sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O PT NA PARAÍBA: RAZÕES PARA MAIS UM FRACASSO ELEITORAL

Enquanto o PT comemorava unido em todo o Brasil a histórica vitória conquistada no último domingo com a eleição de Dilma Rousseff, aqui na Paraíba o partido encerrava sua participação no processo eleitoral da mesma maneira que começou: dividido e enfraquecido.

Dois PTs esboçavam atitudes diferentes para o mesmo resultado. Ou melhor, a minoria partidária comemorou a derrota do próprio partido a que pertence, como se a vitória do adversário do PT fosse também uma vitória sua, como se o PT não fizesse parte da chapa derrotada, como se existissem mesmo "dois" PTs a lutar por projetos políticos distintos.

Não, meus companheiros, não existem dois PT. Existe um único PT, o PT da maioria, o PT legitimado pelas resoluções partidárias oriundas dessa maioria, o PT que torna os vários PTs que existem nele um só partido. Foi assim que o PT ajudou a criar no Brasil uma nova tradição de organização partidária, que faz dele o partido mais democrático do país, e que fez dele o maior partido brasileiro, o único partido de esquerda verdadeiramente de massas.

Foi essa prática democrática que me levou ao PT 14 anos atrás. Impressionava-me sempre como um partido com suas acirradas disputas internas conseguia continuar crescendo. Desde muito jovem, acompanhei a trajetória e as mutações do PT. Do esquerdismo que marcou o partido por quase toda a década de 80, passando pela confusão programática dos primeiros anos da hegemonia neoliberal, até tornar-se o partido de esquerda maduro que é hoje, cujo projeto de nação também foi amadurecendo com ele, especialmente durante o governo Lula, o PT conseguiu construir uma hegemonia política que o permite comandar um projeto de mudanças com a amplitude que consegue congregar o centro e a centro-direita, e muitas personalidades tidas como conservadoras, a exemplo de Sarney e Collor.

Finalmente, desde João Goulart - e agora com uma sólida base social que permite ao PT enfrentar, além dos embates eleitorais, um debate político e ideológico que tenderá a se acirrar cada vez mais nos próximos anos - temos uma frente ampla que foi pacientemente construída durante o governo Lula e que é dirigida por um núcleo de partidos à esquerda. Enfrentamos, especialmente nessa última campanha, o reacionarismo de uma elite que sempre foi incapaz de pensar com alguma generosidade no Brasil e no bem-estar do seu povo. Enfrentamos e vencemos mais uma vez.

Cabe agora uma questão capital: como o PT conseguiu construir essa hegemonia política? Como o PT deixou de ser um partido que habitava a periferia da política brasileira para se tornar o maior partido brasileiro, não só elegendo em 3 eleições seguidas o/a presidente do Brasil, mas também a maior bancada na Câmara dos Deputados? Uns, mais apressados, dirão: foi a política de alianças, que permitiu ao PT dirigir-se a setores mais amplos do eleitorado brasileiro. É verdade. Mas antes disso, antes que o PT conseguisse se delinear como alternativa política e eleitoral, o PT se construiu como força partidária, cujo envolvimento e dedicação de sua militância fez e faz do PT o partido de referência no Brasil e, talvez, o único partido - à exceção do PCdoB e dos partidos de origem trotskistas - que possa ser tido enquanto tal.

Debatemos acaloradamente, e muitas vezes de maneira pública, nossas divergências internas. Aprendemos a não ter medo da polêmica e a cultivá-la como fundamento de nossa democracia interna. Expomos nossas entranhas para que todos vejam nossas divisões. A direita antes se alegrava com isso, mas depois aprendeu que o PT debate, diverge, mas se une.

Isso até 2010 na Paraíba. Antes, tivemos movimentos marginais de questionamento à orientação partidária, mas não nas proporções e com a força que foi observada em 2010. Uma parte considerável de militantes, dirigentes partidários e parlamentares, não apenas simplesmente desconheceu a posição oficial do PT, como trabalhou abertamente contra ela.

Vou evitar entrar no mérito da divergência que motivou essa pendenga. Creio que minha opinião já é do conhecimento dos que costumam freqüentar este blog. Considero que esse debate não é mais importante, sendo mesmo irrelevante se quisermos fazer um balanço sério sobre o PT e seu futuro político na Paraíba.

Vou me ater, portanto, àquilo que considero ser a razão mais importante que tornou o PT o grande partido que ele é: a sua unidade, a sua democracia interna e o respeito, portanto, às decisões da maioria, que foram expressas e legitimadas formalmente e politicamente por todas as instâncias partidárias.

A começar pela realização do PED, que elegeu a direção atual do PT tendo como foco o debate sobre as alianças, passando pela decisão por amplíssima maioria do Encontro Estadual do partido e, por fim, pela legitimidade conferida pela Direção Nacional do PT à decisão de não apenas apoiar, mas PARTICIPAR da chapa de José Maranhão.

Não se trata de discutir o direito à divergência, mas de respeitar os companheiros de partido que dedicam parte do seu tempo, em alguns casos, todo o seu tempo, à construção do partido. Mais do que isso. Trata-se de um dever estatutário (artigo XIV do estatuto do PT, que determina a todo filiado "acatar e cumprir as decisões partidárias"), que torna o mais simples filiado igual ao presidente Lula.

Mais do que isso. O respeito ao partido e suas decisões derivam da compreensão de que o PT é maior e mais importante do que qualquer personalidade política que milite em seus quadros. Por quê? Porque o PT é um partido cujo valor se encontrar não na força individual de cada filiado, mas na força de suas idéias e na ação organizada de sua militância.

Lula seria a liderança que passará para a história do país não fosse o PT? Ricardo Coutinho seria algo além de presidente do Sindicado dos Farmacêuticos de João Pessoa não fosse o PT? Luiz Couto seria além de padre e professor da UFPB não fosse o PT? Esse foi um partido construído pelos de baixo, por aqueles que não teriam espaço no jogo político oligárquico.

Foi o PT quem deu a dimensão política que tem Ricardo Coutinho e que o permitiu tornar-se a liderança incontestável que ele é hoje, mas talvez seja ele, Ricardo, o maior exemplo do personalismo, do individualismo que vê no partido um mero sustentáculo aos seus objetivos particulares. Um filiado cujo agrupamento político ainda hoje atende pela alcunha de "Coletivo Ricardo Coutinho" dá a exata dimensão e confirma a personalidade política que ele é. E Luiz Couto mais do que ninguém sabe disso, não é mesmo?

Mas, mais uma vez, não se trata de Ricardo Coutinho, que, com suas características, fez muito bem em procurar seu caminho fora do PT. Ou de José Maranhão. Trata-se de reconhecer que a grandeza de cada militante ou filiado depende da grandeza e da importância do partido. E que isso só é possível quando seus filiados, desde o mais simples ao que ocupa o cargo de maior relevância, estão dispostos a respeitar as decisões das instâncias partidárias. É isso que evita que o PT se torne um partido de caciques, que não estão sujeitos às decisões da maioria e se sentem acima delas.

E não me venham dizer que o PT é assim em todo o Brasil porque não é. Para demonstrar isso, eu cito o exemplo da eleição de 2002 no Rio Grande do Sul, quando Olívio Dutra, então governador, perdeu as prévias internas e não conseguiu a vaga para tentar a reeleição. Um governador. E qual foi a atitude de Dutra? Agiu de maneira mesquinha tentando evitar a vitória de quem o impediu de concorrer? Onde está Olívio Dutra hoje? A última vez que o vi, ele estava novamente ao lado de Tasso Genro, festejando a dupla vitória conquista no Rio Grande do Sul.

Olívio Dutra não pediu licença (licença!) de suas obrigações estatutárias para agir contra o partido e a favor dos seus adversários, nem subiu em seus palanques para ser vaiado quando pedia voto para sua candidata a presidente. Olívio Dutra não preferiu a companhia de inimigos históricos do PT e do presidente Lula, mas perfilou ao lado dos seus companheiros que com ele sempre construíram o PT e com eles se elegeu governador.

É disso que se trata. De generosidade política, de postura democrática, de respeito à maioria e às instâncias partidárias, de respeito ao partido que deu vida e permitiu que legítimos projetos políticos e eleitorais individuais e de grupo se tornassem viáveis.

O resultado disso é o desempenho medíocre que o PT conseguiu nas urnas neste ano. Desde 1994, o PT não supera a marca dos 3 deputados estaduais. E desde 1998, permanece com apenas 1 deputado federal, de uma representação de 12. Se o PT tivesse agido de maneira unitária, colocando em primeiro lugar os objetivos eleitorais e seu projeto político, talvez tivesse conseguido não apenas ampliar suas bancadas na Assembléia e na Câmara, mas ter conquistado uma das vagas para o Senado, como a campanha mostrou ser possível.

A continuar nessa disputa autofágica, o PT tende a continuar sendo o que ele é há muito tempo na Paraíba: linha auxiliar de outros partidos. Mas, para superar seus impasses, precede antes de tudo avaliar as posturas de cada grupo durante o processo eleitoral. Jogar para debaixo do tapete essas questões apenas ajuda a corroborar práticas que enfraquecem a unidade interna do PT. E a sua força política.

8 comentários:

Naza do PT disse...

Professor, é extremamente valiosa sua publicação, lembro que na sexta-feira, dia 29 de ouubro estava em juazeirinho e presenciei o presidente do DM, transloucamente pedindo voto para Ricardo Coutinho, questionei sobre tal atitude e o representante legal do PT respondeu-me: "é em nome da coligação", fiz outra pergunta: Mas qual coligação? a resposta: "a que vai transformar a Paraíba".
Com meu pouco tempo de Paraíba, constatei que para alguns petistas, ser petista é apenas uma situação de momento. Embalados pelo sucesso do governo Lula, deixaram cair suas mascaras, pediram voto para Ricardo, potencializaram a candidatura Marina Silva e jogaram terra na candidatura Dilma, a candidatura que representava e representa o avanço, a igualdade, o combate ostensivo à pobreza e à total independência do Brasil aos laços que unem a direita raivosa e a mídia rasteira e golpista.
Sou petista e entendo que o partido, através de sua Executiva, ou de qualquer outro filiado provoque o comando estadual com o fim de expurgar desta trincheira os mesmos petistas que comemoraram a derrota do PT na Paraíba e, que são os mesmos que permitiram que Dilma tivesse aqui na Paraíba, como em Campina Grande, dupla derrota.

Sergio freitas disse...

deixa de ser ridiculo "pensamento multiplo", chora e espernea, tu tens esse direito.

Anônimo disse...

Se Walter Aguiar não for expulso do PT o partido se desmoraliza porque vai abrir espaço para ninguém mais respeitar as decisões das instâncias do PT.

Chris Phil disse...

Não conheço ninguém que escreva tão bem sobre a situação política da Paraíba. Diariamente venho aqui, pois o seu blog é um oasis nesse deserto de informação que é o jornalismo paraibano.

Eudes do PT disse...

Respondendo a Naza do PT que pergunta sobre que coligação o petista se referia ao justificar seu apoio a Ricardo:
Ele se refere a coligação nacional em que tanto o PMDB quanto o PSB fazem parte. Outra esclarecimento, é a respeito da decisão nacional do PT, em que ficou acertado que onde houvesse mais de uma candidatura da base aliada, Dilma teria mais de um palanque. Lula só apareceu pedindo voto pra Maranhão no guia eleitoral por pressão do PMDB, coisa que o presidente fez muito a contragosto. Portanto, é legítima a "divisão do PT" na Paraíba. E devemos lembrar a grandiosa votação que o Deputado Luiz Couto recebeu nas urnas, no caso, apoiando Ricardo Coutinho. Por essa lógica de expulsar Walter Aguiar, teriam que estender a Luiz Couto e sua base.
Outro fator que merece destaque é o esvaziamento da campanha de Dilma por parte do PMDB na PB. Lembrando que foi iniciativa de Luiz Couto e Deputados estaduais eleitos do PT a criação do comitê pró-Dilma no estado, frente ao abandono de sua campanha por parte das duas candidaturas ao governo (PSB e PMDB). Este projeto do PT "oficial" é legítimo diante de tal comportamento e descaso com o partido? Se pra expulsar alguém por falta de fidelidade ao partido, este alguém seria Rodrigo Soares.

Flavio Lucio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Flavio Lucio disse...

Eudes,

Mais uma vez, eu insisto: a discussão não é essa. Não se trata de discutir a existência de dois palanques para Dilma na Paraíba - que nunca existiram exatamente - ou a respeito a votação de Luiz Couto - que, aliás, recebeu o meu voto, - ou mesmo se o PSB compôs nacionalmente o palanque de Dilma. A questão principal é a que você mesmo adiantou para justificar a postura diviosionista de parte do PT, que desconheceu por completo a resolução partidária, e que eu transformo em pergunta: tudo isso legítima a 'divisão do PT' na Paraíba?

Não,meu companheiro. Porque se tornarmos isso uma prática corriqueira, que futuro terá o PT na Paraíba? Imagine se cada parlamentar ou liderança do PT resolva desconhecer daqui por diante, como aconteceu em 2010, as resoluções partidárias e passe a tomar seu próprio caminho independente do partido, e depois retorne como se nada tivesse acontecido?

Para quê partido, então? Eu só sigo as decisões tomadas por ele quando me interessam, quando eu concordo? Não é possível construir partido algum dessa maneira.

Jose disse...

Flavio, entendo muito bem seus questionamentos e a importância do respeito as instâncias e decisões coletivas. Isso é necessário. Mas devemos ver essa questão da infidelidade num processo maior e desvinculado das resoluções, qual seja, inserido num context o em que há inumeros questionamentos aos incoerencias da decisões do PT a nível nacional.
O partido deve voltar para dentro e verificar as razões desses problemas, que na maioria está ligado a que doutrina política e que raízes e bases o partido defende? E que tipos de alianças ele fará em coerencia a isto?
No MA, o PT se aliou oficialmente ao DEM e a Sarney. Na PB rejeita se unir ao PSB devido ao PSDB e DEM. Já teve dissidentes fundando o PSOL e outros indo para partido do círculo de influencia do PT.
Que tipo de alianças são aceitáveis, que tipo de alianças representa a doutrina do partido?
O partido tem que abrir uma discussão para além do respeito a resolução e que esta discussão seja um marco para tratar a infidelidade daqui para frente.
Em certo momentos, e esse parece ser, há que se voltar as bases, esclarecer e definir melhor as coisas.
Se o PT se focar em punir cegamente infieis por respeito a resoluções, está perdendo o bonde das transformações que atingem a política e a sociedade. Não falo em colocar oficializar a infidelidade, mas sim, detalhar como a unidade deve ser trabalhada após esses processos. há que se firmar um novo marco.