segunda-feira, 4 de maio de 2015

MORGANINHA VAI ÀS RUAS (uma primeira incursão na crônica literária)


Morgana Beatriz, “Morganinha” como os pais e amigos mais próximos a chamavam, estava cada vez mais irritada com o que acontecia no Brasil. Irritada não seria o termo adequado para descrever esses sentimentos: Morganinha estava indignada, como ela gostava de se autoproclamar quando postava alguma mensagem no Facebook ou no Wathsapp sobre os descalabros que, segundo ela, os brasileiros estavam obrigados a aguentar do atual governo. 

Era a primeira vez que Morganinha experimentava sentimentos que não estavam relacionados exclusivamente a si própria ou à família. Política era um assunto que nunca a interessou e quando acontecia do professor de sociologia da faculdade particular em que estudava, um “comunista”, segundo sua apreciação a respeito do rapaz, introduzia assuntos políticos, Morganinha aproveitava para ligar o iphone e verificar suas mensagens.

Tudo mudara nos últimos meses, especialmente durante a última campanha eleitoral, quando não apenas descumprira a promessa de só tirar o título eleitoral quando fosse obrigada, depois que completasse 18 anos, como principiara a pedir votos, coisa que sempre deplorou. Morganinha adquirira uma repentina preocupação com “o” Brasil, que enxergava apenas como uma entidade geográfica, já que a preocupação com o país não se estendia ao “povo brasileiro”, que ela depreciava ferozmente. 

Como a jovem não estendia para si as qualificações que atribuía ao povo, é lícito presumir que ela não partilhava aquele sentimento de pertencimento. Povo eram aquelas com quem preferia não “misturar-se”, em qualquer ambiente que fosse. Não gostava do bloco das Muriçocas, por exemplo, porque achava muito “misturado” e tinha saudades dos carnavais fora de época quando podia brincar só ao lado dos seus. 

Certa vez em que ouviu a tia comentar que no condomínio onde morava proibiram as babás de entrarem nas piscinas, mesmo com os bebês que cuidavam, Morganinha perguntou com ar de incredulidade: – E permitiam antes?”

Na última vez que foi a Orlando e a Miami, seus parâmetros de cultura avançada, os problemas que antes enxergava no Brasil e em seu povo recrudesceram. Postou deslumbrada para os amigos imagens daquele mundo limpo e organizado. Morganinha só não gostou por completo daquela viagem porque na volta teve de aturar uma barulhenta família “de pessoas mal vestidas” que ia visitar, depois de décadas, os parentes no Nordeste. “É por essas e outras que se perde a alegria de viajar”, escreveu ela na legenda de uma foto, com a família ao fundo, obtida na simulação de um “self” dentro do avião. 

Eis uma faceta que odiava no seu Brasil. A mistura que, lastimava, começava a enxergar em outros lugares, antes exclusividade de sua classe social. Na volta do primeiro dia de aula na faculdade, Morganinha contou, com os olhos que aos poucos foram se enchendo de lágrimas, que em sua sala agora também estudava gente de “outro nível social” e que aquilo estava “parecendo uma escola pública”. Revoltada com esses fatos, pela primeira vez Morganinha passou a prestar a atenção para entender duas palavras cujo o significado desconhecia: “universalismo” e “meritocracia”. Morganinha passou a apreciar toda discussão em que pudesse atacar o governo, especialmente quando dela participava alguém que o defendesse. 

Um tema era recorrente nas conversas em mesas de bar e nos encontros sociais que a adolescente participava com frequência: a corrupção do governo.
Tudo isso era muito novo na vida de Morganinha, cujo nome herdara da avó paterna, uma senhora de 80 anos que ultimamente se animara a contar histórias sobre o que acontecera nos anos anteriores a 1964 e sua participação para evitar que o Brasil “caísse nas mãos dos comunistas”. No começo, Morganinha escutava a avó com ares de bocejo e esperava a primeira oportunidade para mudar de assunto. 

Agora, não. Nos últimos meses, a filha de Américo e Vanusa, ele dono de uma grande empresa de segurança e ela alta funcionária da Justiça, escutava as histórias da avó com entusiasmo e curiosidade. Era uma nova faceta que descobrira na avó, já que do passado que antes brotava das memórias de Dona Morgana raramente aparecia política, a não ser para relembrar as relações sociais com o círculo do poder político no estado. 

Morganinha, que não conhecia nada desses “tempos do ronca”, como ela desdenhava do passado que desconhecia por completo, achava particularmente interessantes as histórias que a avó tomara conhecimento pela boca do marido, o falecido Dr. Estavão, que morrera há 10 anos desembargador aposentado e conseguira a nomeação depois de 1964. D. Morgana desenterrava as memórias que o marido lhe confidenciara nos mais de 50 anos de convivência e que, especialmente depois do fim da ditadura, ele passou a desejar carregar para o túmulo.

Num domingo, em meio a cervejas e espumantes, antes de Morganinha sair com as amigas, o irmão e o namorado, Damaceninho, para mais uma manifestação contra o governo na praia, D. Morgana contou detalhes de como camponeses foram presos e assassinados logo após os militares assumirem o poder. Dasmaceninho, cuja alcunha era também parte da herança paterna, lembrou-se na mesma hora de uma postagem que lera e compartilhara no Facebook sobre o Movimento dos Sem Terra e disse em tom de galhofa: “Bons tempos! Bem que podiam voltar a fazer o mesmo com esses agitadores sem terra!”

– Vão embora! – disse a avó alegremente, levantando-se com esforço. – E façam por mim o que um dia eu já fiz pelo Brasil. Tirem essa corja do poder!


E todos brindaram ao Brasil antes de sair. 

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