quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Ainda sobre o Pacto Hitler-Stálin‏

Não era minha intenção tratar aqui da polêmica discussão que envolve o “Pacto Hitler-Stalin”, discussão levantada surpreendentemente pelo prefeito de João Pessoa, Ricardo Coutinho, para justificar sua aliança com o ex-governador Cássio Cunha Lima, do PSDB. Rubens Nóbrega fez referência, ao abordar a questão em sua coluna, a um presumível "ato falho" do prefeito. Comentando essa coluna, escrevi a Rubens tentando diferenciar "pacto" de "aliança". Hoje, em resposta, um dos inteligentes leitores do colunista do Jornal Correio, o sr. José Mário Espínola, discordou de minhas observações, o que me fez escrever, em resposta, o texto abaixo que se transformou nesta postagem. Vamos a ela.

Não se pode questionar o antagonismo ideológico, que, não muito raro, se expressava em confrontos de rua mundo afora, entre Nazi-Fascistas e Comunistas durante os anos 1930. A Guerra Civil Espanhola foi uma dos mais sangrentos capítulos desse confronto. Pode-se discutir muita coisa, menos o anticomunismo de Hitler e do Nazismo. E esse era um fato que, inquestionavelmente, aproximava os Nazistas das potências liberais, interessadas em estimular uma guerra entre Alemanha e URSS.

Inglaterra e França não apenas fizeram “vista grossa” a toda sorte de provocações dos Nazistas, como as anexações da Áustria, da Renânia, dos Sudetos thecos, esta, inclusive, com a concordância expressa da França e da Inglaterra quando assinaram com a Alemanha o Tratado de Munique que a ratificou, e depois a anexação da própria Thecoslováquia, nesse caso em claro desacordo com o que determinava esse mesmo Tratado de Munique. O Tratado de Munique mostrou aos alemães, mas também aos soviéticos, a indisposição para a guerra daqueles que a derrotaram e a humilharam a Alemanha na Primeira Guerra Mundial, permitindo que nações sem condições de resistir ao exército nazista fossem entregues à própria sorte. Ou seja, a atitude das grandes potências européias, e mesmo dos EUA, em relação à Alemanha nazista foi marcada pelo que se convencionou chamar à época de Realpolitik, uma postura diplomática baseada excessivamente no pragmatismo dos Estados-nação hegemônicos.

O que esses países não compreenderam, como acentua o historiador inglês Eric Hobsbawm, era o comprometimento do nazi-fascismo com a destruição dos valores e das instituições da “civilização ocidental”, construídos após a Revolução Francesa, aos quais pertenciam tanto o comunismo quanto o liberalismo político. Por isso, nenhuma aliança dessas tradições era possível com o Nazi-fascismo e apenas a sua derrota as faria sobreviver. Os soviéticos compreenderam isso logo; as potência ocidentais demoraram um pouco mais. Seguindo essa linha apaziguadora, essas potências não apenas mantiveram uma postura passiva diante do avanço das tropas alemãs, como chegaram mesmo a fazer acordos secretos com os Nazistas, como o que a Inglaterra fez com a Alemanha, sem o conhecimento da França, para permitir o início da reestruturação da Marinha alemã, o que era proibido pelo Tratado de Versalhes, bem como a explícita colaboração americana com os nazistas em várias frentes, até 1941.

Na linha inversa à postura das potências ocidentais, não esqueçamos que antes do pacto assinado por Von Ribbentrop, da Alemanha, e Vyachelav Molotov, da URSS, a III Internacional Comunista, liderada e mantida pelo Partido Comunista da URSS, pouco mais de 1 ano depois da ascensão dos Nazistas ao poder na Alemanha, em 1933, passou a defender a política de “frente popular”, o que significava uma ampla união mundial contra o nazi-fascismo; Stálin tentou, antes de realizar seu pacto com Hitler, uma “aliança” com França e Inglaterra contra a Alemanha, proposta rejeitada pelos dois países por conta da política de “apaziguamento” com os Nazistas.

O que a URSS percebeu foi que não poderia depender de qualquer apoio ocidental contra a Alemanha, sendo o Pacto de Não-Agressão celebrado entre Hitler e Stálin o reconhecimento explícito disso. Para a Alemanha interessava manter sua estratégia de derrotar primeiro o Ocidente, para depois cuidar da URSS, evitando o erro cometido na Primeira Guerra de lutar em duas frentes simultaneamente. Para além das conquistas territoriais asseguradas, o que a URSS precisava era de tempo para organizar suas forças e isso ela conseguiu com o Pacto de Não-Agressão e com ações que não deixavam dúvida que a URSS, caso precisasse, iria à guerra.

E foi só depois da invasão da Polônia que Inglaterra e França perceberam que os objetivos de Hitler incluía um confronto global, e não só com a URSS. Depois da invasão da Polônia, a URSS anexou também a Letônia, a Estônia e a Lituânia, fortalecendo suas posições contra o futuro inimigo. Stalin sabia que Hitler não cumpriria os acordos e as respostas soviéticas a cada um dos movimentos do seu oponente indicavam que, se a Alemanha queria guerra, ela teria.

Voltada para a Frente Ocidental, a Alemanha avançou primeiro sobre a França, a quem ela conseguiu derrotar com surpreendente facilidade e rapidez, e depois sobre a Inglaterra, objetivo que Hitler esteve prestes de conseguir, não fosse a resistência da aviação britânica que permitiu que a Inglaterra resistisse até que os EUA decidissem finalmente entrar na guerra. Tendo apenas parcialmente atingido seu objetivo estratégico inicial – o que foi decisivo, pois ao não derrotar a Inglaterra, Hitler permitiu que ela fosse usada como “cabeça-de-ponte” para as tropas americanas na invasão da Normandia, – só então Hitler voltou-se contra a URSS, invadindo-a. Ou seja, sem querer ser professoral, o Sr. Espíndola esqueceu desse detalhe importante: a Operação Barba Roxa só se efetivou dois anos depois do ataque à Polônia e um ano depois do início dos ataques à França e Inglaterra. Entretanto, os seus preparativos anteriores confirmam apenas como a avaliação da URSS estava correta em ganhar tempo para enfrentar a invasão iminente por parte da Alemanha. O Pacto Hitler-Stálin foi o que viabilizou isso ao permitir, por exemplo, que a URSS protegesse seus domínios avançando suas defesas pelos territórios anexados.

Foi a "Realpolitik" das potências ocidentais que alimentou o nazismo e o avanço da barbárie pelo mundo, quando os valores ocidentais mais caros à nossa sociedade, especialmente a democracia, estiveram na iminência de serem destruídos. Por um paradoxo do destino, o Ocidente deve muito à resistência da URSS durante a invasão alemã ao seu território. Nessa luta, sucumbiram mais de 20 milhões de soviéticos, e se eles tivessem sido derrotados pelo poderoso e superior exército alemão, o destino da Segunda Guerra talvez tivesse sido outro. Quando os soviéticos venceram os alemães na Batalha de Stalingrado, em fevereiro de 1943, a guerra começou a ganhar um outro rumo. A Invasão da Normandia só aconteceria 1 ano e meio depois.

Por fim, olhando para os dias de hoje, por mais que o pragmatismo domine a política, é preciso nunca esquecermos que são as idéias que impulsionam as ações que movem o mundo. São elas que orientam nossas decisões. Por elas, muitos estão disposto à luta, muitos até a morrer. É bom ninguém subestimar a força que elas tem para mudar o mundo.

Um comentário:

Jose Bezerra disse...

Sem se apegar as palavras, mas as ideias. Quando Ricardo fala que sua relação com Cássio será como a de Hitler e Stalin, ele remonta mais ou menos quais são os parâmetros que o guia. Cássio parece que compreende bem e nem chiou. Talvez ele pense assim. Como muitos comentem por aí, se tal aliança vier é provável que se desmanche no futuro. Até Alex Filho já disse: como ficará 2012 e 2014 para o bloco DEM-PSDB?