domingo, 15 de novembro de 2009

Vidas que se cruzam

Todas as sextas pela manhã, quando me dirijo à universidade para uma aula que começa às 7, e todas as vezes em que saio de casa antes das 8, presencio e participo de um encontro de mundos. Ele acontece na fronteira de asfalto sobre a qual trafego. Olho aquela quase multidão que diligentemente, a maioria em direção ao trabalho, corta a BR-230 em direção ao bairro do Bessa, onde eu moro, empurrando suas bicicletas e segurando suas bolsas. São trabalhadores da construção civil, empregadas domésticas, comerciários cuja função reservada na vida é servir, primeira lição que provavelmente aprenderam desde muito cedo, e, junto com milhões de tantos outros, fazer a riqueza exuberante desse país de miseráveis.

Cortam o caminho em cruz, como numa metáfora de suas próprias vidas. E as duas linhas cruzadas, formadas de pessoas e automóveis, promovem esse encontro quase entre castas, numa fronteira asfáltica a indicar o apartheid social no qual nossas classes rica e média cultuam e cultivam cotidianamente no desprezo que demonstram pelos mais pobres. Os que atravessam o caminho dos mais ricos nessas insólitas manhãs pisam o asfalto protegidos dos ameaçadores automóveis, que já ceifaram inúmeras vidas naquele local, apenas por uma lombada incrustada no chão. E aquela lombada vem a ser o símbolo gritante desse desprezo, que marca em brasa o coração das famílias que perderam seus entes queridos: ela provavelmente só está lá por conta dos breves lampejos da controlada e desorganizada revolta daquelas pessoas, fartas de sua invisibilidade, e do custo quase zero para colocá-la ali.

Uma parte dos que tem seu caminho atravessado apenas olha a cena, confortavelmente protegida daquele mundo calorento e cheio de barulho, por vezes considerado ameaçador, trancafiados em seus automóveis climatizados e ao som de alguma melodia digital que lhes dá prazer escutar. Esperam com impaciência se livrar do inconveniente para seguirem apressadamente seu destino.

Talvez seja um dos breves momentos em que esses dois mundo se encontram de verdade, despidos da liturgia do trabalho que os aproxima, na “cordialidade” buarque holandeana de uma relação ainda incapaz de se tornar impessoal, e os afasta, quando voltam a atravessar essa fronteira pisando novamente o asfalto depois do trabalho e em busca do aconchego do apertado lar. Sem direito sequer a uma passarela, provavelmente por conta do alto custo da obra, mesmo que se gastem milhões em inutilidades e mimos para a classe média. Eis um pedaço da rica João Pessoa.

São brasileiros os partícipes desse encontro? Tenho cá minhas dúvidas. A idéia de povo é homogeneizadoramente importante para se fundar uma nação, mas é igualmente importante para encobrir essas diferenças. O Brasil rico só existe por conta dessa massa desprezada que forma o nosso “povão”. Mas ele nunca foi de todos nem muito menos para todos. Mudar isso dará mais significado à idéia de um povo e de uma nação brasileira. Sem fronteiras de nenhuma espécie.

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