quarta-feira, 25 de junho de 2014

A Via Crúcis de Veneziano:uma história de vitórias e traições

A verdadeira Via Crúcis que viveu Veneziano Vital do Rego para viabilizar sua candidatura ao Governo da Paraíba talvez só encontre paralelo na história política da Paraíba com a que enfrentou Pedro Gondim, avô do peemedebista.

Gondim fora eleito Vice-Governador de Flaviano Ribeiro Coutinho, em 1956, e assumiu o governo em razão da grave enfermidade que atingiu  o titular, entre 1958 a 1960. 

Muito popular, Gondim planejava ser candidato ao governo na eleição seguinte, mas seus poderosos adversários da UDN (União Democrática Nacional) tentaram todo tipo de manobra para impedir que isso acontecesse, inclusive a própria renúncia de Ribeiro Coutinho, o que efetivaria Pedro Gondim no cargo, tornando-o inelegível.

Sagaz, Gondim percebeu a manobra e renunciou antes ao cargo, abrindo caminho para a épica campanha que o levaria ao Governo da Paraíba, em 1961, enfrentando os esquemas políticos mais poderosos da época, liderado por Janduhy Carneiro, irmão de Ruy Carneiro, o verdadeiro.

O slogan Tá com medo ou tá com Pedro? sintetizou espontaneamente as aspirações populares contra os esquemas do tradicionalismo político-familiar da época e se eternizou como exemplo mais legítimo de que, em política, todo desafio pode ser enfrentado e superado, por mais que as condições se apresentem difíceis e desiguais.

A ascensão de Veneziano

Veneziano pertence à safra de novos políticos que ascenderam junto com o desejo de renovação política que passou a marcar o Brasil de maneira mais visível a partir de 2002.

Desde então, aqui no Nordeste, os velhos e tradicionais grupos políticos foram sendo derrotados até perderam a antiga hegemonia que mantinham sobre a região desde tempos imemoriais. 

Como eu já tratei dessa questão mais de uma vez aqui no blog, não me alongarei nesse debate. 

Veneziano apareceu para a política estadual em 2004, quando, como um verdadeiro Davi, derrotou o Golias Cássio Cunha Lima numa das mais inesperadas e, por isso mesmo, inesquecíveis vitórias que a Paraíba assistiu nas últimas décadas. Veneziano repetia novamente o que fizera o  avô 40 anos antes. Tá com medo?

De simples vereador que era, o Cabeludo enfrentou a força econômica e política do então governador e de sua família na Rainha da Borborema, a cidade que, dois anos antes, praticamente o elegera para o governo com mais de 74% dos votos.

A política, como a história, dá muitas voltas. Veneziano era alçado à condição de liderança de primeira ordem e se projetava para voos mais altos não fosse a ascensão de José Maranhão ao governo, em 2009, o que fez Vené adiar seus planos de disputar o governo estadual.

O papel do PT 

A inesperada derrota de José Maranhão tornou Veneziano Vital do Rego a única liderança peemedebista com condições de disputar o governo na eleição de 2014.

É desse ponto em diante que começa a Via Crúcis de Veneziano. Em 2012, o PT, depois de participar por quase 8 anos da gestão peemedebista, abandona o barco para apoiar uma das maiores adversárias de Veneziano na cidade, Daniela Ribeiro, do malufista PP. 

O PT começava não apenas a corroborar, mas colaborar para o isolamento político do Cabeludo, estratégia que os adversários avidamente trabalhavam para efetivar. 

Isso ficou patente quando Tatiana Medeiros, candidata do PMDB e de Veneziano, foi ao segundo turno contra o tucano Romero Rodrigues, e o PT formalmente ficou neutro na disputa. 

Essa estratégia teve seguimento em 2013 e nos primeiros anos de 2014. Para impedir qualquer aproximação com o PMDB, o PT se junta ao PSC e ao PP - partidos que hoje estão no bisaco do cassismo - e lançam o "blocão", cuja única utilidade política foi impedir a aproximação do PT  com o PMDB, quando esses partidos caminhavam a passos largos para reeditarem a aliança nacionalmente vitoriosa em 2010.

Se intencional ou não, o PT fez o jogo dos adversários de Veneziano.      

Tiro no pé de Cássio?

Outro que manobrou para fragilizar a candidatura de Veneziano dentro do PMDB foi Cássio Cunha Lima. Mais compreensível, porque trata-se de um adversário. 

A estratégia de Cássio tinha dois objetivos. 

O primeiro era forçar um confronto aberto com o governador Ricardo Coutinho para tentar resolver a disputa eleitoral no primeiro turno, mais ainda depois que a velha polarização nacional entre PT e PSDB voltou a se repetir, o que praticamente alija Eduardo Campos, do PSB, da disputa e inevitavelmente empurraria o PT para os braços de RC no segundo turno.

O segundo objetivo era, ao fragilizar Veneziano inviabilizando sua candidatura, trazer o PMDB para apoiá-lo. 

Para tanto, Cássio sempre contou dentro do PMDB com o quinta-colunismo dos deputados Manoel Jr. e Trocolli Jr. e do Prefeito de Sousa, André Gadelha.


No vídeo acima, Veneziano em Sousa pedindo votos para 
André Gadelha, em 2012. Cássio estava no palanque adversário

Os "boatos" de uma possível desistência tinham sempre essas mesmas "fontes", o que levava Veneziano a ter de, ao invés de aproveitar os raros espaços na imprensa para divulgar sua candidatura, desmentir os tais boatos. Isso torna insustentável qualquer projeto de candidatura.

Cássio agiu dentro dos partidos como sempre fez, ao estimular os rachas e as dissidências. Nisso, ele sempre contou nesses partidos com indivíduos dispostas e abertos a traições.

Mas, Cássio pode ter dado um tiro no próprio pé. Acostumado a lidar com políticos que nunca responderam à altura, ou foram desatentos o suficiente para não perceberem essas manobras, Cássio esperava a inércia de RC para efetivar seus planos.

Só que RC aprendeu a conhecer Cássio e a antecipar sues movimentos. Ao invés de atuar para fragilizar o PMDB, RC agiu oferecendo espaços, e quanto mais Cássio agia para fragilizar Veneziano, mais aproximava o PMDB de RC.

E por vários motivos. Um deles é o histórico de confrontos entre PMDB e PSDB na Paraíba, confronto que se estende aos grandes municípios da Paraíba como Campina, Patos e Guarabira, só para citar os mais importantes e onde residem lideranças históricas do partido.

O outro é o da acomodação do PMDB. Nesse ponto, a escassez de alternativas para compor a chapa, acabou ajudando RC. Cássio não pode oferecer os espaços que RC tem sobrando. 

A começar de um vice de Campina Grande. Depois, de uma vaga para José Maranhão,  o que premiaria a lealdade do ex-governador ao projeto do partido, uniria boa parte do PMDB, e, de quebra, incorporaria a densidade eleitoral à chapa de RC. 

Na ânsia de inviabilizar Veneziano, Cássio pode ter exagerado na dose e ter dado um tiro no próprio pé caso o PMDB decida pelo apoio a RC.

E o PT?

A grande incógnita reside no PT e para onde vai o partido de Dilma Rousseff na Paraíba. Sem a candidatura do PMDB, resta ao PT duas alternativas: lançar candidatura própria ou apoiar a reeleição do governador se incorporando ao palanque comitê Dilma-RC.

A questão vai ser como acomodar o PT na chapa majoritária, já que o PMDB dificilmente aceitaria apenas a vaga de vice. O custo político desse acordo é muito alto para o PMDB.

Mas, nada está descartado, inclusive uma mudança de última hora nos planos do PMDB. RC vai ter de cortar na carne e oferecer o que o PMDB exige para fechar o acordo.

Porque Cássio Cunha Lima não estará só observando os movimentos de RC.

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