segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A vitória de Cartaxo: além das contingências


A vitória de Luciano Cartaxo, do PT, promoverá importantes mudanças no quadro das disputas eleitorais do estado. A primeira delas é que o PT ascende à condição de força política com capacidade de interferir de maneira mais direta não apenas nos arranjos das composições políticas, mas nos rumos das disputas.

Até 2012, o PT foi um partido periférico na política paraibana, atuando e se mantendo na órbita dos partidos hegemônicos, fato que o levou a uma divisão interna permanente. O que dividiu o PT até o segundo turno de 2012 não foram divergências políticas de fundo, mas a acomodação dos seus vários grupos nas franjas do poder, ora do cassismo, ora do maranhismo, ora do ricardismo.

E essa situação tornou o PT paraibano um caso quase que único no Nordeste, onde a influência do “Lulismo” se apresenta de maneira mais consistente e numa região que, a cada eleição, demonstra desapego pelas lideranças tradicionais. Em 2010, muitas dessas lideranças foram derrotadas: Marco Maciel, em Pernambuco, Tasso Jereissati, no Ceará, o “carlismo”, na Bahia, todos eles pertencentes ao bloco nacional de oposição a Lula.

Na Paraíba, José Maranhão foi outra liderança que, mesmo pertencente ao bloco de apoio a Lula, foi engolida pelos ventos da ascensão de uma nova geração política, que, talvez, seja expressão de um novo tipo de eleitor. Parecer mais do que ser jovem na política consolida-se como um atributo definidor do voto, especialmente quando se tem como adversários representantes de outras gerações mais velhas. 

E em João Pessoa, nós tínhamos uma conformação no quadro de candidatos que ajudou muito a construção dessa polarização entre “jovens” e “velhos”. De um lado, Maranhão e Cícero Lucena representavam uma espécie de “tradicionalismo” político no estado. E Estela e Cartaxo, a “nova geração”, como se 2012 fosse uma continuação de 2010.

Por mais passível de questionamentos, essa divisão não é arbitrária em termos políticos . Não nesses casos, porque essa dicotomia não envolve questões ideológicas. Ela implica um novo discurso e uma nova maneira de fazer política, um desafiador esforço de entender uma mudança em pleno andamento. 

Tanto que Estela e Cartaxo só não disputaram o segundo turno porque a ascensão da candidata do PSB aconteceu de maneira tardia. Maranhão não agregou muito mais além do as pesquisas indicavam desde 2011, e Cícero Lucena, em especial, foi incapaz de ampliar sua votação, seja por razões pregressas, mas ainda bastante presentes na lembrança do eleitorado, mas, especialmente, por representar uma força política decadente no Nordeste. Quando Lucena foi para o segundo turno a eleição estava decidida antecipadamente.

E dessa mudança garacional que PSB e PT são os principais herdeiros no Nordeste, porque são eles os principais protagonistas dela. Foram de seus quadros que emergiram as principais lideranças na política nordestina nos últimos anos, que souberam expressar no discurso e na ação uma região prenhe de mudança. Eduardo Campos, Jacques Wagner, Marcelo Deda, Wellington Dias, Cid e Ciro Gomes, são nomes que representam essa nova geração de políticos nordestinos que protagonizaram esse amplo movimento de renovação política no Nordeste. 

Ricardo Coutinho foi capaz de traduzir esse sentimento em 2010, mas seu governo não é expressão dessa mudança, sendo, em muitos aspectos, conservador. Gostemos ou não, Luciano Cartaxo entra para esse seleto grupo de lideranças nordestinas, mas será só a partir de sua gestão na PMJP que será possível designar se esse projeto criará raízes e se expandirá para o resto do estado. RC está deixando a chance escapar. E Cartaxo?

Eu lembro desses fatores para não esquecermos que, além daqueles de ordem contingencial que marcam qualquer processo eleitoral, é no quadro dessas mudanças que devemos buscar explicações para vitórias eleitorais, tanto a de RC, em 2010, como a de Luciano Cartaxo, em 2012. 

No caso desse último, Cartaxo foi capaz de agregar à sua candidatura a boa avaliação da gestão de Luciano Agra e o anti-ricardismo difuso no eleitorado, mas principalmente, dos setores organizados na capital, especialmente nos servidores públicos. Mas, a sua vitória de Cartaxo vai além desses elementos conjunturais.

Quem não entender essas mudanças, que são da sociedade nordestina, será incapaz de traduzir em termos políticos o que acontece hoje na Paraíba e no Nordeste. 2010 já tinha dado o seu recado. 2012 não apenas confirmou, como expandiu os protagonistas dessa mudança, tirando de RC a primazia de sua liderança. E se ele não alterar os rumos do seu governo, pode pagar caro por isso. 

O PT tem sua chance. Vamos ver se o partido aproveita.

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