quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Quem venceu, quem perdeu na Paraíba em 2014: os vitoriosos

Na política assim como na guerra há derrotas na vitória. E vice-versa. 

Quem nunca ouviu falar na expressão “vitória de Pirro”, que serve para designar vitórias que foram, na realidade, grandes derrotas pelo alto custo que exigiram para serem conquistadas, fragilizando o “vitorioso” para embates futuros?

Pois bem. É hora de avaliar os resultados eleitorais da Paraíba, em 2014. 

Quem foram os grandes vencedores? Quem foram os grandes derrotados? Quem venceu e não pode comemorar como merecia? Quem perdeu e, mesmo assim, sai fortalecido do pleito?

Vamos tentar responder a essas indagações, lembrando sempre que, especialmente as derrotas, não devem ser entendidas como definitivas, e o derrotado de hoje pode vir a ser o grande vitorioso na eleição seguinte.

Vejam o caso de RC. Vitorioso em 2010 na Capital paraibana, dois anos depois foi o grande derrotado, para voltar a ser novamente vitorioso, em 2014.

Cássio Cunha Lima obteve duas grandes vitórias seguidas (2002 e 2006) para o governo, em Campina Grande, e nas eleições seguintes (2004 e 2008), para a Prefeitura, foi derrotado por Veneziano Vital do Rego. 

Recuperou todo o seu prestígio e liderança em 2010, saindo do pleito considerado quase como imbatível para a eleição seguinte e acabou enfrentando a primeira derrota eleitoral da vida.

Enfim, as vitória e derrotas de 2014 não devem servir de parâmetro para vislumbrarmos os resultados dos futuros embates, porque eles ocorrerão daqui a dois anos, e até lá muita água correrá por baixo da ponte.

Mas, certamente, elas servirão de referência e ponto de partida para a construção das alianças futuras. E das vitórias.

O desafio da análise política

Vejam como em eleição o quadro político é capaz de mudar com a rapidez suficiente para deixar incrédulos, especialmente aqueles que acreditam no congelamento de uma determinada correlação de forças, erros comuns que, entretanto, se repetem com regularidade surpreendente, se pensarmos na experiência de quem os comete.

As derrotas de Maranhão, em 2010, e Cássio, agora em 2014, para ficarmos apenas nos casos mais recentes, são exemplo de quem superestimou sua própria força e subestimou a dos adversários.

O mesmo aconteceu com RC, em 2012, cuja autossuficiência e superestimação de seu próprio prestígio em João Pessoa levou-o a uma derrota inesperada. 

Certamente, o erro de 2012 fez o governador corrigir os rumos políticos, colocar os pés no chão e se mover para evitar ser derrotado agora.

Por isso, por lidar com o curto prazo e as contingências próprias do mundo da política, o grande desafio da análise – não da ciência política, registre-se – não é prever resultados, mas estabelecer com clareza a correlação de forças das disputas e projetar o seu desenvolvimento tendo como principal finalidade demarcar as ações que se empreendidas no futuro pelos contendores.

Os vitoriosos de 2014

Há cinco meses projetava-se como os grandes derrotados dessa eleição o governador Ricardo Coutinho e o PMDB.

O primeiro, acossado pelo lançamento da candidatura de Cássio Cunha Lima, ex-aliado e então favorito nas pesquisas.

O segundo, o PMDB, a caminho do isolamento, vivia na indefinição sobre seu candidato ao governo, Veneziano Vital, numa aliança com o PT que não prosperava e sem grandes perspectivas para eleger expressivas bancadas de parlamentares.

Um movimento foi o responsável para alterar o destino desses dois sujeitos políticos: a conversa do governador Ricardo Coutinho com o prefeito pessoense Luciano Cartaxo, que aconteceu na primeira quinzena de junho, e que selou uma aliança inesperada, para dizer o mínimo.

O anúncio posterior e unilateral do abandono por parte do PT da aliança com o PMDB teve consequências tão profundas no resultado do pleito de 2014 que só o tempo foi capaz de estabelecê-las com razoável precisão.

Ricardo Coutinho 

Primeiro, tirou o Ricardo Coutinho do isolamento político.

Segundo, agregou o precioso tempo de TV petista, o que acabou sendo decisivo durante a campanha para que a campanha socialista pudesse mostrar tanto as realizações do atual governo como “desconstruir” ou “reconstituir” a imagem de Cássio Cunha Lima no estado, por mais de três anos preservados dos ataques dos adversários.

Terceiro, a aliança com o PT juntou as duas principais máquinas administrativas e políticas na estratégica João Pessoa, que abriu caminho para RC recuperar a hegemonia eleitoral perdida  sem a qual seria impensável qualquer recuperação e perspectiva de vitória no resto do estado.

Quarto, a decisão do PT de abandonar os peemedebistas foi a pá-de-cal na candidatura de Veneziano Vital, que já vinha dando sinais de que não seria mantida.

E a inevitável retirada de Veneziano abriu caminho para a efetivação da temerária estratégia de RC de resolver, se possível, a disputa em primeiro turno. 

Estabelecidas as bases em João Pessoa, RC passou a atuar na consolidação e construção de alianças locais – com os Moraes, no Vale do Sabugi, com Cralos Antônio, em Cajazeiras, com os ex-prefeito Tayrone e seu o grupo, em Sousa, e em Campina, com o Feliciano. 

Além disso, RC buscou conquistar o eleitor peemedebista que nas últimas três eleições votou contra o cassismo, inclusive em 2010, quando o candidato do grupo tinha sido o próprio RC.

Coutinho apostou que Cássio tinha um teto eleitoral na Paraíba, o que nunca o tornou imbatível e, como consequência disso, na capacidade do governador, ajudado pela força do cargo, de mobilizar essa outra banda do eleitorado.

A competente campanha na TV, que desnudou Cássio Cunha Lima relembrando fatos pretéritos de sua vida pública, bem como seu desastroso governo, teve como sempre papel decisivo.

A confrontação calculada ao longo dos quatro anos de governo com a Assembleia fortaleceu o discurso de RC e, agora no confronto com Cássio, um quadro tradicional da tradicional política paraibana, caiu como uma luva na estratégia discursiva ricardista. Era RC contra a política tradicional.

Ponto a ponto, RC foi superando todas as dificuldades, inclusive quando mudou de marqueteiro pouco antes do início do embate, e fez a campanha entrar nos eixos da tradicional polarização que marca a política no estado há tempos.

O PMDB

A estratégia deu certo, no que RC foi ajudado pelas contingências nacionais, com a ida de Dilma e Aécio Neves para o segundo turno.

O que teria acontecido caso fosse Marina e não Aécio a disputar com Dilma? Esse o único fato que eu apontava no final do primeiro turno que poderia interromper as expectativas de vitória de RC.

Fato que certamente foi muito ajudado pelas possíveis acomodações nacionais dos peemedebistas no futuro governo de Dilma, e também pela possível aliança em apoio a Veneziano Vital, em 2016, em Campina Grande.

O apoio do PMDB, de Vital e Veneziano e de José Maranhão, dos Paulino, em Guarabira, dos Motta, em Patos, dos Maia, em Catolé, que foram fundamentais para a criação da frente anticassista no segundo turno.

Especialmente pela vitória eleitoral do PMDB, que saiu fortalecido pelas vitórias obtidas para a Câmara dos Deputados, onde ocupará três vagas, e para a Assembleia Legislativa, onde ocupará quatro vagas.

Além da eleição do Senador José Maranhão, lançado às pressas e em função daquele movimento que fez Ricardo Coutinho de atrair o PT, fato que, temporariamente, fragilizou o PMDB, mas que, no desenrolar dos acontecimentos, foi a salvação da lavoura para o partido.

Se observarmos bem, a manutenção da aliança PSB-PMDB-PT é a reconfiguração, da antiga e poderosa frente de partidos que atuou unida nas eleições paraibanas do segundo turno de 2002 até as eleições municipais de 2008.

Sob a liderança do PMDB, agora ela passa à liderança de RC. Coisa de profissional.

Depois eu volto para falar dos derrotados.

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