quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O QUE DERROTOU JOSÉ MARANHÃO NO PRIMEIRO TURNO?

Nas derrotas de José Maranhão ao Governo do Estado – nos dois turnos, em 2006, e agora no primeiro turno, em 2010 – muitos culpados foram apontados, menos o próprio candidato. Análises foram e continuam sendo feitas em abundância para explicar uma derrota que, até o dia da eleição, era vista como improvável, inclusive por este que vos escreve.

E os argumentos para justificar o infortúnio eleitoral maranhista vão desde os altos índices de votos nulos e brancos, que seriam em grande parte despejados no governador caso o eleitor tivesse tido um pouco mais de paciência (ou sapiência), até o "salto alto", o que significa dizer que os aliados e o próprio José Maranhão se desnudaram do manto da humildade e passaram a exibir as vestes da soberba, contando com uma vitoria antecipada.

A presunção deve ter sido abalada quando nos últimos dias de campanha uma avalanche de indecisos começou a definir seu candidato e uma outra multidão começou a mudar de lado. Inevitavelmente, como acontece em toda eleição, as pesquisas começaram a captar essa mudança. E o susto deve ter sido grande quando uma diferença que era de quase 20%, segundo o Ibope, caiu para 5% na véspera da eleição, e deve ter se transformado em terror quando as urnas começaram a mostrar o que traziam dentro delas.

Urna a urna, uma diferença em favor de José Maranhão que era de 400 mil votos foi sendo pulverizada e transformou-se em quase derrota antecipada caso Ricardo Coutinho tivesse obtido apenas 4.735 a mais (ou 0,26% dos votos válidos).

Depois desse resultado, a grande questão a ser desvendada é: o que provocou a derrota parcial de José Maranhão?

Eu ensaio aqui uma tentativa de resposta e começo por afirmar: quem derrotou o candidato do PMDB à reeleição foram as grandes e médias cidades paraibanas. A soma das diferenças pró-Coutinho obtidas em João Pessoa e Campina Grande chegou a 136.388 votos, determinante para a estratégia eleitoral ricardista. Considerando o aparato político-administrativo do PMDB, o esperado era que essa diferença diminuísse quanto mais os votos da cidades menores fossem contados. Mas, não foi isso que aconteceu. Pelo contrário.

Seguindo a rota da BR-230, o que se viu foi uma sucessão de derrotas maranhistas que começou em Bayeux, passou por Patos, foi a Souza e chegou finalmente a Cajazeiras. Contadas as diferenças das 10 maiores cidades (João Pessoa, Campina Grande, Santa Rita, Bayeux, Patos, Sousa, Cajazeiras, Guarabira, Sapé e Cabedelo) a diferença ao invés de cair, subiu para 152.232. E é importante ressaltar que dessas 10 cidades, apenas os prefeitos de João Pessoa e Sousa não apóiam José Maranhão. E mais: ampliando o número de cidades para as 20 maiores, que representam mais de 50% do eleitorado, a diferença decresceu apenas 8.784, caindo para 143.448.

Em suma, José Maranhão chegou à perigosa situação de ter que tirar mais de 140.000 votos de diferença nas 200 cidades restantes, que representam a outra metade do eleitorado (num universo próximo dos 900.000 votos válidos) e que contam com menos de 20.000 eleitores. Enfim, a candidatura de Ricardo Coutinho empurrou a de José Maranhão para uma hegemonia restrita às pequenas cidades, assim como o candidato do PMDB fizera com Cássio Cunha Lima, em 2006.

Nesse ponto, outra questão se apresenta. Como explicar o frágil desempenho maranhista nessas cidades? Os altos índices de votos nulos e brancos, que na Paraíba alcançaram 18,5% ou 368.335 votos, não resolvem a questão. Mesmo que esses votos fossem destinados ao atual governador, e mesmo que eles tivessem permitido a vitória maranhista no primeiro turno, o problema político permaneceria, ou seja, o desempenho do candidato do PMDB nessas cidades continuaria sofrível.

A responsabilidade é dos prefeitos? Não acho. Veja o caso de Campina Grande. Fosse a liderança de Cássio Cunha Lima tão incontestável, ele teria vencido as duas últimas eleições na cidade, e não foi isso que aconteceu. Veneziano Vital o derrotou nas duas ocasiões. Entretanto, em 3 eleições seguidas para Governador o esquema cassista na cidade impôs uma humilhante derrota ao PMDB.

Esse fenômeno começou a ser observado também em João Pessoa. O eleitorado começou a se movimentar massivamente para Ricardo Coutinho, mesmo uma parte dele torcendo o nariz para a aliança PSB-PSDB-DEM. Enfim, um voto em potencial José Maranhão não conseguiu transformar em força eleitoral. E, enfim, não há como fugir dessa constatação: a liderança de José Maranhão está se esgarçando e o seu desgaste político é óbvio. E um fenômeno que acontece em todo o Nordeste, onde as lideranças mais tradicionais foram derrotadas, parece que chegou à Paraíba.

Por mais qualidades que José Maranhão tenha como administrador e como político, o fato de postular ser governador da Paraíba pela quarta vez provoca um inevitável desgaste. Diante de um eleitor cada vez mais exigente, e ao ter como principal oponente uma liderança que representa essa nova geração de políticos que ascendeu na Paraíba nos últimos anos, originada nos grandes centros, essa característica que vincula José Maranhão ao tradicionalismo político ficou mais acentuada.

E o atual governador não fez muito para alterar esse estilo e enfrentar a situação. Como escrevi aqui neste blog em abril, numa postagem intitulada Nada de novo no front? José Maranhão e as armadilhas do debate programático:

"considero que José Maranhão vai precisar redefinir seu discurso e reconhecer que a política está mudando. E que ele não subestime isso. A Paraíba é o único estado do Nordeste que ainda não experimentou a ascensão de uma nova liderança com origem e discurso de esquerda.

"Coutinho pretende ocupar esse espaço, e ele pode tentar fazê-lo apontando o dedo para a ferida. Deste modo, para além das questões de ordem administrativas, ao ser questionado sobre suas responsabilidades e de seu partido quanto ao quadro social e econômico da Paraíba, hoje, mais do que apontar a contradição no discurso do candidato do PSB, José Maranhão precisa apresentar a si e ao seu próximo governo, e se possível o atual, como de transição, para ajustar a Paraíba a um novo modelo de desenvolvimento que se constrói no Brasil atualmente." (clique aqui para ler a postagem).

Foi exatamente isso que faltou ao discurso de José Maranhão: ele esqueceu de apontar para o futuro. O seu candidato a vice-governador, por exemplo, o jovem Rodrigo Soares, sequer apareceu no guia eleitoral. Veneziano Vital, a mais expressiva liderança do PMDB, apareceu na campanha também apenas residualmente.

Enfim, José Maranhão acreditou que a mesmice do discurso administrativo era suficiente para reencantar o eleitor. E parece que não foi.

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