domingo, 13 de dezembro de 2009

Xadrez e política na Paraíba: quem é jogador e quem é jogado

É mais do que comum a analogia entre o xadrez e a política. Um amigo meu, obcecado tanto por um quanto por outro, já me afirmou que pensa a política como um tabuleiro de xadrez. É claro que eu considero essa afirmação um exagero, pois a relação entre o enxadrista e o político só é possível para poucos, ou seja, para aqueles que são capazes, pela sua liderança ou poder político, de dispor e organizar suas ações controlando as peças e movimentando-as de acordo com seus objetivos táticos e estratégicos. Assim, quem não dispõe dessa qualidade não joga na política, é jogado; quem não dispõe de força para controlar e organizar seu jogo, é peça a ser movimentada no tabuleiro.

Assim como no xadrez, na política os movimentos dos jogadores são pensados no médio e longo prazos, tendo em vista encurralar o Rei do adversário para proporcionar-lhe um xeque-mate. No jogo eleitoral para governador (no tabuleiro estadual), as partidas tem duração de quatro anos e se iniciam antes de cada embate eleitoral, quando as peças são dispostas no tabuleiro. O resultado dessas eleições representa um estágio onde cada jogador conquistou posições, avançou pelo centro do tabuleiro, anulou ou capturou peças. Essa vantagem inicial, proporcionada pela vitória eleitoral, não quer dizer que o xeque-mate seja apenas uma questão de tempo. A imprevisibilidade é mais uma característica que assemelha o xadrez à política: movimentos errados ou ousadia excessiva, por exemplo, são fatores que podem produzir efeitos de médio e longo prazo que também podem tornar uma vitória certa numa derrota iminente.

No xadrez político paraibano, a disputa de 2010 começou com os resultados de 2006, quando cada jogador (Cássio Cunha Lima e José Maranhão) conquistou posições estratégicas no Governo do Estado, na Assembléia Legislativa, no Congresso Nacional e nas prefeituras. A vantagem cassista em 2006 foi apenas contingencial, na medida em que sua vitória ficou sub júdice. Nas eleições de 2008, a vantagem maranhista foi evidente com a conquista dos principais colégios eleitorais do estado, o que consolidou sua posição, dando evidente vantagem no tabuleiro a José Maranhão quando este voltou a assumir o governo da Paraíba.

Como hábil enxadrista político, Cunha Lima percebeu, antes de ser definitivamente afastado do governo, o provável desfecho que ameaçava-lhe não apenas a partida em andamento, mas sua condição de jogador, e não foi por outro motivo que a estratégia colocada em prática por ele, ainda antes da eleição de 2008, esteve e continua centrada em dividir o bloco de apoio do governador José Maranhão para montar um palanque que gere alguma expectativa de poder. E Ricardo Coutinho aceitou ser peça-chave nesse tabuleiro político.

Primeiro, Cunha Lima, ainda no governo, tentou enfraquecer a até então compacta defesa de José Maranhão, organizando um ataque pelos flancos à uma das torres (Ricardo Coutinho) do tabuleiro maranhista. José Maranhão, como bom jogador defensivo, resistiu como pôde às investidas adversárias até que, quando assumiu o governo, entregou finalmente, e com alguma resistência, a Torre, cujo posicionamento até então era inútil tanto para ataque quanto para defesa; Maranhão promoveu o roque deslocando as defesas para o outro flanco do tabuleiro, movimento que não só protegeu seu Rei, até então desguarnecido pela dúvida se José Maranhão voltaria ou não ao governo, mas também permitiu abrir o jogo para a outra torre (Veneziano Vitall), também imobilizada.

Foi só depois desses movimentos que José Maranhão partiu para o ataque às combalidas defesas cassistas, começando por tomar um por um os seus peões (prefeitos de pequenas cidades). Esse ataque foi combinado com um cerco à Rainha cassista (o presidente do PSDB, Cícero Lucena), que, apesar de imóvel no tabuleiro, ocupava posição estratégica. Sem ela, Cunha Lima não cria as condições para reorganizar suas defesas e partir novamente para o ataque.

A maior dificuldade de Cunha Lima é que ele não é mais senhor do seu tabuleiro e algumas de suas peças não o obedecem mais como antes. E por mais que tente deslocá-las para abrir caminho para a Rainha cumprir o papel na estratégia planejada desde o início, essa peça-chave permanece imóvel. Cunha Lima sabia que, ao conquistar uma das Torres maranhistas, ele não poderia manter sua Rainha, sendo obrigado mais à frente a promover o seu sacrifício. Seria uma troca a contra-gosto, pois a fragilidade do jogo cassista não comporta perdas, especialmente de uma Rainha. Mas, apesar de uma jogada de risco, ela foi calculada.

Entretanto, a Rainha resiste, e se recusa a cometer o suicídio para proteger o Rei, por mais que Bispos e Cavalos abram deliberadamente o caminho para enfraquecer a posição da Rainha, desprotegendo-a. O problema da estratégia cassista é que a Rainha, com mobilidade e vida própria que tem hoje, não obedece ao comando do ex-governador, mas ao de outro jogador com o qual compartilha uma outra estratégia: José Serra. E José Serra não sacrificaria uma Rainha, mesmo que frágil, a troco de nada. É bem verdade que, no caso José Serra, Lucena é, no máximo, um Cavalo do seu tabuleiro.

O problema é que agora a ex-Torre maranhista, num movimento atabalhoado, meio desesperado, à semelhança do sujeito que, de tanta sede, passa a enxergar miragens no deserto, deixou-se capturar por Cunha Lima e começa agora a cobrar a fatura de um acordo que ainda não se cumpriu. A citada Torre foi atraída para o suicídio no tabuleiro maranhista pela promessa de mudança partidária de Cássio Cunha Lima e, em seguida, pelo anúncio do apoio a Ricardo Coutinho, movimentos ansiosamente esperados tanto por cassistas esperançosos de voltarem ao governo já em 2010, quanto por petistas-cassistas e por ricardistas que já saboreavam a sensação de pisar nos tapetes do Palácio da Redenção.

A primeira parte da promessa não foi cumprida, para desalento de todos. Mas, já era tarde demais para a Torre recuar: capturada, ela já estava muito bem guardada entre as peças cassistas, pois, como se sabe, as regras não permitem recuos de jogadas. Tocou na peça tem que movimentá-la. A Torre, assim, teve que engolir, meio a contra-gosto, uma promessa de aliança com o PSDB. Mesmo isso mostrou-se uma promessa vazia, pois foi um peixe que Cunha Lima vendeu e, ao que parece, não vai poder entregar. Resta, para contrabalançar, um presente de grego, o Dem, que Coutinho recusou o apoio em 2008, quando despachou o Senador Efraim Moraes no momento em que ele se ofereceu para apoiar o projeto de reeleição do atual prefeito de João Pessoa no ano passado.

Agora, até o Dem é empurrado, e aceito, para a seara ricardista, o que me faz lembrar um adágio popular: onde passa um boi, passa uma boiada. Para aumentar o pesadelo ricardista, agora que está mais do que claro que o PT é peça de outro tabuleiro, o maranhista, só lhe restando as companhias conservadoras, porque com a definição do Dem é mais que provável que também o PCdoB consolide seu apoio a José Maranhão, sendo só uma questão de tempo a formalização. Coutinho, para a tristeza de todos aqueles que acreditaram que sua liderança poderia se conformar em uma alternativa política à esquerda, será isolado no flanco à direita do tabuleiro

Vamos ver se nos próximos dias, a segunda parte do acordo será, finalmente, concretizada, que é a publicização do apoio de Cunha Lima a Coutinho. Mas, mesmo que venha a se concretizar, ainda assim será só pela metade. Ricardo Coutinho, por conta da resistência de Cícero Lucena, pode conquistar o apoio só de boca do ex-governador durante a campanha, pois dificilmente terá o apoio formal do PSDB. E, em tempos de fidelidade partidária é o próprio Cássio Cunha Lima que não pode apostar tudo na perigosa estratégia de entregar a cabeça de Cícero Lucena numa bandeja de prata a um inimigo pessoal e político: ele corre o risco de perder a legenda...

Como Coutinho reagirá ao prêmio de consolação ou ao presente de Natal cassista? Só resta desejar muito boas festas ao Prefeito! E em que companhias!

Para completar, considerando que as coisas nunca estão ruins o suficiente que não possam piorar, sem Cunha Lima como um dos seus candidatos formais, é provável que Ricardo Coutinho tenha como companheiros de chapa majoritária figuras de alta estirpe na política paraibana, a exemplo de Efraim Moraes, do Dem, e Ney Suassuna, agora no PP, e Carlos Dunga, do PTB, para formar o trio que encarnará o verdadeiro espírito alternativo da renovação! Eis uma chapa que tem a cara da mudança!

Será mesmo uma campanha gloriosa! Ave Ricardo!

3 comentários:

Jose Bezerra disse...

Interessante a comparação com o jogo de xadrez porque traz o pressuposto de comportar só dois reis, duas linhas. Não se pode incluir uma terceira linha. O que se imaginaria como sendo a mudança. Se essa chapa não tem cara de mudança, imagine a outra. Que hoje já está querendo Cícero. Helder Moura já o colocou como mártir. Ou seja, tudo se dilui na dicotomia paraibana.. triste.
Todo o problema de Ricardo e de ele se colocar como a mudança vem da falta de apoio dos aliados tradicionais, cooptados por Maranhão, que não quer ceder o lugar de Rei. O PSB poderia muito bem ter o apoio do PT, do PCdoB e outros trabalhistas, de forma fechada, mas Luiz Couto gritou desesperadamente em vão e perdeu.
Os movimentos tentam recompor os pressupostos da dicotomia, pois assim é mais cômodo para os caciques jogarem. Vamos ver no que vai dar.

Christiano Almeida disse...

Acerca do tema, opino, com a devida permissão do autor. Eis: Analisando por outra égide, a meu ver, a candidatura de Ricardo Coutinho passa necessariamente pelo desenrolar do que venha a ocorrer no plano nacional. Vide. Ciro Gomes - apesar da sua posição confortável hoje nas enquetes - não sairá candidato. Por quê? Falta-lhe tempo na TV, estrutura partidária, apoio político e recursos financeiros. O embate passará por um plesbicito. Qual? Ou estás com Lula ou contra Lula! Lula encurralou parte do Centro e a direita nas cordas. Estamos em dezembro e o DEM e o PSDB/PPS não teem candidato. Esta indefinição favorece a quem? Até quando Serra deixará de esperar em cair nas pesquisas para assumir de vez que é candidato? Ricardo Coutinho está na mesma situação. Como? Partido pequeno (no plano regional); sem alianças partidárias de peso; organicidade; tempo de televisão e RECURSOS FINANCEIROS. A propósito: Não estranhem se no prazo final Cícero Lucena abdicar em ser candidato. Moral da história: Maranhão consolidado; O PT "por cima da carne seca"; O DEM/PTB/PSDB/PPS sem rumo e sem prumo para "arranjar" um candidato de última hora. VENDETA pura.

Anônimo disse...

Na minha opinião, José Maranhão está jogando com as peças brancas e Ricardo Coutinho com as peças pretas. Com superioridade das pretas até o momento. No entanto, as brancas estão com posicionamento melhor para 2010. Restando as pretas a necessidade de um lance genial. Nesse jogo, Ricardo Coutinho seria representado pelo russo Garry Kasparov e José Maranhão pelo saudoso americano Bobby Fischer. Que vença o melhor!!!!!!!!