator decisivo de instabilidade política que deu asas aos que um dia sonharam com o impeachment da atual presidenta.

Vê-se agora porque a opção para o enfrentamento da crise política nunca foram mobilização das ruas.

Lula ameaçava, mas continuou a “aconselhar” Dilma a uma reaproximação com o PMDB. Até que o “ponto ótimo” fosse atingido.

E será o PMDB novamente o partido que, reaglutinado em torno de Renan Calheiros e Michel Temer – é bom ninguém esquecer o vice-presidente, que certamente foi decisivo ao não estimular a radicalização golpista – quem desempenhará novamente o papel que promoverá a estabilidade política ao país, depois de quase 10 meses de uma confusão que nos aproximou muito de uma grave crise institucional.

No entanto, é bom observar o que se segue: o PMDB certamente tem sido determinante para a estabilidade política no Brasil, mas a um custo político muito alto por conta de sua marca predominantemente conservadora.

É um erro, portanto, pensar que o PMDB é movido apenas pelo fisiologismo.
Não foi apenas o PMDB a ser decisivo para impedir que determinadas políticas de viés mais transformador, como reforma agrária e reforma política, por exemplo, prosperassem durante os governos petistas, cujas bases parlamentares eram um verdadeiro samba-d0-criolo-doido ideológico. 

Ainda hoje é assim.

Mas, pelo peso que sempre ocupou nas bancadas de sustentação, certamente o PMDB foi decisivo para manter os governos petistas “nos eixos”.

Por isso, mesmo sendo a “Geni” da política brasileira, o PMDB, cuja formação predominantemente é de centro, e mesmo que comporte até políticos de esquerda, como Roberto Requião, continua sendo essencial ao conservadorismo no país.

Enfim, diante da fragilidade do governo Dilma, o PMDB terá um papel cada vez mais decisivo para levar o governo à frente e concluí-lo em 2018, encarcerado no conservadorismo do PMDB.

E mesmo que a tal “Agenda Brasil” não seja totalmente aprovada e posta em execução – ela não foi elaborada para isso mesmo porque, em toda negociação, os bons negociadores pedem o máximo para conseguirem o possível*, – o governo Dilma perde as condições para criar um novo ciclo de crescimento suficientemente forte para arrancar-lhe da inação política.

É o fim do ciclo do PT.

PMDB e PT

Essa situação deve promover uma reacomodação de forças internas no PT. Muita gente deve abandonar o partido até 2018. 

É bem provável que um novo partido deva nascer dessa crise, talvez um partido-frente de centro-esquerda que consiga acomodar os insatisfeitos com a saída negociada para a crise, dentro e fora do PT.

Mesmo assim, Dilma e Lula conseguirão manter o PT com alguma força política e eleitoral. E a possível candidatura de Lula deve sirvir principalmente para isso.

O certo é que, nessa situação, o petismo que não rejeita o PMDB, normalmente que tem os peemedebistas com adversários nos seus estados, como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, só para citar dois exemplo, ganhará força no PT e essa aliança pode ser consolidada em alguns estados.

A Paraíba pode ser um deles. 

Mesmo sem muito tempo para curar as feridas abertas desde 2010, aprofundadas em 2012 e 2014, se o PT paraibano, leia-se Luciano Cartaxo, for habilidoso o suficiente pode disputar com o PSB o apoio do PMDB, em 2016, especialmente se tiver visão estratégica, de médio e longo prazos, que é o que falta muito ao partido.

As condições vão amadurecer ainda, mas é preciso se preparar para elas.


*  Essa lógica, claro, não inclui setores do sindicalismo do serviço público federal, especialmente a Andes.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A pax do mercado: as propostas do empresariado para salvar Dilma


Eis que finalmente sabemos o formato da espada que nesses últimos meses lentamente desceu em direção ao pescoço da presidenta Dilma Rousseff.

O tamanho da ameaça foi apresentado hoje pelas mãos do ministro Joaquim Levy e do Presidente do Senado, Renan Calheiros, e é agrupado num conjunto de propostas a ser aplicado em várias áreas de grande interesse do empresariado, brasileiro e estrangeiro (veja ler as propostas clique aqui).

Essa é a senha definitiva para o fim da crise, a solução perfeita para um conflito que se desenvolveu como uma grande ameaça até que, visivelmente fragilizada, Dilma não tivesse condições de dizer não. 

Eis os prováveis motivos para a antecipação do recuo do Financial Times, da Bloomberg, da Globo e da Folha. São os termos de uma rendição que Dilma, antecipando-se, já declara que "coincidem plenamente" com o que o governo pensa para superar a crise "a agenda positiva para o país".

"Muitas das propostas do presidente Renan coincidem plenamente com as nossas. São propostas muito bem-vindas. Queria até dizer que, para nós, a melhor relação possível do Executivo com o Legislativo... então nós olhamos essas 27 propostas com grande interesse e valorizamos muito a presença delas", disse a presidenta logo depois da divulgação das propostas. (Clique aqui)

É a pax do mercado.

No fim das contas, como eu sempre disse, nunca se vislumbrou com seriedade a proposta de impedir a continuidade do mandato de Dilma, mas de fazer com que ela sangrasse até que não restasse outra alternativa a não ser adotar o programa derrotado na urnas no ano passado que, claro, não será cobrado como uma logro ao que foi dito durante a campanha.

Será o fim melancólico do "ciclo do PT" que, incapaz de enfrentar o adversário, será obrigado a se render e empunhar as bandeiras contra as quais se defrontou e derrotou nas urnas?

É o que veremos nas próximas semanas.

As propostas

Selecionei algumas propostas para alguns breves comentários. Algumas delas ainda serão desenvolvidas, o que já mostra o seu caráter polêmico.

Vamos a elas:

1) Segurança jurídica dos contratos: blindar as legislações de contratos contra surpresas e mudanças repentinas.

Essa conversa é velha e vem dos tempos de FHC. Trata-se de assegurar todo tipo de proteção para os super-lucros das empresas, principalmente estrangeiras, que se preparam para entrar com força no mercado brasileiro, especialmente na área de infraestrutura.Quem quiser ter uma ideia do que se trata, leia os contratos que regulamentaram as privatizações, por exemplo, do setor elétrico.

2) Aperfeiçoar marco regulatório das concessões, para ampliar investimentos em infraestrutura e favorecer os investimentos do Programa de Investimentos em Logística do Governo (PIL).

Concessões, leia-se, maior participação da iniciativa privada em setores antes controlados ou com predominante atuação do Estado. O governo Dilma já entregou os aeroportos (lucrativos) e rodovias (do centro-sul) para as grandes empresas administrarem.

3) terceirização (menos radical) e novo marco jurídico para o setor de mineração ("como forma de atrair investimentos produtivos") e para áreas indígenas ("compatibilizá-las com as atividades produtivas").

É a  pauta que Eduardo Cunha destravou na Câmara, com floreios "regulatórios". Enfim, a expansão da mineração vai ditar o ritmo da organização territorial em determinadas áreas do país, especialmente na Amazônia.

4) Revisão da legislação de licenciamento de investimentos na zona costeira, áreas naturais protegidas e cidades históricas, como forma de incentivar novos investimentos produtivos.

Toda legislação que protege, hoje, minimamente essas áreas do avanço do mercado de hotelaria e todo tipo de empreendimento turístico estará em perigo. Vamos nos cuidar para não virarmos um Caribe.

O Estado

Além dessas questões, que atendem a interesses empresariais em diversos setores, existem as que implicarão em um reordenamento do Estado, também nessa direção da "flexibilização", mas atendendo às exigências, especialmente do setor financeiro, de "economicidade".

Fala-se, de maneira genérica, em "implantar a Instituição Fiscal Independente". O que vem a ser isso? Independente de quem? Do Estado? Dos poderes constituídos? Que atue para atingir que objetivos em termos de arrecadação?

Pretende-se que o Estado venda "ativos patrimoniais (terrenos de Marinha, edificações militares obsoletas e outros ativos imobiliários da União" certamente para entregá-los a empresários do setor de hotelaria e turismo. Vamos raspar o tacho aqui.

Sem que também fique claro do que realmente seja, pretende-se "aprovar a Lei de Responsabilidade das Estatais, com vistas à maior transparência e profissionalização dessas empresas". 

Notem que a ideia de "transparência" aparece junto da de "profissionalização", que, no jargão do mercado, vem a ser uma atuação das estatais distantes de qualquer projeto nacional de desenvolvimento, o que pode representar um retrocesso em relação ao que Lula começou a desenvolver em seu segundo mandato, e que promoveu, entre outras coisas, o renascimento da indústria naval. 

Fala-se em "maior desvinculação da receita orçamentária" para dar "maior flexibilidade ao gasto público". Isso me cheira um retorno à antiga DRU (Desvinculação das Receitas da União) de FHC, que permitiu ao governo de então mexer em gastos com percentuais constitucionalmente estabelecidos, como educação e saúde, com o objetivo de fazer caixa para pagamento de dívidas a bancos e "investidores", o tal "superávit primário.

Existem outros contrabandos, como "ampliar idade mínima para aposentadoria" e o aperfeiçoamento - sabe-se lá o que essa turma entende por isso - do "marco jurídico e o modelo de financiamento da saúde", mas a intenção parece clara: pretende-se que o Estado proíba o financiamento de tratamentos "experimentais onerosos" obtidos hoje através de liminares na justiça, o que vai representar o fim de qualquer esperança de sobrevivência para muita gente vitimada por doença grave, como certos tipos de câncer - menos aqueles que podem pagar por eles, a exemplo dos que elaboraram essa proposta.

No casa de "Avaliar possibilidade de cobrança diferenciada de procedimentos do SUS por faixa de renda" isso pode significar um sério flanco para permitir a cobrança de procedimentos pelo SUS, o que fortaleceria ainda mais a saúde privada. Os mais ricos  hoje só fazem uso do SUS para procedimentos (caros) não cobertos pelos planos de saúde. Isso incluirá os tratamentos contra AIDS, que hoje são gratuitos?

Para suavizar e deixar uma janela aberta por onde muita gente ligada ao petismo já entrou para abraçar a proposta, foi incluída a proposta de "Revisar resolução do Senado que regula o imposto sobre heranças, sobretudo quanto ao teto da alíquota, levando-se em conta as experiências internacionais (convergir com média mundial – 25%)".

E o imposto sobre grandes fortunas, que nunca foi regulamentado, mesmo sendo uma determinação constitucional?

Enfim, essa é agenda que já está sobre a mesa de Dilma e representa o salvo-conduto que os empresários apresentaram contra o impeachment. Chegamos na política o que os economistas liberais chama de "ponto ótimo", ou ponto de equilíbrio para que tudo volte à "normalidade".

Será esse o preço da democracia?