segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Cássio, a derrota de uma maneira de fazer política e o fim de um"mito"

Certamente, os maiores derrotados das eleições de 2014 na Paraíba são Cássio Cunha Lima e o PSDB.

Uma derrota eleitoral e política cujo alcance ainda não pode ser medido em toda sua extensão, mas que terá impactos nas futuras disputas na Paraíba.

Os erros de Cássio

Antes de tudo, seria miopia política achar que a derrota eleitoral de Cássio Cunha Lima trata-se apenas de um resultado única e exclusivamente determinados pelas especificidades próprias da política paraibana.

Certamente, elas foram decisivas e preponderantes, como são em todos os embates. Mas, eu acredito que o eleitorado nordestino rejeita cada vez mais liderança cujas práticas políticas e administrativas lembrem práticas oligárquicas ou não “republicanas”, como o governador eleito gosta de chamá-las. (Voltaremos a essa questão na parte final desse texto)

E Cássio, assim como fez José Maranhão, em 2010, vestiu com perfeição esse figurino.

A começar pela postura dúbia que adotou durante o governo, do qual participou aquinhoado por incontáveis cargos em todos os escalões, deixando sempre em aberto se manteria ou não o apoio ao governador.

Depois, por deixar para a última hora (abril de 2014, a três meses das convenções) para anunciar o rompimento e a candidatura. Quer atitude mais execrável do que essa?

Além disso, depois veio o debate na Assembleia sobre a reprovação das contas de 2011 do atual governo, um golpe, concordando com RC à época – algo raro – segundo eu mesmo me referi a essa manobra em comentário na Rádio CBN.

Um erro da oposição, já então engordada e liderada pelo cassismo, que vitimizou o governador, dando argumento para que este continuasse a desancar deputados oposicionistas chamando-os de chantagistas.

Esse foi o capítulo final de um embate que o governador, calculadamente, levou à frente contra a Assembleia no decorrer dos mais de três anos de governo, já se preparando para o embate que teria na eleição.

Mais do que um embate entre poderes, esse foi um embate entre imagens: a do governador austero, que se recusa a negociar com deputados em termos obscuros, e deputados, a maioria conhecida pelas barganhas pouco republicanas que fazem em troca de apoio parlamentar.

A montagem da chapa

Um movimento de Cássio que deixou claro o quanto ele subestimou o adversário, erro que também cometeu José Maranhão, em 2010, foi na montagem da chapa.

Provavelmente considerando-se já eleito, Cássio superestimou sua situação em João Pessoa e subestimou a de RC ao privilegiar as acomodações de aliados e o peso econômico, ao optar por Ruy Carneiro como seu companheiro de chapa, também do PSDB, e Wilson Santiago, cuja liderança ainda carece ainda ser confirmada nesses embates.

Com a escolha de Rui Carneiro, Cássio optou por ampliar seu palanque ao distribuir seu espólio entre deputados aliados, sem esquecer o próprio filho, projetando para torna-lo o deputado mais votado da eleição.

Mesmo Carneiro sendo de João Pessoa, o tucano pouco agregou aos votos que já detinha na Capital. Talvez se tivesse optado por um nome como Luciano Agra, Cássio não apenas teria condições de ampliar com um nome que agregava um outro perfil à chapa, como teria escolhido alguém cujo recall de embates com RC ainda era muito nítido.

Mesmo Cícero Lucena teria cumprido, para a estratégia eleitoral, um papel mais decisivo, especialmente em João Pessoa, e teria sido mais competitivo na disputa para o Senado.

A campanha colada na de Aécio

Que Cássio é “amigo do peito” e “irmão camarada” de Aécio Neves todo mundo já sabia, mas que isso justificaria colar uma campanha na outra, aí já são outros quinhentos.

Cássio parece ver a Paraíba como vê Campina Grande. Isso pode até ter rendido alguns votos em meio ao eleitor da classe média das praias pessoenses, mas para aqueles que votaram majoritariamente em Dilma, que obteve quase 65% dos votos dos paraibanos, não em parece ser essa uma boa estratégia, especialmente no segundo turno quando a eleição ratificou a velha polarização PT-PSDB.

O Nordeste em mudança

O que a Paraíba viu ser derrotada no último dia 26 de outubro pode não ter sido apenas a primeira derrota de um político cuja invencibilidade era cultuada como um atestado de derrota antecipada para seus adversários.

Pode ter sido a derrota de um estilo, de uma maneira de fazer política, e, mais do que tudo, de uma forma social chamada “oligárquica”.

Talvez Cássio tenha experimentado os últimos espasmos de um prestígio que o projetou como grande liderança estadual, quando este, já de maneira sofrível, conseguiu derrotar em 2002 o ex-governador Roberto Paulino, e repetir a dose, também aos trancos e barrancos, agora em 2006, num duelo de gigantes do tradicionalismo político.

O que nós vimos foi a expressão personalizada nessas lideranças políticas de movimentos mais profundos, mais estruturais que estão em andamento no Nordeste.

Por mais “modernoso” que o PSDB tente se apresentar ao país, o que restou de apoio no Nordeste são os carcomidos grupos oligárquicos da direita nordestina, mesmo que figuras como Sarney – também derrotado no Maranhão pelos ventos anti-oligárquicos que chegaram pra ficar nesse Nordeste que se avermelhou de vez em 2014 – Collor de Mello e Renan Calheiros, em Alagoas, ainda que mantenham-se na base de apoio petista mais por razões políticas do que ideológicas.

E o tempo dirá se, especialmente Sarney e Renan, permanecerão onde estão.  

O certo é que 2014 confirmou e consolidou a força do lulismo no Nordeste, fenômeno que é observado eleição a eleição com maior visibilidade desde 2002.

Vejam o que aconteceu na Bahia e no Ceará, os dois mais importantes estados do Nordeste ao lado de Pernambuco. Na Bahia, até 2006 o bastião da direita carlista, o PT elegeu pela terceira vez o governador do estado, consolidando de vez a liderança do ex-sindicalista Jaques Wagner.

No Ceará, o PT venceu, depois de “bater na trave” em 2002. Em 2006 e 2010, apoiou Cid Gomes e em 2014 finalmente elegeu o governador do estado, Camilo Santana.

Mesmo o que aconteceu em Pernambuco não pode ser visto como um ponto fora da curva.

Paulo Câmara, o sucessor de Eduardo Campos, construiu sua vitória depois dos governos vitoriosos do PSB no estado, em aliança com o PT e Lula até 2013.

E a esmagadora vitória de Dilma no segundo turno deixou claro que o eleitor pernambucano sabe muito bem diferenciar as coisas. Deu uma expressiva vitória ao PSB para o governo, mas no segundo turno para presidente colocou as coisas em seu devido lugar, um alerta para a família Campos de que Pernambuco não tem dono. Assim como o Nordeste.

Dos nove governadores, com exceção de Robinson Faria, do PSD do Rio Grande do Norte, Renan Filho e Jackson Barreto, do PMDB de Alagoas e Sergipe, respectivamente, todos os outros pertencem a partidos cujos vínculos são inegavelmente com a esquerda no país.

E todos, à exceção de Paulo Câmara, foram apoiados por Lula e Dilma.

Depois eu volto para analisar o desempenho eleitoral do PT em 2014.



Nenhum comentário: