quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A entrevista de Cássio Cunha Lima: Um retumbante vazio de idéias

A entrevista coletiva de ontem que o ex-governador Cássio Cunha Lima concedeu para anunciar seu futuro político criou uma expectativa do tamanho de uma montanha. O jornalista Rubens Nóbrega, numa breve troca de mensagens, me provocou: a montanha acabou parindo um rato?

Antes de expor minha resposta a Rubens, que ele fez referência em sua coluna de hoje, vale uma sucinta análise da entrevista concedida e acompanhada com vivo interesse por aqueles que observam o quadro político paraibano que se forma com vistas as disputas de 2010.

Um retumbante vazio de idéias

O primeiro fato que merece comentário é o malabarismo retórico do ex-governador para se posicionar diante de alguns fatos que expôs, em tom de denúncia, e com os quais ele não parece não ter a menor responsabilidade em aprofundá-los para, se for o caso, debelá-los (problemas com transporte de estudantes, com programas sociais, perseguição política, nepotismo).

Isso ficou patente quando uma repórter perguntou se ele pretendia encaminhar ao Ministério Público as denúncias que estavam sendo feitas. Cunha Lima, aparentemente surpreso diante de uma pergunta tão pertinente para quem manifestou preocupações tão republicanas, tergiversou se limitando a dizer que eram de conhecimento público o que ele estava dizendo. Ora, um ex-governador deve saber mais do que ninguém os procedimentos recomendados nesses casos se as preocupações são mesmo orientadas para o aperfeiçoamento dos serviços do Estado prestados ao cidadão comum, “aquele que mais precisa”.

O vazio das denúncias expõe o vazio de idéias do ex-governador, mostrando algo mais: as férias nos EUA aparentemente serviram apenas para o Cunha Lima conhecer, entre outras coisas, os parques de diversões de lá – o que ele fez muito bem, principalmente na companhia dos seus filhos -, mas, ao que parece, lhes foram de pouca serventia para preencher sua cabeça com novas idéias. Cássio continua tão Cássio quanto antes, como salientou Rubens Nóbrega em sua coluna de hoje.

Diante de um quadro como o descrito pelo ex-governador, valeria a pena que ele fizesse, pelo menos, algumas incursões programáticas e oferecesse algum indício a respeito do que ele pensa de um projeto novo e alternativo. O que ouvimos, ao contrário, foi um discurso carregado com as velhas frases de efeito que não empolgam nem os mais apaixonados cabos-eleitorais, numa retórica que também não convenceu ninguém: nada mais fora de lugar do que Cássio Cunha Lima empunhar a bandeira do novo e do alternativo.

José Maranhão controla a justiça paraibana?

Uma outra “denuncia”, essa mais grave que qualquer outra, foi a de que existe uma perigosa “concentração” de poderes em andamento na Paraíba atribuída ao atual governador, que controlaria o Poder Executivo e, também, o Judiciário. Nesse último caso, pela influência que parece exercer sobre seus pares a esposa do governador José Maranhão, a desembargadora Fátima Bezerra.

Essa denúncia não é nova, mas agora foi reafirmado com muito mais ênfase em várias cadeias de rádio, que transmitiam ao vivo a entrevista. Nesse caso, o pior é nos defrontarmos com os ouvidos de mercador daqueles que foram colocados sob suspeita, ou seja, toda a corte paraibana. De duas uma: ou Cunha Lima tem razão, pois o silêncio dos magistrados denotaria uma verdade subterrânea a que o governador teve acesso, ou ninguém na Corte está preocupado com a imagem de independência do Poder Judiciário paraibano. Alguém, especialmente um ex-governador, acusa o judiciário de parcialidade e envolvimento em um projeto político e fica por isso mesmo?

Por fim, e o mais risível de tudo o que aconteceu ontem durante a entrevista, excluindo o comportamento padrão dos repórteres que se sujeitam a puxar o saco do entrevistado como se fossem cabos-eleitorais, foram os esforços do ex-governador em tentar evitar perguntas sobre definições políticas, como se a imprensa presente tivesse para ali se dirigido apenas para transmitir um comício ao vivo. Faltaram as risadas quando ele afirmou que a única pessoa que só pensa em 2010 atualmente é o governador José Maranhão. Cássio não só pensa em 2010, como pensa em 2014.

De concreto mesmo se levarmos em consideração apenas o que foi dito durante a entrevista, é que a indefinição política permanece, principalmente a respeito da candidatura do senador Cícero Lucena. Abaixo, a mensagem que enviei para Rubens Nóbrega ontem, cujo foco está voltado para o comportamento de Cícero Lucena depois que Cássio Cunha Lima anunciou sua permanência no PSDB e a disposição de unir toda a oposição na Paraíba.

Um Cavalo de Tróia chamado Cássio?

Vamos ver a reação de Cícero, pois é para ele que essa armadilha está preparada. Se Cássio permanece no PSDB, o martírio de Cícero continua e ele vai permanecer com a espada da indefinição da candidatura pendendo sobre sua cabeça, pois o ex-governador reafirmou a disposição de unir "toda a oposição" e "toda a oposição" é a senha para inserir a candidatura de Ricardo Coutinho. Ou seja, a permanência de Cássio é como uma espécie de Cavalo de Tróia para a candidatura de Lucena. Acho que na hipótese de Cunha Lima permanecer mesmo no PSDB (ainda restam 3 dias para a data fatal), o principal objetivo será esvaziar a candidatura de Cícero, tornando-a inócua, ou "matá-lo" pelo cansaço. Nos dois casos, Lucena será o grande perdedor, e se Serra não se elege presidente, não lhe restará outra alternativa a não ser esperar seu mandato acabar.


Resta a Cícero Lucena, para evitar esse destino mais que previsível, forçar o rompimento com Cássio Cunha Lima para que ele possa, finalmente, se firmar como candidato a governador. Depois disso, como estratégia de campanha inicial, Cícero pode colar seu nome no do presidenciável José Serra e buscar os votos antilulistas de parte da classe média paraibana que, somado aos seus votos pessoais, pode constituir um bom patamar para iniciar uma campanha. Se o senador não levar em conta que é o seu futuro que está em jogo e continuar marcando passo, esperando uma definição de Cássio a seu favor, ao final desse processo (lá pra março ou abril do próximo ano), ele tem uma grande chance de ser mais uma vítima do fenômeno da "cozetização", e se desfigurará politicamente até virar cinza.

O único movimento que resta no tabuleiro das definições sobre 2010 é o de Cícero Lucena. E ele tem até 3 de outubro para executá-lo.

Vamos esperar.

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