quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

AINDA SOBRE O CHILE

Antes da divulgação das últimas pesquisas, muitos “analistas” agarraram-se com ardor naquilo que parecia uma “tábua de salvação”: a derrota do candidato de Michele Bachelet, a presidente bem avaliada do Chile, Eduardo Frei. O sentido explícito que se pode extrair dessas análises é o seguinte: se aconteceu no Chile, pode acontecer no Brasil. Na terça passada, o jornalista Helder Moura retomou o assunto em razão da divulgação da últimas pesquisas para presidente para acentuar o equívoco desses “análistas”.

A respeito da relação que tentaram fazer entre as eleições presidenciais chilena e a brasileira, eu acrescentaria o seguinte:

1) o primeiro fato a destacar é a longevidade do projeto de poder da frente de centro-esquerda "Concertación Democrática", que já durava 20 anos, duração que, certamente, já produzia um desgaste natural no bloco de poder chileno; se há uma relação a fazer com o Chile é essa: o projeto de poder da “concertación” brasileira, liderado por Lula, pode durar mais de 20 anos. É tempo suficiente para mudar muita coisa no Brasil.

2) Em razão desse primeiro aspecto, a indicação de Eduardo Frei, que já fora presidente do Chile entre 1994 a 2000, ajudou a promover uma divisão no bloco de poder montado ainda durante a ditadura chilena, com o lançamento da candidatura independente de Marco Enríquez-Ominami, além da de Jorge Arrate, que foi apoiado pelos comunistas.

3) a "Concertación" chilena tem características distintas da brasileira. Ela é uma frente que foi formada para combater a direita, formada inicialmente para vencer o plebiscito que pôs fim à ditadura de Pinichet, e no início foi hegemonizada pelo Partido Democrático Cristão (de centro), que indicou os dois primeiros candidatos que se elegeram Presidentes do Chile: Patricio Aylwin (1990-1994) e Eduardo Frei (1995-2000). Depois, veio a hegemonia do Partido Socialista Chileno com as eleições de Ricardo Lagos (2001-2005) e Michelle Bachelet (2006-2010). O retorno de Eduardo Frei e da hegemonia dos democratas-cristãos sem dúvida deve ter causado fissuras na aliança.

Entre os partidos da Concertación, por exemplo, está o equivalente ao PSDB brasileiro, o Partido Social Democracia do Chile. Como no Chile, o PSDB nasceu com pretensões de centro-esquerda, foi contra a ditadura brasileira e chegou a apoiar Lula em 1989. Depois, aliou-se à direita para eleger FHC e não só permanece nesse campo, como se converteu num partido conservador desde então.

No caso do Brasil, a base da aliança que elegeu Lula em 2002, e que o apoiou nas 3 ocasiões em que disputou a eleição presidencial antes de se eleger, inclui partidos de nítida inspiração de esquerda, hegemonizada pelo Partido dos Trabalhadores, e que inclui desde o início o PCdoB e o PSB.

Essa condição politicamente eclética certamente teve repercussão programática na condução do governo chileno pela “Concertación”, o que se expressou na manutenção da estratégia de desenvolvimento baseada na exportação de commodities, principalmente minério bruto, política neoliberal com limitada intervenção do Estado, o que vem a ser uma continuidade da ditadura militar, e que não aconteceu só em termo econômicos, mas também legais, pois a Constituição chilena da época de Pinochet só foi reformada em 2005. Além disso, o Chile mantém um alinhamento diplomático com as posições dos EUA, apesar de, nos últimos anos, ter buscado uma aproximação com o Mercosul e se posicionado com o Brasil, por exemplo, em relação à situação da Bolívia. No caso de Honduras, acompanhou a posição dos Estados Unidos.

Assim, mais próxima de posições à direita e sem uma clara diferenciação em termos programáticos, não deve ter causado muita dificuldade a parte do eleitorado que deu a vitória à direita por estreita margem migrar para a direita, dando a vitória ao seu candidato, Sebastián Piñera.

Todos os aspectos acima acentuam as diferenças entre a situação do Chile e a do Brasil. Mas, um elemento da análise não pode escapar à essa comparação: os presidentes que conduziram e que conduzirão suas sucessões. Enquanto Michele Bachellet, que foi uma espécie de Dilma Roussef do governo anterior de Ricardo Lagos, tendo sido Ministra da Saúde e da Defesa, permaneceu distante da campanha eleitoral até próximo da realização do segundo turno, Lula promete colocar todo o seu prestígio e sua liderança a favor de sua candidata, Dilma Roussef. E a liderança de Lula é inquestionável, não só no Brasil, mas no mundo todo, diferentemente de Bachelet.

Por fim, é sempre perigosa a escolha de modelos para comparar com a experiência histórica de cada país. Cada país e cada povo tem sua própria história e, por conta disso, desenvolve experiências que não podem ser repetidas em outros espaços. Esforços nesse sentido podem resultar em grandes fracassos analíticos.

Um comentário:

Wagner disse...

Claro que não, porém, espero que tenhamos a mesma sorte do povo chileno!!! Ou azar??