quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O apagão da grande imprensa

Esta semana foi prodigamente pedagógica em demonstrar como a grande imprensa é tomada de uma parcialidade quase apaixonada quando trata de acontecimentos que envolvem o Governo Federal, de um lado, e o Governo de São Paulo, de outro. Em relação a Lula, uma oposição sem meios-termos; em relação a Serra, o silêncio quando se trata de protegê-lo dos incômodos políticos gerados pelos erros de sua administração. E não são poucos.

O “quase apaixonada” é uma maneira de dizer que, além dos interesses políticos, são principalmente os interesses econômicos que movem Globo, Folha, Estadão e Veja, ou o PIG, como gosta de chamar os blogueiros esse oligopólio da informação, constituído hoje por grandes empresas decadentes que vivem em grave crise financeira. Os grandes jornais e revistas, devido ao avanço da Internet que tem reduzido, dia após dia, seus leitores-compradores; e a Rede Globo, que tem enfrentado uma queda progressiva e, ao que parece, estrutural perda de sua audiência, especialmente para a Rede Record.

Alie-se a isso mais duas coisas: em primeiro lugar, a ojeriza crescente dos antigos leitores e telespectadores à linha editorial de oposição a Lula, explicitamente tendenciosa, parcial e, em muitos casos, facciosa, como foi, só para citar um exemplo entre tantos outros, a “denúncia” da Revista Veja a respeito de um grampo telefônico instalado no gabinete do Presidente do STF, Gilmar Mendes, sem apresentação de nenhuma prova, a não ser a palavra dos dois interlocutores, cujos diálogos foram reproduzidos nas páginas da revista: Gilmar Mendes, que se conduz à frente do STF como se fosse membro do PSDB, e o Senador de Goiás, Demóstenes Torres, um dos líderes do DEM. Duas pessoas insuspeitíssimas.

Em segundo lugar, mas não menos importante, a política do governo federal de uma melhor e mais eqüitativa distribuição do imenso bolo das verbas publicitárias, diminuindo o controle dessas verbas dos grandes veículos e regiões. Segundo Franklin Martins (clique aqui), Secretário de Comunicação Social da Presidência da República, até 2003 apenas 499 veículos em 182 municípios repartiam essa verba entre si, sem nenhum critério mais rigoroso. Em 2008, o número de órgãos de comunicação que participaram da distribuição dessa verba, que chega a 1 bilhão de reais por ano, chegou a 5.297, distribuídos em 1.149 municípios.

O resultado disso é que, segundo Martins, “os jornais das outras capitais [fora do eixo que forma a grande imprensa] cresceram 41%, chegando a 1.630.883 exemplares em abril. As vendas dos jornais do interior subiram mais ainda: 61,7% (552.380). No caso dos jornais populares, a alta foi espetacular, de 121,4% (1.189.090 exemplares).” A tal grande imprensa, claro, não gosta nem um pouquinho disso, especialmente a Rede Globo, que abocanhava, sozinha, quase 90% das verbas de TV durante o governo FHC. Hoje, ela leva pouco mais de 52%, o que ainda representa números acima de sua audiência, mas trata-se de uma perda relevante, especialmente para um agrupamento empresarial que sempre teve relações carnais com o poder desde que os militares deram um golpe em 1964.

Pois bem. Voltando ao motivo que originou essa postagem, entre terça e quarta-feira da semana passada um “apagão”, segundo a denominação desses órgãos de imprensa, atingiu os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. Foi na realidade um blecaute ocasionado por razões técnicas.
Mesmo com as explicações das autoridades energéticas e de especialistas, que demonstraram ser esse um problema circunscrito, e não uma falha estrutural do sistema elétrico brasileiro, o PIG deu a esse blecaute uma repercussão tal que, dias depois, parecia que a luz ainda não tinha voltado. Tanto que a abertura do Fantástico, da Rede Globo, cuja audiência dos últimos domingos tem quase empatado com a de Gugu, da Record, abriu o programa mostrando uma imagem de satélite do Brasil em seqüencial apagão noturno (engraçado é que na montagem, o último estado a ser “apagado” foi São Paulo, quando foi ele o primeiro a sofrer com o blecaute).

Durante uma semana inteira, tentou-se associar o governo federal e, principalmente sua candidata a presidente, Dilma Roussef, ao “apagão”. Fotos em capa de jornal, entrevistas com insistentes perguntas à ministra como se ela ainda estivesse na pasta das Minas e Energia, tentativas por parte da oposição de levá-la ao congresso para dar “explicações”. Até que Lula disse que não estava satisfeito com as respostas dadas por seus assessores até ali e que era preciso investigar mais profundamente o acontecido para demonstrar a população que apagão mesmo acontecera durante o governo do PSDB. Incapazes de enfrentar e temendo qualquer tipo de comparação entre Lula e FHC, foi só aí que o "apagão" acabou e havia chegado a hora de mudar, finalmente, de assunto. Agora, a nova “crise” é a extradição do “terrorista” Cesare Battisti. E depois outra, e depois outra. E assim vai: enquanto cai a audiência do PIG, a de Lula só faz subir.

Agora, imaginemos. E se acontecesse, ao contrário de um obra do governo de São Paulo, fosse numa obra do PAC que três vigas de sustentação de um imenso viaduto, com 80 toneladas cada, caíssem sobre automóveis e deixassem 3 pessoas feridas, uma delas em estado grave. E se sobre esta obra, em construção há mais de 11 anos, pesassem graves suspeitas de corrupção e desvio de dinheiro público, sendo que uma das prováveis causas do acidente fosse o uso de materiais de qualidade inferior para reduzir os custos da empreiteira, a tal ponto dela ser apelidada pela população de "Roboanel" e não Rodoanel?

Já imaginaram o tamanho do escândalo? Era assunto para “repercutir” por pelo menos duas semanas. Reportagens sobre os erros no projeto, sobre as suspeitas de corrupção, sobre o tempo dessa interminável obra que não termina nunca e que consome, a cada ano, mais e mais recursos dos cofres públicos. Os mesmo repórteres que silenciam sobre hoje sobre esse assunto, perguntariam ao presidente Lula, em Copenhague, se ele demitiria o ministro responsável, se ele achava que a Ministra Dilma sabia dos problemas, e se ela o tinha avisado. As famílias das vítimas seriam entrevistadas aos prantos nos hospitais, receberiam visitas em suas casas. Gilmar Mendes daria mais uma entrevista ao vivo no Jornal Nacional para cobrar maior transparência do governo e reclamar do Estado policialesco montado por Lula. A oposição entraria imediatamente com um pedido de CPI para investigar essa e outras obras do PAC “com suspeitas” de corrupção. O Senador Eduardo Suplicy seria o primeiro a assinar em troca de uma entrevista. O TCU “recomendaria” a suspensão de todo o programa até que as "possíveis irregularidades" fossem corrigidas.

Mas, como o problema não foi do governo federal e sim do governo paulista o que prevalece na cobertura desse caso por parte desses diligentes meios de comunicação é um obsequioso silêncio. Quando falam, é para dar destaque às justificativas do governo e blindá-lo concentrando possíveis críticas nas empreiteiras que fazem a obra. É o apagão da grande imprensa, que perde a cada dia a credibilidade que ainda lhe resta. Desvanece, como uma estrela que já irradiou luz para todo o universo e está prestes a extinguir-se.

A democracia é quem ganha com isso.

Um comentário:

Luis Soares disse...

O tema do programa CANAL LIVRE, da TV BANDEIRANTES, no dia 15 de novembro último, era o que mudou na política brasileira nos últimos vinte anos, a partir da eleição presidencial de 1989, quando Lula e Collor chegaram ao segundo turno e o petista acabou perdendo na reta final.

O povo brasileiro voltou a escolher seu presidente através do voto direto depois de, praticamente, trinta anos de jejum, que começou após a vitória de Jânio Quadros e seu vice João Goulart, em 1960, passando pelos vinte anos da ditadura militar e terminando no último ano do governo Sarney. Portanto, existia um fortíssimo material para análises comparativas e até especulativas, que seriam de grande valia tanto para os estudiosos como para o público em geral e, notadamente, para os mais jovens. O que se viu, no entanto, foi a ocupação do precioso espaço com o propósito indisfarçável de descaracterizar por completo a era Lula.

Os jornalistas Boris Casoy, Joelmir Betting, Antônio Teles e Fernando Mitre não se portaram com a isenção que era de se esperar partindo de suas conceituadas imagens no cenário jornalístico do país. O rancor dirigido ao atual presidente foi digno de nota na medida do constrangimento sentido pelos telespectadores mais articulados e sensíveis.

O objetivo do programa, pois, foi malhar o governo Lula em todos os aspectos e ignorar seus méritos. Comportamento desse tipo representa um desalento para os que almejam que a política profissional no Brasil atinja um grau de maturidade que permita se vislumbrar tempos mais prósperos para a nação brasileira.