terça-feira, 30 de junho de 2009

Sobre a aliança Ricardo-Cássio

Nessa postagem, vou esboçar uma análise da situação política da Paraíba e, de maneira temerária, projetar as alternativas dos atores do jogo político paraibano, centrado, por enquanto, em Ricardo Coutinho. Alguns dirão ser isso mera especulação. É verdade. Mas, o que seria da análise política se não fossem esses esforços de tentar projetar, não adivinhar, o futuro?

A aliança Ricardo-Cássio

Tenho escutado com freqüência que Ricardo Coutinho só se elege governador numa disputa com Maranhão caso tenha o apoio do ex-governador Cássio Cunha Lima.

Essa lógica é predominante entre os apoiadores do atual prefeito de João Pessoa, e reverbera uma opinião abertamente disseminada pelos “analistas” políticos de jornal e rádio claramente identificados com o cassismo. Daí porque todo fato que pode demonstrar essa aproximação – presença de Ivandro Cunha Lima em reunião do PTB em ato de apoio a Ricardo, conversa deste com o ex-governador Ronaldo Cunha Lima – recebem o destaque desmesurado e quase ao som de foguetões dos cassistas; para os maranhistas, esse é o sinal mais claro de uma aliança já celebrada.

Entretanto, entre os muitos eleitores pessoenses de Ricardo Coutinho com quem tenho conversado até agora, não a respeito das possibilidades de vitória, em 2010, mas sobre a manutenção do voto no prefeito caso se confirme essa aliança, posso dizer que até agora 100% deles afirmaram que não apenas não votam, como rejeitam enfaticamente uma chapa que ligue Ricardo a Cassio. É claro que não considero o resultado dessas conversas como dados da realidade. São conversas, bate-papos, e, o que é mais importante, sem a mediação do debate político que acontece durante uma campanha eleitoral, e que pode reforçar determinadas tendências ou anulá-las. Nesse caso, o que é surpreendente – nem tanto em se tratando do eleitor pessoense – é a ampla rejeição à aliança Ricardo-Cássio. Mesmo sem o acesso a pesquisas sobre essa questão, me arrisco a dizer ser essa (a rejeição a uma aliança Ricardo-Cássio) uma tendência entre o eleitorado de João Pessoa, especialmente de classe média – o que é mais temerário para Coutinho, – que se consolida a cada dia.

Um argumento dos ricardistas é que essa perda de votos seria residual e amplamente “compensada” no interior do estado, especialmente em Campina Grande. Tem alguma lógica esse raciocínio, mas ele implica em sérios riscos para Ricardo Coutinho. O primeiro, é abertura de um poderoso flanco para ataques dos adversários dentro da sua fortaleza, que é João Pessoa. Nenhum general sai para uma guerra sabendo desde já que sua retaguarda ficará desguarnecida. Ricardo, em aliança com Cássio, um político reconhecidamente antipatizado em João Pessoa, terá que explicar durante toda a campanha essa aliança e será cobrado permanentemente por seus adversários. E quem pode assegurar que essa atitude se restringe ao eleitorado de João Pessoa? E nas médias cidades, como Patos, Souza, Cajazeiras, Monteiro, Guarabira, como reagiria o potencial eleitor ricardista ansioso por quebrar o monopólio das duas famílias que se revezam no poder há 20 anos? Enfim, os eleitores do Nordeste, finalmente, vem dando mostras, especialmente a partir de 2006, que desejam se libertar das oligarquias políticas familiares que, desde que o Nordeste é Nordeste, controlam a vida política nessa região.

O segundo risco, decorrente do primeiro, é Ricardo aumentar sua dependência em relação ao cassismo, fazendo-se prisioneiro desse grupo na campanha e em um futuro governo, quando dependerá fortemente do seu apoio para governar. Além disso, essa aliança com Cássio provavelmente isolaria Ricardo, deixando-o sem a companhia dos partidos de esquerda. No PT, por exemplo. Os filiados petistas escolherão a direção partidária em novembro, definindo com isso a política de aliança do partido. Como eles reagirão à essa aliança com Cássio, até hoje a principal liderança do PSDB, partido que abriga os principais adversários do governo Lula e que tem entre os seus quadros, o governador de São Paulo, José Serra, o representante da conservadora elite paulista e principal candidato da oposição contra Dilma Roussef, a candidata do PT? Como reagiria a Direção Nacional do PT, Dilma Roussef e o presidente Lula? Não tenho dúvida que a banda maranhista do PT ganhará de presente um poderoso discurso para vencer essa disputa interna, pois só a conversa de que o PT é governo não basta.

E o PCdoB? Mantendo até agora o firme apoio aos dois governos, encontrará o argumento definitivo para abandonar o barco ricardista quando finalmente chegar o momento da decisão. E um argumento poderosíssimo, diga-se de passagem. Isolado da esquerda e com excessos de apoios à direita, Ricardo faria uma campanha apenas reproduzindo o tradicionalismo da política paraibana e seria engolido pela disputa Marnanhão X Cássio, assumindo ele a triste condição de biombo dessa disputa. O discurso da renovação iria por água abaixo.

É bom lembrar que, onde a esquerda venceu no Nordeste, em 2006, em nenhum lugar envolveu entre os partidos aliados figuras proeminentes do tucanato, nem muito menos o PSDB. No Maranhão, onde existia a mais renhida oligarquia política, foi necessária uma ampla frente para derrotá-la. Em três estados (Ceará, Bahia e Sergipe), estados onde o PMDB é força secundária, este partido participou das coligações vitoriosas, tendo a esquerda enfrentado a aliança DEMOS-PSDB. Em Pernambuco, Rio Grande do Norte e Piauí, o núcleo dirigente das coligações vencedoras compunha-se pelo PT, PC do B e PSB, o PMDB - aliado de DEMOS e do PSDB - foi o principal adversário. Em todos eles, a esquerda venceu, o que tornou a Paraíba o único estado do Nordeste a não ter tido ainda a experiência de um governo de esquerda.

Os riscos de Ricardo
Como não se pode fazer política, especialmente a grande política, sem correr riscos, Ricardo terá que fazê-lo se quiser continuar sendo protagonista nos grandes acontecimentos da política paraibana. Apesar de que, entre os participantes dessa disputa, é o que está em situação mais confortável, tendo ele várias alternativas. José Maranhão, por exemplo, não tem o tempo como aliado, isto é, a idade, e é um político em fim de carreira. Por isso, considero que será candidato de todo jeito, especialmente porque conta com duas maquinas poderosas ao seu lado: a do Estado e a máquina partidária do PMDB; Veneziano, apesar de jovem, vive um dilema que está associado ao seu futuro político na cidade em que é prefeito: ele provavelmente não elege seu sucessor, pois não dispõe de um candidato forte para enfrentar o candidato do esquema dos Cunha Lima, em 2012, provavelmente o próprio Cássio Cunha Lima, numa guerra de vida ou morte para o ex-governador. Por isso, não acho improvável que Veneziano seja candidato em 2010 e, se depender de Maranhão, a vice. Já Ricardo tem muitas alternativas: ser candidato a governador, numa aliança à esquerda com PT e PCdoB, ou à direita com o cassismo; Ricardo pode ainda ser candidato a senador, na chapa de José Maranhão, alternativa que deve provocar calafrios no ex-governador Cássio Cunha Lima; ou simplesmente, Ricardo pode concluir sua administração em João Pessoa, reeleger seu sucessor, e esperar 2014. Com tantas alternativas, Ricardo pode fazer livremente sua pré-campanha para governador, pois, em qualquer das circunstâncias, ela terá sido útil a qualquer das suas alternativas políticas.

Entretanto, caso vigore as articulações em curso e Ricardo constitua uma aliança com os Cunha Lima e seja derrotado por Maranhão, seu futuro político corre sério risco. Primeiro, porque Ricardo ficará sem cargo público por quatro anos, a não ser que se candidate a vereador, em 2012. Segundo, uma derrota em 2010 colocará em cheque a eleição do seu sucessor, em João Pessoa, sendo óbvio que Maranhão tentará derrotá-lo a todo custo e, dependendo das alianças de 2010, com a contribuição de Cícero Lucena. Veneziano, sem a concorrência de Ricardo, assumiria a condição de sucessor natural de Maranhão, para provavelmente enfrentar Cássio Cunha Lima, em 2014.

Os riscos são enormes. As possibilidades também.

Na próxima postagem, argumentarei porque acho que Cássio sairá do PSDB.

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