segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Os desafios de Dilma no segundo turno

O Brasil foi às urnas neste domingo e seu eleitorado reforçou um comportamento que é cada vez mais indômito. Na eleição presidencial, esticou a eleição para o segundo turno transferindo parte dos votos que seriam de Dilma Rousseff, do PT, para Marina Silva, do PV. Nos estados, derrotou sem dó nem piedade lideranças tradicionais que tiveram a tribuna do Congresso e os holofotes da Globo para bradarem sua raiva contra Lula.

Dilma, com 46,9%, repetiu no primeiro turno quase a mesma proporção dos votos que Lula obteve em 2002 e 2006: 46,4% e 46,6%. Marina Silva repetiu o mesmo papel que foi conferido pelo eleitor a Ciro Gomes e Antony Garotinho, em 2002, e Cristovam Buarque, em 2006, só que agora sozinha, mas reunindo características que os outros não tinham: é "verde", o que agradou ao ambientalismo de classe média; é mulher, o que a fez competir nesse ponto com Dilma; é evangélica, o que a tornou candidata de uma campanha que uniu evangélicos e católicos, especialmente contra o aborto, e que fez estrago na votação final da candidata de Lula, talvez decisivo para levar a eleição para o segundo turno; é de "oposição", o que agradou aos serristas envergonhados; e, por fim, foi a candidata "alternativa" da grande imprensa, que deu a Marina Silva uma cobertura desproporcional ao peso política e eleitoral da ex-petista.

Pode-se, assim, concluir que candidatas como Marina Silva representam um eleitorado que não é nem de direita nem lulista? Na campanha de 2010, ficou clara a existência de eleitores que não se sentem à vontade nem com tucanos nem com petistas no poder. Buscam uma terceira via, seja porque rejeitam enfaticamente a experiência do governo tucano de FHC e o bloco de partidos conservadores que ainda se mantém unido na oposição a Lula, seja porque são fortemente influenciados pela campanha que faz a imprensa contra o presidente e, especialmente, contra o PT. É um eleitor majoritariamente de classe média, agora encorpado por religiosos influenciados pelo conservadorismo de padres, pastores e bispos.

Claramente, a campanha de Dilma (e os "dilmitas" na outra ponta) subestimou os subterrâneos das campanhas pela internet, onde a mentira e a desinformação rolam soltas. Quem subestimou isso, não lembrou o que aconteceu no início da campanha de vacinação contra a gripe H1N1. No início da campanha, muita gente recusou a vacina por acreditar que ela poderia trazer complicações, inclusive a morte. A fonte? Uma corrente de e-mails que circulou pela internet. Enfim, essas pessoas preferiam ficar exposta a um vírus que poderia matar e acreditar numa mensagem sem nenhuma dado que a comprovasse. Foi necessário o Ministério da Saúde vir a publico esclarecer que não haveria mal algum, pelo contrário, em tomar a vacina.

E a mentira de que, por exemplo, Dilma aprovaria o aborto ou o "casamento homossexual" caso eleita só foi feita por e-mail. Ela só apareceu de maneira muito marginal e pouco clara na campanha de TV e rádio. Por isso, é importante enfrentar esse debate no segundo turno sem se render à hipocrisia e ao conservadorismo da direita. Não vamos cair na armadilha moral que envolve essa questão. É preciso reafirmar a tradição republicana que separa Estado e religião; é preciso salvaguardar a universalidade dos direitos sociais, independente de posições ideológicas, políticas ou religiosas. Querer que o Estado fique subordinado às posições da religião é fundamentalismo.

Entretanto, se seria um erro fugir novamente desse debate, pois ele inevitavelmente voltará, agora com mais força, um outro erro seria torná-la o centro da campanha, como certamente desejará o PSDB, que buscou durante todo o primeiro turno mudar o foco do debate sobre o que realmente importa nessa eleição: qual o melhor projeto de desenvolvimento para o Brasil? Pois foi essa questão que impulsionou a candidatura de Dilma Rousseff, tornando-a favorita para ganhar a eleição, favoritismo que ainda persiste, pois basta a ela preservar os votos conquistados no primeiro turno e incorporar pouco mais de 3% dos eleitores dos outros candidatos (pouco mais de 1% desses votos provavelmente virão dos eleitores do PSOL, PSTU e PCO.

Como em 2006, a realização do segundo turno obrigará ao PT debater com mais profundidade as diferenças que o separam do PSDB e do Dem. E isso ajudará a romper o debate puramente burocrático e administrativo que assumiu a candidatura Dilma, centrado nas realizações do governo Lula, sem dúvida fundamentais. No segundo turno, o PSDB será colocado no seu devido lugar na história recente do Brasil, e escaparemos do insípido debate administrativo.

A política agradecerá.

A derrota do tradicionalismo político nas eleições estaduais

De Norte a Sul foram derrotadas figurinhas carimbadas da política nacional, o que fez desmoronar de vez a força que Dem e PSDB ainda ostentavam no Senado.

Do PSDB foram aniquilados nas urnas: Artur Virgílio (AM), Tasso Jereissati (CE), Albano Franco (SE), Rita Camata (SE), Marcelo Cerqueira (ex-governador do RJ) e Gustavo Fruet (PR).

Do DEM: Heráclito Fortes (PI), Efraim Moraes (PB), Marco Maciel (PE), José Carlos Aleluia (BA), Cesar Maia (RJ). Além de Mão Santa ("Luiz Inácio, Luiz Inácio..."), e Cezar Borges, ex-governadores do PI e da BA.

As exceções foram o Rio Grande do Norte, que elegeu em primeiro turno (52,46%) uma governadora do Dem, e reelegeu dois políticos das oligarquias mais tradicionais daquele estado (José Agripino Maia e Garibaldi Alves), e do Maranhão, que reelegeu Roseana Sarney por uma pequininíssima margem (50,08%) numa acirrada disputa com Flávio Dino, do PCdoB. Em suma, ao que parece, o tradicionalismo político, especialmente no Nordeste, está em extinção.

E consolida-se no poder uma nova geração de políticos, mais à esquerda. Jaques Wagner (BA) e Marcelo Deda (SE), ambos do PT, Eduardo Campos e Cid Gomes, ambos do PSB, vão continuar governando, eleitos que foram no primeiro turno, os principais estados nordestinos. Em Alagoas e Piauí, Ronaldo Lessa, do PDT, e Wilson Martins, do PSB, enfrentam no segundo turno candidatos do PSDB.

E a Paraíba?

Resta a Paraíba, onde José Maranhão deu a sorte da eleição não acontecer uma semana depois, pois se as pesquisas realizadas até 15 dias antes da eleição estavam corretas, talvez nunca tenhamos presenciado uma ascensão tão rápida e avassaladora como a que presenciamos na Paraíba. De uma derrota que apontava uma diferença próxima dos 20% - o que representava algo em torno de 400.000 votos – o ex-prefeito de João Pessoa arrancou para quase vencer ainda no primeiro turno, confirmando a tendência de um eleitorado cada vez mais em busca de alternativas.

José Maranhão tem a chance de refazer a estratégia de campanha, montada no oba-oba que foi o primeiro turno, onde ele pensou e se comportou como se a disputa fosse um passeio, passeio que só existiu no mundo maravilhoso das pesquisas eleitorais, que não conseguem desvendar os mistérios do eleitorado paraibano.

Os erros poderiam ser atribuídos à manipulação, o que só é factível durante uma certa fase da campanha. Mas, e os erros de véspera, onde os institutos costumam aproximar seus números aos da realidade eleitoral? E os da boca-de-urna, quando as pesquisas são divulgadas depois dos votos já depositados nas urnas?

Enfim, ao que parece, Ricardo Coutinho foi ao segundo turno não só porque soube transformar em votos a aliança "geopolítica" entre Campina Grande, ou seja, o cassismo alimentado pelo antimaranhista, e João Pessoa que, ao que parece, não foi seduzida pelos apelos neo-lulistas do maranhismo e votou em Ricardo Coutinho, com Cássio e tudo o mais.

Mais do que isso: foram os grandes centros que lhes deram a vitória, ficando o PMDB restrito ao pequenos municípios, onde normalmente quem ganha é quem controla a máquina estadual. Aconteceu em 2002, 2006 e voltou a acontecer em 2010.

Só que desta vez, a oposição enfrentou a situação numa descomunal desigualdade de estrutura administrativa (governo federal, estadual e as principais prefeituras interior a dentro, incluindo Campina Grande), o que mostra que o eleitor paraibano dos grandes e médios centros urbanos - que, aliás, concentram mais da metade do eleitorado paraibano, – é cada vez mais independente.

Por fim, num debate eleitoral marcado por um despolitizado embate entre "gerentes", venceu o menos tradicional e, digamos, mais "urbano". A saída de José Maranhão será politizar o debate sobre o sentido de sua candidatura e mostrar, mais do que a superioridade administrativa, a superioridade política do seu projeto.

O de Ricardo Coutinho será manter os votos conquistados nos grandes centros reforçando o seu discurso de mudança, e continuar tirando votos de José Maranhão. Mais do que isso. O desafio Ricardo e dos ricardistas é evitar cometerem o erro que Maranhão e os maranhistas cometeram ao cantarem vitória antes dos votos entrarem nas urnas.

Repito aqui o que escrevi a um colega hoje. Nunca é demais lembrar um exemplo relativamente recente. Roberto Paulino também cantou vitória quando foi para o segundo turno com Cássio, em 2002. Tinha tudo para vencer, porque conquistou no segundo turno o apoio de Avenzoar Arruda, o candidato do PT que conquistou mais de 12% dos votos naquela eleição. E todo mundo sabe quem venceu.

O segundo turno é uma outra eleição. Para os dois. E o primeiro desafio de cada candidato é manter intocado seu eleitorado. O segundo é avançar sobre o do adversário. Em um mês, muita água vai rolar por debaixo dessa ponte.


Reproduzo abaixo trechos de uma postagem aqui publicada ainda em março de 2010 intitulada Ricardo Coutinho X José Maranhão: Davi contra Golias? Nela, são analisadas as chances de Ricardo Coutinho.

(...) a grande incógnita será o comportamento do eleitorado dos dois maiores colégios eleitorais, João Pessoa e Campina Grande. No caso do primeiro, se ele converterá em voto no candidato oposicionista (Ricardo Coutinho) a boa avaliação que ele faz da administração pessoense; no caso do segundo, se o eleitor campinense reproduzirá a rejeição a José Maranhão que permitiu estabelecer uma diferença que foi a principal responsável pela vitória de Cássio Cunha Lima nos dois últimos pleitos.

Se a atitude do eleitor campinense mantiver a atitude das duas últimas eleições - foram 4 as vezes, nos dois turnos de 2002 e 2006, que ele se dirigiu às urnas para derrotar os candidatos do PMDB, - consolidando uma espécie de comportamento eleitoral, José Maranhão precisa começar a se preocupar. Especialmente se Ricardo Coutinho conseguir uma aliança com o PSDB, indicando Ivandro Cunha Lima como o seu vice, e Veneziano Vital permanecer na Prefeitura. Então, as condições políticas estarão montadas para repetir 2002 e 20006, se não nas mesmas proporções, mas com intensidade suficiente para estabelecer uma diferença que precisará de dezenas de pequenas cidades para ser coberta.

E se o eleitor de João Pessoa desconsiderar as alianças que fez o atual prefeito, será a capital dessa vez a derrotar o PMDB. E é bom não esquecer: mais de 50% do eleitorado paraibano está concentrado nas 20 maiores cidades, onde o eleitor é cada vez mais independente e cada vez mais tem acesso à informação.

Portanto, se for mantida hoje a diferença entre José Maranhão e Ricardo Coutinho, como mostram as últimas pesquisas - mesmo desconsiderando a margem de erro, - está certo o prefeito de João Pessoa em ousar, mesmo com as reais possibilidades de derrota. Em política, a ousadia pode ser o diferencial entre uma carreira medíocre e uma carreira vitoriosa.

Para ler a postagem completa clique aqui.

Para ler outra postagem aqui publicada também em março em que analisei as chances de Ricardo Coutinho diante dos resultados das pesquisas Clique aqui. O título é: Pesquisa Consult-Correio: Ricardo Coutinho está no páreo‏.


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