segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Uma avaliação da eleição de 2014 na Paraíba: primeiro turno

Os resultados do primeiro turno na Paraíba confirmaram as expectativas de mais uma disputa acirrada entre os dois principais candidatos ao governo, o que se repete no estado desde 2002.

Quem achou que Cássio Cunha Lima teria uma vitória tranquila, já no primeiro turno, enganou-se redondamente.

Em março, eu registrei aqui mesmo:

“os números de Cássio (40.8%) aferidos em um momento tão favorável devem acender o sinal de alerta entre os tucanos. Cássio não está com essa bola toda, como se imaginava” (clique aqui para conferir).

Cássio acabara de anunciar o rompimento com RC e fez desse ato um espetáculo político, associado a uma competente movimentação política nos três anos em que permaneceu dubiamente apoiado o governo.

A obtenção de um percentual pouco maior que 40% era um indicativo que não havia muito espaço para o tucano crescer, e o motivo era que, se havia um eleitorado muito fiel a Cássio, havia também um grande contingente que o rejeitava.

E durante a campanha, foi ficando cada vez mais claro que havia um teto para o crescimento de Cássio que, no seu melhor desempenho, chegara a 47% em pesquisa divulgada em primeiro de setembro pelo IBOPE. RC já atingia 33%.

Nesse mesmo dia, eu registrei (clique aqui) sobre esse resultado:

O recomendável é esperar um pouco mais. Uma diferença de 14 pontos pode tranquilamente ser retirada em um mês de campanha. A questão a ser respondida é se o eleitor de Cássio estará aberto a mudar de voto. É essa a questão chave.

Pelo jeito, considerando o acerto da pesquisa, foi isso que aconteceu. Cássio perdeu votos ao longo do mês sob pesado bombardeio da campanha de mídia do governador e, 19 dias depois, a diferença, que era de 14 pontos, segundo o IBOPE, caíra para apenas 5%.

Na manhã do dia 19, portanto, antes da divulgação dos números da pesquisa IBOPE, que só foi concluída e divulgada à noite, eu voltei a analisar o quadro eleitoral da Paraíba um texto intitulado Segundo turno à vista (clique aqui):

“A duas semanas da eleição, tudo indica que a velha divisão no eleitorado que marcou a Paraíba nas três últimas eleições está prestes a se repetir.”

“A mais de dois meses estacionado entre os 44%-47%, Cássio não conseguiu abrir uma vantagem que lhe desse a segurança de que não seria alcançado até o dia da eleição e venceria no primeiro turno.”

“Por outro lado, a julgar pelos resultados das últimas pesquisas, quando o eleitorado começa realmente a se definir, que mostram crescimento consistente da candidatura de Ricardo Coutinho e apontam para uma irredutível queda da diferença entre os dois principais candidatos e a realização do segundo turno.”

As pesquisas do IBOPE e da 6Sigma conseguiram captar o acirramento da disputa e cravaram empate técnico às vésperas da eleição, números que foram confirmados nas urnas.

João Pessoa quebra votação de RC

Apesar das vitórias expressivas, RC e Cássio tinham expectativas de maiores votações naqueles que são suas principais bases eleitorais. Em João Pessoa, RC emplacou uma diferença superior aos 76 mil votos: Ricardo Coutinho 212.230 ou 56% - Cássio 135.977 ou 35,9%.

Se comparamos com o desempenho de 2010, quando RC enfrentou José Maranhão, o governador reduziu sua votação quatro anos depois em 1.581 votos, quando obteve 213.811, o que significa que, em 2014, com um eleitorado maior e com o apoio das máquinas estadual e municipal, ele não conseguiu sequer repetir o desempenho de 2010, quando só tinha a Prefeitura lhe apoiando.

É bom lembrar que João Pessoa sempre um eleitorado majoritariamente hostil a Cássio e aos Cunha Lima. Em 2002, Cássio obteve 30% dos votos no primeiro turno, mas contava com o apoio do então prefeito, Cícero Lucena. Em 2006, chegou aos 39,2%, mas estava no governo.

Em 2014, Cássio obteve quase 36% dos votos sem contar com máquina alguma, e ainda faltando-lhe o apoio de Cícero Lucena, decisivo nas votações anteriores obtidas por Cássio na Capital.

Se o tucano, entretanto, não teve o apoio político e administrativo de antes, dessa vez sobrou o envolvimento militante de vários sindicatos de servidores, que fizeram uma campanha sistemática contra o atual governador. Esse, sem dúvida, foi um apoio que acresceu preciosos percentuais de votos ao espólio cassista em João Pessoa.

Campina quebra votação de Cássio

O mesmo pode ser dito em relação à Campina Grande e o desempenho de Cássio. Se, em termos percentuais, a diferença pró-Cássio foi 10% maior na cidade, chegando a quase 30 pontos percentuais (59,8% a 29,9%), numericamente essa diferença acabou sendo menor: 63.854 votos (127.701 a 63.847), o que permitiu, comparando o desempenho dos dois em João Pessoa e Campina, uma diferença pró-RC em torno de 12 mil votos.

Comparando com 2010, Ricardo, apoiado por Cássio, obteve 130.157 votos (64,22%), ou 2.456. Veja que, em 2010, Cássio conseguiu mais votos para RC em sua cidadela eleitoral do que para si próprio, agora em 2014. Isso mesmo com o apoio da Prefeitura campinense, que ele não teve quatro anos atrás.

Em Campina, não há como negar o desempenho surpreendente de RC no município que, no início da campanha, poderia ser o seu Calcanhar de Aquiles.

O que parece ter ocorrido é que, diante da polarização real que se estabeleceu na campanha, o eleitor que tradicionalmente vota contra os candidatos da família Cunha Lima optou por RC.

Mas, só isso não explica, porque a soma dos votos de RC com os de Vital do Rego (8,3%) e todos os outros candidatos em Campina ultrapassam os 40%!

O que pode ser explicado pelo desempenho sofrível da administração do prefeito da Rainha da Borborema, Romero Rodrigues, tucano e primo de Cássio.

Das 10 maiores cidades RC venceu em 7. Nas 20 maiores, o governador venceu com mais de 30 mil votos de frente

Um aspecto que eu venho chamando a atenção desde 2009 diz respeito à mudança no perfil do eleitorado nordestino e de suas lideranças, cada vez mais urbanas e de classe média.

A visibilidade dessas mudanças foi potencializada depois que Lula chegou ao governo e, no Nordeste, viabilizou a ascensão de muitas lideranças de esquerda aos governos nordestinos.

Da Bahia, até 2006 tradicional base do carlismo, ao Maranhão, dos Sarney, a mais longeva oligarquia que ontem foi derrotada por Flávio Dino, do PCdoB, nenhum governo estadual desde então deixou de ser ocupado por lideranças com vínculos com a esquerda e cuja origem social é oriunda de grandes centros urbanos. Muitos começaram sua carreira política como sindicalistas.

A Paraíba foi o estado onde essa mudança mais demorou chegar, mas em 2010 ela finalmente aconteceu com a eleição de Ricardo Coutinho.

Pois bem. Quem observar atentamente o quadro eleitoral de 2014 verá que a tendência que se observou em 2010 foi aprofundada. Há quatro anos, RC surpreendeu a Paraíba ao vencer nas principais cidades do estado que seguem a linha da BR-230.

Em 2014, RC consolidou sua votação nessas cidades e, em alguns casos, até ampliou. Em 2010, na Região Metropolitana de João Pessoa (RMJP), RC foi derrotado em Santa Rita e Cabedelo. 

Em 2014, venceu em todas as cidades da RMJP. Além disso, venceu em Patos, Sousa e Cajazeiras, a tríade mais populosa do sertão, além de Monteiro, Princesa Isabel e São Bento.

Nas 10 maiores cidades paraibanas, RC obteve 439.745, o que representa 47% de toda sua votação, tendo vencido em sete delas e obtido uma diferença sobre seu principal adversário de 57.600 votos.

Quando consideramos as 20 maiores cidades, que sozinhas representam 50% do eleitorado paraibano, RC continua vencendo Cássio, mas a diferença cai agora para 31.438 votos.

E quanto mais a votação adentra os municípios menores, essa diferença diminui até Cássio ultrapassar RC e estabelecer uma diferença final de 28.388 votos.

Enfim, à candidatura de Cássio foi ao longo da campanha sendo empurrada para os pequenos municípios onde a influência dos prefeitos é maior sobre o eleitorado, o que fragiliza aos poucos a força política de uma liderança que se assenta nessas bases.

 


2014, nesse aspecto, se distingue das três últimas eleições onde o peso dos governadores candidatos à reeleição (Roberto Paulino, em 2002, o próprio Cássio, em 2006, e José Maranhão, em 2010) nos municípios de até 10 mil eleitores sempre ficou acima da média obtida nos maiores municípios. (Veja os dois quadros abaixo com as votações de 2002 e 2006 distribuídas entre grupos de municípios).



Enfim, nada indica que o segundo turno de 2014 será diferente tanto do que observamos no primeiro, quanto nas três eleições, todas decididas por margens mínimas de votos.

Nenhum comentário: