quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Cassismo, rumo à decadência?

Derrotado na Convenção do PMDB, em 1997, o grupo Cunha Lima ainda esperou até 2001 para finalmente sair do PMDB.

Antes disso, iniciou uma aproximação com o PT que resultou numa aliança para a Prefeitura de Campina Grande, em 2ooo, que fez de Cozete Barbosa, até então maior referência de oposição em Campina Grande, vice do candidato à reeleição Cássio Cunha Lima.

Cozete, quatro anos antes, obtivera na cidade 42,5% dos votos para o Senado e poderia se tornar uma pedra no sapato do cassismo.

Em João Pessoa, tentando ajudar ao projeto cassista no estado, o PT local tanto fez que inviabilizou internamente a candidatura a prefeito do então deputado estadual petista, Ricardo Coutinho, que acabou renunciando à indicação.

Em 2000, o PT poderia ter tido dois fortes candidatos à Prefeitura das duas maiores cidades do estado e preferia ser linha auxiliar do grupo Cunha Lima.

Com RC fora do caminho substituído por Luís Couto, ficou pavimentada a tranquila reeleição de Cícero Lucena, também ainda no PMDB, que acabou vencendo no primeiro turno com 74,2% dos votos (quatro anos depois, Ricardo se elegeria Prefeito de João Pessoa no primeiro turno com uma votação de 64,5%).

No mesmo ano, só que em Campina, Cozete Barbosa, traída pelo então governador e candidata à reeleição, obteve menos de 10% dos votos (9,6%) e desapareceu em definitivo da política.

Um relação pendular com a esquerda

Até o anuncio da filiação de Cássio ao PSDB, a família Cunha Lima havia mantido uma boa proximidade com a esquerda na Paraíba.

Cássio, por exemplo, fez parte da corrente “Viração”, a juventude universitária do PCdoB quando estudante da UEPB.

Candidato a deputado federal, Cássio foi apoiado pelo PCdoB, em 1986. E em todas as disputas eleitorais até 2002, PCdoB e PCB apoiaram os Cunha Lima nas disputas em Campina Grande; em 1990, para o governo, apoiou Ronaldo Cunha Lima no segundo turno.

Nesse curto trajeto, Cássio manteve uma relação pendular com a esquerda.

A estreia do “jovem” Cássio na política não eram um bom sinal. Por sua atuação na Constituinte, foi “reprovado” pelo DIAP ao obter uma nota de 4,5, num total de 10,0.

Cássio se deslocou para do “Centrão”, o bloco conservador que foi criado para impedir a aprovação de proposta populares na Constituinte.

Já em 1989, apoiou a candidatura de Lula no segundo turno contra Collor. No governo do estado, Ronaldo Cunha Lima seguiu a cartilha dos cortes nos gastos públicos.

Em 1994, o grupo Cunha Lima compôs a maioria do PMDB paraibano que apoiou a candidatura de FHC à Presidência da República – mesmo o PMDB tendo um candidato, Orestes Quércia.

Vitorioso, os vínculos do grupo Cunha Lima com o governo FHC e com o PSDB se fortaleceram, em especial com Jose Serra, que seria o candidato a presidente do PSDB, em 2002.

Cícero Lucena participou da equipe de Serra no Ministério do Planejamento durante sua passagem pela então Secretaria de Integração Regional, entre 1995 e 1996.

E o substituto de Lucena foi Fernando Catão, hoje um dos três familiares que Cássio nomeou para o Tribunal de Contas do Estado durante o seu governo – os outros dois foram Fábio Nogueira e Arthur Cunha Lima.

Essa relação com FHC se tornou mais tensa quando o grupo Cunha Lima foi derrotado na convenção do PMDB de 1998.

Vitorioso, o grupo maranhista avançou sobre os espaços dos Cunha Lima no Governo Federal.

O grupo do então governador José Maranhão, que apoiou por quase oito anos o governo FHC, ocupara o espaço que fora dos Cunha Lima: Ney Suassuna agora era o Ministério da Integração Nacional com a missão de completar a obra iniciada por Cicero Lucena de extinguir Sudene, o que finalmente acabou acontecendo nos estertores do governo tucano, em 2002.

As divergências locais colocaram os dois grupos peemedebistas em rota de colisão nacionalmente.

Na Convenção Nacional do PMDB, por exemplo, que decidiu a posição do partido na eleição presidencial de 1998 (apoio à reeleição de FHC ou lançamento da candidatura de Itamar Franco, que havia se filiado ao PMDB para ser candidato), o grupo maranhista votou pelo apoio a FHC, enquanto os “ronaldistas” optaram pela candidatura de Itamar, que reforçava a oposição.

As derrotas nas convenções estadual e nacional do PMDB e o consequente alijamento das disputas em 1998, associado ao excelente desempenho de Cozete Barbosa para o Senado naquela eleição (a petista obteve 19,7% dos votos no estado e 42,5% em Campina), que projetou sua sombra sobre o projeto de reeleição cassista, em 2000, promovem o interesse de uma inédita aproximação na Paraíba do grupo Cunha Lima com o PT.

Intensas articulações foram feitas e muitos petistas, mesmo no dia do anúncio da filiação de Cássio ao PSDB, em 2001, mantinham sinceras esperanças que o então Prefeito de Campina Grande e candidato ao governo da Paraíba se filiaria ao PTB.

A opção de Cássio pelo conservadorismo

Quando, entretanto, foi se delineando a força da candidatura de Cássio ao governo, reforçados pela proximidade de Cícero Lucena com o presidenciável tucano José Serra, o PSDB nacional foi seduzido e todas as portas e janelas do partido (e do governo federal) foram abertas para Cássio na Paraíba.

À força e ao apelo popular da candidatura de Lula, Cássio preferia as asas acolhedoras dos tucanos, o que significava apoio da máquina federal e financeira, que funcionaria como um contraponto à força da máquina estadual, à época nas mãos do maranhismo.

E Cássio deu, certamente, o passo decisivo para sua carreira e para o seu futuro exatamente no momento em que o Nordeste começava a viver uma viragem à esquerda.

E ao abandonar o movimento de aproximação com o PT e com Lula, realizado cuidadosamente nos três anos anteriores, Cássio perdeu a oportunidade histórica de ser o grande referencial político do lulismo na Paraíba depois de 2003, em um Nordeste prenhe de mudanças sociais, econômicas e políticas.

As vitórias apertadíssimas para o governo que Cássio obteve em 2002 e 2006, esta última no governo e utilizando todos os meios que estavam ao seu alcance, e que lhe custaram o mandato dois anos depois, mostram o erro estratégico de uma opção política que isolou-o à direita, quando toda sua trajetória anterior foi, senão de uma aliança sólida, mas de flertes com a esquerda na Paraíba.

Vejam no quadro abaixo que, quando Cássio se aliou ao PT, em 2000, na eleição para Prefeito de Campina Grande, ele chegou a 71,4% dos votos.

Depois que rompeu com a esquerda, e esta passou a se aliar à oposição ao cassismo com o nome de Veneziano Vital, o grupo Cunha Lima sofreu duas derrotas.

Mesmo na vitória de 2012, o grupo manteve no primeiro turno o mesmo desempenho eleitoral das derrotas anteriores, conquistando a Prefeitura em razão da divisão da coalizão que governou Campina por oito anos.

Vejam que o desempenho eleitoral do cassismo também é decrescente nas eleições para o governo, tanto no primeiro quanto no segundo turno, em Campina Grande.
Tendo como base a eleição de 1990, quando Ronaldo Cunha Lima foi candidato a governador, as votações dos candidatos apoiados pelo grupo Cunha Lima, incluindo as do próprio Cássio, estão em descenso e é provável que assim se mantenha.

2016 será um teste, se não definitivo, mas decisivo para mostrar se a decadência do cassismo se desenvolverá como mais ou menos rapidez.

Se a frente que venceu as eleições em 2014, e que se anuncia em todo o estado, for mantida em Campina Grande, o grupo Cunha Lima tem muito a temer em 2016.

E uma derrota na Rainha da Borborema pode ser o início do fim de uma liderança do porte da que Cássio Cunha Lima se tornou na Paraíba.

Ele e sua família manterão ainda a imp0rtância política, especialmente por atuarem na segunda maior cidade do estado, mas a tendência é que se transformem com o tempo em grupo auxiliar das forças que disputarão a hegemonia política na Paraíba.

Assim como se tornou o “braguismo”.

No momento, o PMDB, em nítida decadência, está em pleno processo de captura.

Chegará a vez do cassismo? 

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