terça-feira, 24 de abril de 2012

Carta ao PT e aos petistas


Filiei-me ao PT há 15 anos atrás, em 1997. Antes, havia militado no PCdoB, partido no qual entrei ainda adolescente nos estertores da Ditadura Militar, em 1984, e no qual militei por dez anos, quando me afastei por divergências na condução do partido. Portanto, minha vida política e partidária sempre foi na esquerda, quando abracei as causas que sempre considerei as mais generosas não apenas para o povo brasileiro, mas para a humanidade.
Ainda secundarista, enfrentei os mais ardorosos debates sobre alianças partidárias. No PCdoB, fui acusado por petistas de traição de classe por defender a chamada Frente Democrática que elegeu Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, o que pôs fim a 21 anos de Ditadura Militar.

Nessa trajetória pós-ditadura, ainda vi o PT se recusar a assinar a Constituição de 1988, que muitos iriam defender quando o neoliberalismo chegou ao poder nos anos 1990; vi ainda muitos petistas se engalfinharem numa luta interna denunciando outros petistas por defenderem – vejam só! – uma aliança com os comunistas do PCdoB. 

Veio 1989 e o Lula-lá tomou conta do Brasil, apaixonando sua juventude que abraçou a causa das reformas sociais e econômicas que representava a candidatura de Lula, amparada numa coligação de esquerda que envolvia o PT, o PSB e o PCdoB. Só. Desses partidos nasceu uma maiores movimentos de massa da história brasileira. Milhões de brasileiros foram às ruas, reproduzindo o que acontecera na campanha pelas Diretas, Já e, depois, pela eleição de Tancredo Neves. Dessa vez, defendendo um programa de reformas de esquerda que chamávamos à época de “estruturais” que jamais voltaram a constar nos programas de Lula. 

Paradoxalmente, durante o ano de 1989 e nos seguintes, a esquerda entraria em crise: queda do Muro de Berlim, fim da URSS, ascensão de uma nova direita mundial que empunhava a bandeira do neoliberalismo, “globalização”. Essa intensa mudança, como não poderia ser diferente, provocaria desorientação política e crise ideológica. Muitos na esquerda deram crédito ao veredito do “Fim da história” e imaginaram a eternização da sociedade liberal e da hegemonia americana. 

O PT foi um dos partidos que mais foi atingido por essa onda conservadora, mas ela permitiu que o PT depurar-se e amadurecer sua verdadeira “vocação” como partido. Da confusão inicial dos primeiros anos da década de 1990, o PT evoluiu lentamente para um neokeynesianismo de esquerda e, abandonando a retórica do socialismo, que nunca foi definido até hoje com clareza, o PT abraçou o “desenvolvimentismo com distribuição de renda”, projeto que, necessariamente, se ampara na ampliação das bases sociais e políticas da nova aliança. 

Já no PT, eu ainda lembro a cara feia dos remanescentes da esquerda petista olhando com cara feia para a indicação do grande empresário José Alencar para a vice de Lula, que durante os oito anos foi mais à esquerda e mais corajoso ao defender o corte de juros do que os acomodados em seus cargos membros da “esquerda petistas”, um dos fundamentos do receiturário neoliberal que Lula manteve intocado até a crise de 2008, quando – Lula é mesmo um homem de “fortuna”! – abriu-se uma oportunidade histórica para finalmente dar início à transição para um novo modelo de desenvolvimento, que Dilma Rousseff herdou como principal tarefa de governo.

Eis uma narrativa que pretende resumir a trajetória do PT e o sentido dessa organização partidária hoje. O PT continua sendo um partido de esquerda, tanto no sentido que o termo adquiriu após a Revolução Francesa, de 1789, quanto na imposição estratégica defensiva da crise de fin de siècle, iniciada depois de 1989, exatos 200 anos depois. Continua de esquerda porque, hoje, todo “Neokeynesianismo” é de esquerda, orientado por projetos de distribuição de renda, de controle sobre o capital rentista, e de soberania.

Infelizmente, aqui na Paraíba, alguns petistas entenderam essas mudanças políticas na trajetória do PT como o fim das fronteiras que separavam a esquerda da direita e passaram a agir orientados unicamente pelo pragmatismo político. Desesperados por entrar no jogo do poder, mesmo que fosse pela porta dos fundos, engalfinharam-se numa luta fraticida em defesa de interesses externos ao partido, dividindo-o, imobilizando-o, tornando o PT uma caricatura de partido, desmoralizando sua tradição e sua história. 

Jamais compreenderam o que estava em jogo e o que dava sentido à existência do PT, não por conta de uma disposição ideológica desse ou daquele dirigente, mas por conta da base social que é o que dá suporte à existência de qualquer partido. É claro que a Direção Nacional do PT é sempre mais “permissiva” quando se trata de estados mais “periféricos” como a Paraíba. É fácil imaginar a resposta de Lula a uma proposta de Paulo Maluf para uma troca de apoio em cidades importantes de São Paulo. Mas, o PT da Paraíba também tem história e é de origem primordialmente urbana.

Ao invés de, na Paraíba, afirmarem um projeto e uma aliança de centro-esquerda, como, aliás, acontece em todo o Nordeste, se jogam nos braços do PP, um partido mais que conservador, de direita, um legítimo representante do latifúndio e do agronegócio. Participar com o PP de alianças políticas é uma coisa. Outra é tê-lo encabeçando-as.

E para não me taxarem de “esquerdista”, digo logo que as alianças na Paraíba devem comportar os partidos mais ao centro, se possível confluindo para o PT como partido aglutinador, como aconteceu com o PSB, só que, nesse caso, com adversários nacionais do governo Lula, o que tornou impraticável uma aliança em 2010, mesmo considerando ser um PSB um partido do “núcleo duro” da aliança nacional lulista. 

Essa é uma carta que representa uma desistência, uma derrota, uma descrença com os destinos do PT na Paraíba. Desfilio-me do PT depois de 15 anos de filiado, quando acompanhei derrotas e, finalmente, pude viver a alegria que foi eleger Lula em 2002. E, com todos os percalços e limitações de uma base tão ampla quanto necessária para sustentar um governo sob o fogo cerrado da grande imprensa e das elites econômicas. Percebi no decorrer dos últimos 10 anos o amadurecimento do projeto em andamento, que se encaminha para alcançar, com a lentidão com que sempre são feitas as mudanças no Brasil, sempre graduais como Lula percebeu desde cedo, os objetivos de um desenvolvimento econômico e social ancorado num projeto de nação. 

Eis o desafio histórico que a atual direção do PT da Paraíba jamais levará em consideração. Saio do PT, mas permaneço um ardoroso apoiador desse projeto.

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