quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

AS OPÇÕES DE VENEZIANO

O Prefeito de Campina Grande, Veneziano Vital, tem adotado estratégico silêncio sobre que posição assumirá nas eleições de 2010. Enquanto todos os outros sujeitos envolvidos na disputa do próximo ano se movimentam sob os holofotes da imprensa, e tem esquadrinhadas suas opções em textos e análises políticas que tentam expor ao debate público as entranhas de suas decisões, Veneziano deixa em suspenso – e a todos em suspense, aliados e adversários – que papel desempenhará nas eleições do próximo ano. Exercita uma das virtudes que mais devem ser apreciadas no comportamento de um político: a paciência.

Sabedor de sua limitada capacidade de ação – é filiado a um partido que já dispõe previamente de um candidato que está sentado na cadeira de Governador do Estado, – Veneziano não pode, como claramente e legitimamente deseja, sair em campanha para governador estado a fora, o que cindiria seu grupo político e, certamente, enfraqueceria a todos, inclusive a ele próprio.

Com a idade que tem, Veneziano já conquistou, com a brevidade daqueles que, como diria Maquiavel, tem a fortuna a seu lado, a condição de segunda liderança mais importante de um partido de onde saíram as principais lideranças políticas nos últimos 20 anos – todos os governadores de 1986 para cá ou se elegeram pelo PMDB ou a esse partido foram filiados, – e que detém, por isso mesmo, uma estrutura partidária sólida e espalhada por todo o estado.

Veneziano, nesse sentido, foi ajudado pela atabalhoada ação do também jovem e até então ascendente Prefeito de João Pessoa, Ricardo Coutinho, que preferiu apressadamente o aconchego dos braços de tradicionais adversários políticos conservadores num Nordeste cada vez mais lulista e, portanto, cada vez mais à esquerda, demonstrando que Coutinho tinha a fortuna das circunstâncias ao seu lado, mas não a virtuosidade política maquiavélica.

Diante dessas circunstâncias, se continuar sabendo se posicionar no tabuleiro político paraibano, Veneziano poderá ocupar, em breve e sem antagonistas, o espaço que hoje exerce o governador José Maranhão que, pela idade e por não ter herdeiros à altura, será obrigado a passar o bastão dessa liderança quando terminar seu governo em 2014. E se José Maranhão se reelege no próximo ano, o prefeito campinense é o político mais provável, na linha de sucessão do PMDB, a reivindicar o recebimento desse bastão.

Entretanto, como já disse, Veneziano tem que demonstrar mais uma vez ter a virtuosidade política que falta a alguns para evitar dar um passo errado em 2010. Como é obvio, o Prefeito de Campina Grande tem duas opções: terminar sua gestão na Prefeitura ou renunciar a isso para ser candidato na eleição do próximo ano.

A primeira opção traz consigo a vantagem de permitir a conclusão do projeto administrativo e consolidar definitivamente sua liderança na Rainha da Borborema. Entretanto, o grave problema que enfrenta hoje Veneziano é a ausência de lideranças com capacidade de aglutinação e visibilidade suficientes para enfrentar a disputa sucessória em 2012, que, acho, deve ser contra o próprio Cássio Cunha Lima, que não deve querer arriscar mais uma derrota na cidade que ele considerava seu feudo, e que é estratégica para o seu projeto de retornar ao governo em 2014.

Uma derrota para eleger o sucessor pode, além de enfraquecer sobremaneira o projeto de se tornar governador, porque se converterá numa derrota pessoal, forçará Veneziano a conviver com a distância do poder exatamente no momento em que o jogo sucessório entra na sua fase decisiva, os dois últimos anos até o pleito. Igualmente, uma derrota para um adversário histórico e potencial concorrente ao cargo de governador, pode também atiçar o interesse de outros pretendentes ao cargo dentro do seu próprio agrupamento político.

Por outro lado, a hipótese de vitória de um candidato, a ser construído desde já, apoiado por Veneziano Vital para sucedê-lo não pode ser descartada, especialmente diante das vitórias de José Maranhão e Dilma Roussef. Vislumbremos essa hipótese: com as três máquinas administrativas (Prefeitura, Governo do Estado e Governo Federal) atuando para viabilizar a conclusão de um projeto administrativo que consolide o trabalho em andamento e viabilize sua ampliação, aliada à escolha de um candidato que seja capaz de agregar setores importantes da cidade a esse projeto político, constituem condições básicas para a construção de uma candidatura viável. Nesse projeto, acredito ser essencial fugir das armadilhas do debate político centrado na paixão que desperta o interesse eleitoral dos grupos políticos campinenses, que marcaram os últimos pleitos e dividiu a Rainha da Borborema ao meio, e deslocar o foco desse embate na direção de projetos de governo e modos de governar, aspectos que não interessam nem de longe aos Cunha Lima.

Como se vê, caso se considere as possibilidades acima, a permanência no cargo deixará Veneziano à mercê das contingências apontadas e se converterá a construção desse projeto em um exercício de verdadeira engenharia política. A virtuosidade de Vital do Rego será colocada à prova.

A segunda opção – candidatar-se em 2010 – obrigará Veneziano Vital a tomar antes uma decisão a respeito de qual cargo concorrer: Senador ou vice-governador? Não se trata de uma decisão fácil, já que eu acho que a vitória do projeto futuro de Veneziano Vital está intimamente associada à vitória de José Maranhão, em 2010, o que passa pelo papel que ele desempenhará na chapa majoritária para agregar votos a ela, atraindo não apenas o eleitor campinense mas também o eleitor jovem do estado. Neste sentido, a candidatura a vice poderia viabilizar essa associação de maneira mais direta e, pelo menos para José Maranhão, seria a mais interessante.

Entretanto, em termos de futuro, ser Vice-Governador deixaria Veneziano com os movimentos excessivamente limitados e preso a um cargo que, como se sabe, não dá poder algum a quem o ocupa, a não ser que o governador esteja disposto a oferecê-lo. Além disso, tem o PT, que, como já foi analisado aqui, não dispõe de candidatos competitivos para o Senado, restando o cargo de Vice-Governador, que tem como postulante mais provável o atual vice, Luciano Cartaxo, cuja posição Veneziano tem habilmente ajudado a fortalecer.

Primeiro, porque Veneziano sabe que essa decisão não será tomada no curtíssimo prazo; segundo, ele evita, com isso, um conflito desnecessário, mantendo o PT como potencial aliado agora e no futuro – é bom não esquecer que quem se eleger Vice-Governador em 2010 na chapa maranhista provavelmente assumirá o governo se, na hipótese de uma vitória no próximo ano, José Maranhão se afastar para concorrer ao Senado. O Vice-Governador desempenhará, portanto, papel-chave na eleição seguinte. Para Veneziano, um candidato a vice como Cartaxo, por enquanto sem grandes ambições políticas, tem o perfil ideal para evitar possíveis confrontos caso, no cargo de Governador, comece a ter pretensões de se reeleger.

Já a candidatura ao Senado daria a Veneziano muito mais visibilidade política, inclusive com potencial possibilidade de projeção nacional. Além de advogado de formação – atributo importante para quem é parlamentar, – Veneziano é jovem e eloqüente, qualidades apreciadas pela grande mídia. E mais: num eventual governo de Dilma Roussef, onde os embates políticos tendem a se acirrar na sociedade e no Congresso, e caso as projeções que indicam que os prováveis eleitos hoje seriam Cássio Cunha Lima e Veneziano Vital, o Senado pode se converter num privilegiado espaço para o embate entre os dois prováveis oponentes em 2014, isso caso Cunha Lima aceite ir para o confronto.

Agregue-se isso o fato de que um dos objetivos do Presidente Lula em 2010 será conquistar ampla maioria no Senado, o que torna estratégica a formação de chapas competitivas para o aquela casa – eis mais um grave erro de avaliação cometido por Luiz Couto: imaginem, numa disputa que tende a ser plebiscitária em 2010, uma chapa Veneziano-Luiz Couto? Dependendo da campanha – lembremos 1986 – a candidatura de Cássio Cunha Lima estaria em risco com grande possibilidade ser engolida pela polarização nacional. Tem gente que só sabe ser peça no xadrez político...

Com as limitações de quem não vive a política estadual “por dentro”, imagino que sejam essas as alternativas de Veneziano. E ouso repetir aqui o que já disse a um dos assessores mais próximos do Prefeito de Campina Grande: “olhem o cavalo passando celado!”

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