segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Pesquisa Data-folha: o povo quer continuidade


A pesquisa para presidente divulgada na última sexta (29) confirma que, a exemplo do que aconteceu nas eleições de 2006, quando o “escândalo do mensalão” estava fresquinho, nas de 2010 e nas de 2012, as condenações e prisões de José Dirceu e José Genuíno realizadas sob grande estardalhaço da grande mídia, não tira voto dos candidatos petistas.

Existem várias hipóteses para explicar o fenômeno, mas a principal delas deve estar relacionada, de um lado, ao esgotamento desse fato, largamente utilizado para atacar Lula, Dilma e todo o PT há oito anos.

De outro, aos possíveis beneficiários dos votos, ou seja, uma oposição que, nem de longe – muito pelo contrário – é tida como insuspeita pelo eleitor brasileiro e, portanto, em condições morais de receber seus votos.

Portanto, uma coisa é a consolidação da ideia de que houve corrupção no chamado “mensalão”, outra é converter isso em fator decisivo para orientar o eleitor na hora de decidir o seu voto.

Essa relação automática entre a campanha para desmoralizar o PT e a campanha presidencial, como muitos pretendiam que acontecesse, não leva em conta a cultura política do povo brasileiro, avessa ao moralismo de classe média com o qual ele se defronta desde os anos 1920, mas em especial durante os anos 1950-1960.

O TENENTISMO, o movimento militar nascido no seio das forças armadas a partir de 1922, é a melhor expressão desse sentimento de contestação, ao mesmo tempo moralista e autoritária, de uma classe média urbana nascente, com desejos de ampliar sua participação na política nacional, largamente dominada pelas oligarquias rurais.

Na ausência de partidos que representassem esses setores urbanos, os militares oriundos do tenentismo se colocaram, dali em diante, como expressão política e moral de uma burguesia e uma classe média que desejavam a hegemonia política, mas não eram fortes o suficiente para liderar sozinhas esse projeto.

Por isso, o autoritarismo tenentista ganhou fôlego e deu às forças armadas, ao Exército em particular, a condição de uma espécie de “poder moderador” da República, intervindo no Estado e na política sempre que as circunstâncias exigiam, normalmente em situações de crise.

O corolário, o auge da força tenentista aconteceu em 1964, quando finalmente assumiram o poder contra a corrupção do “poder civil” e ali permaneceram controlando o Estado por longos 21 anos, ao lado de não-militares influentes.

Desse período nasceu, entre outras coisas, a moderna corrupção brasileira.

ESSE PERÍODO QUE VIVEMOS HOJE, com todas as suas limitações – duas delas são as forças descomunais de dois poderes: o financeiro e o da grande mídia, – é o mais longo da democracia brasileira e o único plenamente livre da influência do militarismo.

Os super-heróis da classe média
Os militares voltaram para os quartéis e lá permaneceram nesses 28 anos após o fim da Ditadura Militar, que acabou em 1985.

Talvez porque o militarismo brasileiro, defensor convicto de um nacionalismo de direita, não combine bem com o “globalismo” desses tempos atuais, que exige a desnacionalização das economias.

Enfim, os heróis de setores da classe média não estão, por enquanto, disponíveis para intervir em seu favor no que se apresenta cada nais como um conflito de hegemonia, nessa transição para um novo modelo de desenvolvimento que o PT conduz hoje no Brasil.

Sem os militares, resta o aliado de sempre, a grande mídia, que se acostumou a ditar as regras da democracia e a definir quem comandava o país.

Isso deixou de existir depois da eleição de Lula, mesmo que o PT no poder tenha mantido incólume o tratamento diferenciado que ela sempre defendeu, apesar da clara adesão desta ao oposicionismo partidário.

Essa democracia de quase 30 anos tem permitido o aperfeiçoamento da experiência eleitoral popular, que se consolida a cada eleição.

Quem reclama hoje que o povo não sabe votar reclama porque o povo já não segue suas orientações, reclama da relativa autonomia política conquistada, reclama porque já não conseguem decidir por ele.

Hoje, como faz qualquer eleitor que vive em democracias consolidadas, antes de responder sobre o seu futuro voto, o brasileiro pobre olha antes de qualquer coisa para suas condições de vida, se elas pioraram ou estão melhores nos últimos anos de governo petista.

Ora, se o Brasil vive uma situação de quase pleno-emprego, seja do trabalho seja do capital, se a participação dos salários aumenta a cada ano na formação da renda nacional em função dos ganhos reais obtidos nos últimos anos, se presenciamos uma mudança social que, com a amplitude e a profundidade verificadas hoje, nunca aconteceu no Brasil, se a pobreza diminui rápida e consistentemente e se as famílias consomem cada vez mais, a inevitável pergunta desse eleitor é: mudar para quê e com quem?

A única “novidade” trazida pela pesquisa Datafolha é a candidatura do novo Collor, do novo caçador de marajás, do novo herói da classe média, Joaquim Barbosa.

Diante da superexposição dos últimos meses, especialmente dos últimos dias, Barbosa parece não ter despertado o interesse do eleitor mais pobre, que continua a preferir Lula e Dilma, nessa ordem. 15% é, sem dúvida, um bom começo, mas é preciso confrontar a “unanimidade” construída a ferro e fogo pela mídia em torno de Barbosa com o seu imenso telhado de vidro. Isso só acontecerá na campanha.


De qualquer modo, o recado dessa pesquisa é um só: o jogo continua e está apenas no começo. Muitas emoções virão pela frente.

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