quarta-feira, 3 de novembro de 2010

CRESCIMENTO DE MARINA SILVA E VOTO ANTIMARANHISTA DEFINIRAM ELEIÇÃO NA PARAÍBA

Já analisei aqui a derrota sofrida por José Maranhão no primeiro turno quando tudo levava a crer que ele venceria a disputa (clique aqui). Além dos aspectos arrolados, um dado adicional deve ser levado em consideração: o gigantesco deslocamento de eleitores que ocorreu nos dias que antecederam a realização do primeiro turno da eleição presidencial: eleitores indecisos e eleitores que votavam em Dilma Rousseff e passaram a optar por Marina Silva.

Esse deslocamento pode explicar as súbitas alterações nas tendências verificadas nas eleições estaduais e que acabaram por prejudicar candidatos que "colaram" suas campanhas na de Dilma Rousseff, a principal vítima da campanha de difamação orquestrada no submundo da internet pela campanha de José Serra.

Isso aconteceu, por exemplo, no Paraná, onde até uma semana do primeiro turno, Osmar Dias, do PDT, empatara com Beto Richa, depois de ter conseguido tirar a grande diferença que os separava antes da campanha na TV se iniciar; em Santa Catarina ocorreu a mesma coisa, e, nesse caso, o beneficiário foi o candidato do Dem, Raimundo Colombo, que via os candidatos, especialmente Ideli Salvati, do PT, avançarem nas pesquisas. Em São Paulo ocorreu fenômeno semelhante: o crescimento da candidatura de Aluisio Mercadante, do PT, até os últimos dias da campanha primeiro turno, aproximou todos os outros candidatos dos percentuais de Geraldo Alckmin tornando a realização do segundo turno bastante provável. Entretanto, nenhum desses prognósticos se confirmou nas urnas, o que acabou por beneficiar os candidatos do PSDB e DEM.

Vejam abaixo um quadro com o resultados da últimas pesquisas do IBOPE no Paraná, Santa Catarina e São Paulo. (clique na imagem para ampliar)

Então, o que ocorreu para que essas tendências não fossem consolidadas nas urnas? O único fato político de relevância foi o crescimento de Marina Silva sobre parte do eleitorado que resolveu acreditar na campanha de difamação realizada contra Dilma Rousseff durante todo o primeiro turno e que se tornou avassaladora nos últimos 15 dias de campanha.

E, como eu disse, essa mudança acabou prejudicando em alguns estados candidatos que colaram sua campanha na campanha de Dilma, como aconteceu também na Paraíba.

Aqui, acrescente-se o fato da dubiedade do candidato a governador oposicionista, Ricardo Coutinho, em relação às eleições presidenciais. Filiado a um partido que compôs a aliança nacional em apoio à Dilma Rousseff, o PSB, e chancelado pela minoria do PT que deu claro exemplo para o partido e para a sociedade de infidelidade partidária, Coutinho pôde se beneficiar do voto do eleitor de Dilma, sem nunca ter pedido publicamente um voto sequer para ela; com apoio do PSDB, do DEM e do PPS na Paraíba, partidos da base de José Serra, transitou livremente no meio do eleitorado conservador e, especialmente em Campina Grande, colou sua campanha na do candidato tucano.

Na reta final, vislumbrando o crescimento de Marina Silva, fez o seu grupo de apoio pedir votos e fazer boca de urna para a candidata que foi linha auxiliar de José Serra e viabilizou o segundo turno.

Ou seja, Coutinho, que atirou para todos os lados, ajudado pela dubiedade que marcou o seu discurso e pela falta de coerência na política de alianças, soube colher os frutos nos diversos pomares da política nacional.

Enfim, a maioria do eleitorado acabou por chancelar o que, retoricamente, ela mais dizia rejeitar na política. Enquanto José Maranhão manteve-se fiel ao lulismo, tanto por acreditar que poderia obter as vantagens eleitorais do apoio à candidata do presidente Lula, cujo favoritismo no Nordeste era incontestável, quanto pelo apoio que foi construído por uma lealdade de 8 anos no Congresso Nacional e no interior do PMDB.

Na reta final, Maranhão foi, por isso, tragado pelo crescimento de Marina Silva. Nesse sentido, o candidato do PMDB perdeu dos dois lados: por ser fiel ao PT, Dilma e Lula, e, no segundo turno, por ter contra si um candidato que tinha apoio de todos os lados, especialmente e, num aparente paradoxo, de gente muito próxima de Dilma.

Se tem algo que saiu desmoralizado nessas eleições na Paraíba foi a lealdade política. Se serve de consolo, Maranhão pode continuar dizendo, sem poder ser desmentido, que sua trajetória sempre foi marcada pela fidelidade às suas idéias e aos seus aliados. O contrário nem sempre foi verdadeiro.

Mas, esse aspecto (as eleições presidenciais na Paraíba) foi de menor importância para justificar a derrota maranhista. O fato do atual governador postular pela quarta vez governar a Paraíba certamente interferiu na escolha política dos eleitores, aliás, com alguma razão, há de se reconhecer.

E isso nada tem a ver com o julgamento da trajetória ou das administrações maranhistas. Qualquer político que ocupe por muito e num curto espaço de tempo cargos administrativos de relevância tende à saturação de sua liderança. Cabe a ele o reconhecimento disso, como faz Lula ao afirmar que não pretende disputar novas eleições, mesmo que ele tenha saído do governo com mais de 80% de aprovação.

Maranhão teve essa oportunidade ao voltar o governo e eleger um sucessor que continuasse tanto sua obra administrativa quanto sua obra política. Maranhão teve essa oportunidade, mas faltou-lhe generosidade política.

Ninguém tem dúvida, por exemplo, que se fosse Veneziano Vital o candidato, o resultado dessas eleições certamente teria sido outro. Mesmo a ausência de Veneziano na vice foi decisiva para o resultado em Campina Grande, que mais uma vez foi determinante no primeiro turno.

Assim, a indicação de José Maranhão acabou se encaixando perfeitamente na estratégia de Ricardo Coutinho, que dependia fortemente de um oponente que permitisse a junção "geopolítica" do eleitorado pessoense com o campinense, fato central da estratégia cassista-ricardista.

Foi a indicação de José Maranhão que permitiu que Ricardo Coutinho recuperasse o eleitorado perdido por conta da aliança como Cássio Cunha Lima. Coutinho soube explorar muito bem, especialmente entre os mais jovens, muito mais suscetíveis a julgar as coisas e a política pelas aparências, o desgaste natural da liderança de José Maranhão. Também ajudou o estilo do atual governador, que, ao que parece, nunca se acostumou com o desafio de lidar com a TV, a não ser na reta final, quando já era tarde.

No finalzinho de março, eu registrei aqui neste blog. (clique aqui)

Mas, além dessa força desproporcional que será demonstrada ao longo dos próximos meses até o início da campanha (...) José Maranhão precisará apresentar um novo discurso ao eleitor, principalmente o motivo que o convença a votar para que ele, atual governador, tenha direito a mais um mandato.

Não tenho dúvidas de que esse será o principal embate, em termos de discurso, que poderá reproduzir o acirramento das duas últimas eleições. Nesse sentido, a questão é saber se o eleitor estará aberto à mudança - e saturado das lideranças tradicionais, - ou se manterá distância, na hora da escolha, da observação das características individuais e históricas de cada candidato, optando por manter, em termos de lideranças políticas, as coisas como estão.

Por outro lado, a grande incógnita será o comportamento do eleitorado dos dois maiores colégios eleitorais, João Pessoa e Campina Grande. No caso do primeiro, se ele converterá em voto no candidato oposicionista (Ricardo Coutinho) a boa avaliação que ele faz da administração pessoense; no caso do segundo, se o eleitor campinense reproduzirá a rejeição a José Maranhão que permitiu estabelecer uma diferença que foi a principal responsável pela vitória de Cássio Cunha Lima nos dois últimos pleitos.

Enfim, das hipóteses levantadas acima, foram confirmadas apenas as que beneficiavam Ricardo Coutinho. E isso por conta dos erros de avaliação da coordenação de campanha maranhista, que subestimou o verdadeiro embate que se desenvolvia nas eleições paraibanas, imaginando que apenas o controle da máquina era o que determinava o resultado das disputas políticas na Paraíba.

Eles subestimaram um fato óbvio, que chamamos a atenção muitas vezes neste blog. As 20 maiores cidades da Paraíba comportam mais da metade do eleitorado do estado. Ou seja, temos um eleitorado cada vez mais urbano, que tem mais acesso à informação, que é cada vez mais exigente.

E foi exatamente esse eleitor que garantiu o segundo turno das eleições. Um eleitor que votou no "novo" o que, no Nordeste, significou em quase todos os estados votar mais "à esquerda".

Volto novamente a citar este blog: "Eu tenho insistindo: é um erro subestimar a virada à esquerda que o eleitorado nordestino deu depois que Lula assumiu o governo. E esse dado, acredito eu, não é conjuntural, ele expressa a urbanização da sociedade nordestina" (Clique aqui).

Esse alerta eu fiz para José Maranhão quando se debatia a indicação da vice na chapa do PMDB, quando pareciam óbvios os esforço de excluir o PT da chapa. Para Maranhão, o apoio do PT, ao que parece, significou apenas o acréscimo do tempo de TV e o vínculo eleitoral com Dilma e Lula. Ele subestimou, portanto, o contraponto à esquerda que Rodrigo Soares poderia fazer a Ricardo Coutinho, cobrando-lhe coerência à aliança nacional que se reproduzia em todo o Nordeste, à exceção da Paraíba, em apoio à Dilma Rousseff.

Enfim, Maranhão se recusou a politizar o debate eleitoral, acreditando nos marqueteiros e nos discursos insossos que eles produzem e que anulam a política do embate político. Se Maranhão tivesse enfrentando o debate real que dividiu o Brasil nas eleições de 2010 teria neutralizado parte do tal discurso de renovação que fez Ricardo. Preferiu se apresentar como um gerente e deu no que deu.

Sem a análise desses fenômenos fica realmente difícil entender o que aconteceu na eleição da Paraíba que permitiu a vitória de Ricardo Coutinho. Isso vale para o futuro governo do ex-prefeito de João Pessoa. A Paraíba não é João Pessoa. É mais complexa, mais desigual e mais pobre.

E, para completar, no segundo turno, preferiu o desespero do apelo ao preconceito religioso, coisa que Serra tentou utilizar contra Dilma na disputa presidencial, tentando vincular Coutinho às "forças ocultas". Esse foi um fato da campanha, que eu critiquei aqui mesmo neste blog (clique aqui).

Comentei com um amigo maranhista assim que vi os panfletos apócrifos: "Esse é um recurso de quem está desesperado". Era o que parecia. Maranhão não precisava disso. Quando ele enfrentou seu oponente politicamente, como ele fez no último debate do segundo turno, na TV Cabo Branco, ele saiu-se bem. Aquele deveria ter sido tom de toda a campanha.

Quando ele viu isso, já era tarde demais.

Depois, eu volto com uma análise do PT e da esquerda nessas eleições.

3 comentários:

Anônimo disse...

Boa tarde!

Flávio,

Qual a análise que você faz em relação as esquerdas na Paraiba...
Principalmente, o PCdoB...
O que está faltando para o PCdoB e o PT, crescer e acompanhar o crescimento dos outros estados da Federação...

abraço,

Joseley Lira

Flavio Lucio disse...

Josely, esse será o tema da próxima postagem. Flávio

Jose disse...

O problema é que vocÊ deseja colocar em Maranhão um discurso e construção política que ele não tem. Ele foi talhado em outras práticas e estratégias. Essa mesma falta de visão impediu de ter a humildade de ver as transformações políticas e sociais e saber que poderia abrir espaço para a renovação. Mas preferiu ficar em cima do trono. Mas ele não é personalista, autoritário, nem busca o poder a todo custo... ,não é?!