segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Ricardo Coutinho e a aliança com a direita

Apesar da grande flexibilidade com que as alianças da esquerda passaram a ser tratada no Brasil depois da década de 1990, elas não deixaram e nem deixarão nunca de ter importância, especialmente para os partidos que a compõe demarcarem seus objetivos políticos, táticos e estratégicos, além de afirmarem suas diferenças com o conservadorismo. Quando isso deixar de acontecer, a esquerda terá acabado. Foi a ampliação das alianças da esquerda em direção ao centro que, em grande medida, mas não só por isso, viabilizou a vitória de Lula em 2002. Mas, com a vitória de Lula não se extinguiram os adversários, muito menos as diferenças de projetos de nação. Muito pelo contrário, em tempos de "globalização" e dos esforços perpetrados pelo capital financeiro de diminuir a capacidade regulatória dos Estados-nação na antiga periferia do sistema, esse confronto ganhou novos contornos e criou novas bases para a política de aliança da esquerda. A questão nacional é o principal referencial para aglutinar amplos setores da sociedade e em várias partes do mundo, especialmente na América Latina, é a esquerda que lidera essas alianças.

Falar nesses termos nos dias de hoje, ou seja, reafirmar a importância da ideologia na ação política, parece algo totalmente fora de lugar. Os pragmáticos de esquerda e direita comemoram juntos o "fim das ideologias" e se abraçam em alianças sem princípios. Pura pregação ideológica. Já me referi aqui, neste blog, mais de uma vez ao que é chamado na academia de “fim da política”, fenômeno que esteve associado durante um bom tempo à idéia de pensamento único, e expressava algo parecido com a falta de alternativa às políticas econômicas e sociais do neoliberalismo, enfim, daquilo que separou, durante um bom tempo, em termos políticos e ideológicos, a esquerda da direita.

Quando pensamos não existirem mais tais diferenças chegamos ao estado de fim da política, pois esta sempre se fundou, no mundo moderno, isto é, após a Revolução Francesa, no embate de idéias que dividiu a política e os partidos políticos entre aqueles que, genericamente, defendiam mudanças em benefício dos mais pobres, os trabalhadores, e aqueles que defendiam a conservação do status quo.

Essas diferenças, obviamente, não se extinguiram - bem como a própria política – e, cotidianamente, elas teimam em se afirmar, pois tais diferenças não existem apenas no mundo das idéias, elas se refletem com força na vida das pessoas. Esses embates, especialmente na América Latina, ganharam novos contornos e, ouso dizer, tenderão a redefinir tanto as estratégias, como as políticas de alianças, bem como a própria base social da esquerda. Depois da ascensão de Hugo Chaves, na Venezuela, e das sucessivas vitórias de "chavistas" como Evo Morales, na Bolívia, Rafael Correa, no Equador, Daniel Ortega, na Nicarágua e Manuel Zelaya, em Honduras, além das derrotas por pequena margem de votos de candidatos considerados chavistas, como Ollanta Humala (Peru), e Andrés López Obrador (México), sem esquecermos das vitória de partidos da esquerda, digamos, mais "tradicional", como Lula, no Brasil, Michelle Bachelet, no Chile, Cristina Kirchner, na Argentina, Fernando Lugo no Paraguai e Tabaré Vázquez, no Uruguai, é impossível não reconhecer que vivemos uma guinada à esquerda na América Latina, agora com novas características que distinguem esse novo momento do período marcado pela ascensão da esquerda no continente entre os anos 1950 e 1970.

Em todos esses países, foram derrotados os antigos defensores das políticas neoliberais e promotores da agenda imposta pelo Consenso de Washington através do Banco Mundial e FMI. Em todos eles, com mais ou menos intensidade, se reproduziu o confronto entre as antigas classes beneficiárias desse modelo de desenvolvimento, que envolveu amplos setores conservadores da classe média, em geral, influenciadas pelo preconceito de classe, e as populações pobres que não só deram suporte à emergência desse "nova" esquerda, como empurram esses governos para as reformas que há décadas eram apresentadas como necessárias e que, em muitos casos, como foi o caso do Brasil, e mais recentemente na Venezuela e Honduras, um golpe de Estado foi necessário para impedi-las.

Isso é uma novidade histórica sem precedentes, pois, finalmente, representou uma maioria consolidada que está permitindo mudanças dentro dos marcos institucionais. Apesar de todo tipo de questionamento feito pela imprensa conservadora, as mudanças que Hugo Chaves e seus seguidores estão promovendo se fazem no estrito respeito às Constituições e respaldadas por plebiscitos nacionais. Quer mais democracia do que isso?

No Brasil, esse confronto não foi às ruas, muito por conta da habilidade de Lula, mas também pela tendência histórica de se fazerem as mudanças "por cima", ou seja, sob o controle das elites econômicas, o que na sociologia é chamado de "modernização conservadora". Por enquanto, esse é um embate surdo, que se manifesta pela tendência constante da grande mídia em fabricar crises (a mais nova é a de Honduras, tentaram o ENEM, depois outra, e mais outra...). O conservadorismo dessa elite se manifesta e se aprofunda a ponto de, no caso do golpe de Honduras, serrar fileiras contra o governo do seu país num conflito internacional, onde a posição da diplomacia brasileira recebeu mais apoio da imprensa externa do que interna.

O que está em jogo, obviamente, é o aprofundamento das mudanças que não podem ser adiadas rumo a um amplo projeto de desenvolvimento cujo objetivo é, finalmente, distribuir renda e democratizar o acesso aos serviços públicos. Como a maior parte da elite econômica brasileira tem aversão, desde o processo de independência, a qualquer possibilidade de mudança que inclua nela os interesses populares, talvez vejamos esses embates se aprofundarem no Brasil, especialmente se Lula conseguir fazer seu sucessor e procurar aprofundar as mudanças que o Brasil, assim como toda a América Latina, necessitam.

Ricardo Coutinho e a aliança com a direita

Não é por outro motivo que não é só estranho, como insustentável politicamente, a postura do prefeito de João Pessoa, Ricardo Coutinho, de se compor na Paraíba com os adversários desse projeto nacional. As suas justificativas esbarram na fragilidade dos seus argumentos, por estarem única e exclusivamente centrados nos seus objetivos pessoais, que, apesar de legítimos, não podem subordinar os objetivos gerais da esquerda na Paraíba e no Brasil.

É obvio que contribui para essa falta de rigor estratégico na definição das alianças um pragmatismo exagerado, fechado exclusivamente nos interesses pessoais e de grupo, que vai além da flexibilidade necessária na construção dessas alianças, uma exigência do fazer político. Entretanto, é bom não esquecer, sempre em função de objetivos mais gerais desses partidos. Os partidos nascem para representar interesses socialmente determinados. Foi isso que sempre ofereceu sentido à política e despertou tantos interesses e paixões. Se a política se torna um mero jogo de interesses mediado apenas pelos interesses de indivíduos e grupos (políticos e familiares), quem acaba ficando de fora é quem deveria ser o principal sujeito da política e árbitro dos embates políticos e ideológicos quando se trata de eleições, o eleitor, o povo.

Porque, sem critérios que distingam o papel de indivíduo e partidos no interior de cada projeto político, como se as alianças tivessem apenas o objetivo de acomodar interesses distintos na ocupação do aparelho de governo, é justo que devamos considerar como um fato o fim da fronteira que separa os partidos e seus projetos de poder, se justificando pensarmos que a política chegou mesmo ao fim. Entretanto, a disputa política e as diferenças entre esquerda e direita voltam a cobrar, com toda a força, o posicionamento daqueles que pertencem, pelo menos na retórica, ao campo da esquerda. O que representa um incômodo para esses que não querem ser cobrados a respeito de alianças que só se justificam pela sanha indisfarçada e puramente individual pelo poder.

Por conta disso, se justifica perguntar se faz algum sentido político a união de Ricardo Coutinho com Cássio Cunha Lima e Efraim Morais, os dois últimos não apenas pertencentes, mas figuras dirigentes, de dois partidos de direita e que não apenas fazem oposição ao projeto nacional da esquerda, mas aglutinam o que há de pior na sociedade e na política nacionais. Além disso, haveria algum sentido falar em renovação política e em projeto alternativo quando estamos prestes a ver, compondo o mesmo palanque, Ney Suassuana, Enivaldo Ribeiro, Biu Fernandes, Ricardo Barbosa, Manuel Ludgério, Carlos Dunga, figuras proeminentes do conservadorismo político, que, devido a posição de destaque que ocupam nas articulações da candidatura a governador de Ricardo Coutinho, são a própria negação de qualquer projeto de mudança na política paraibana?

Ricardo Coutinho, isso ele já demonstrou em diversas oportunidades, tem uma visão um tanto messiânica de si próprio. Talvez ele ache que, sozinho ou com seu "Coletivo", consiga implantar qualquer projeto de mudança no Estado desconsiderando as alianças. Basta que tenham o poder nas mãos. Apesar de ser essa uma visão de forte apelo popular - os exemplos de messias da política existem para demonstrar o quanto é errado apostar no voluntarismo político, e Fernando Collor é o exemplo mais trágico de uma farsa recente da política nacional -, não há espaço para se realizar, porque o jogo político é um jogo de correlação de forças sociais, é uma disputa que exige o amplo envolvimento da sociedade. O improvável governo de Ricardo Coutinho assumiria, queira ele ou não, as feições dos seus aliados, pelo motivo óbvio de Coutinho governará com eles, e, ao invés de avanço, teríamos retrocesso.

Prefiro acreditar que Ricardo Coutinho, o antigo esquerdista que, quando era petista, chegou até mesmo a questionar a legitimidade das alianças do PT até com os próprios partidos de esquerda, a exemplo do PCdoB, que nos anos 1980 construíram sólida aliança com o PMDB, tenha sido envolvido pela idéia de que, hoje, o pragmatismo não tem limites, e as idéias e os projetos de poder não são nada mais do que objeto de um retórica carcomida em que ninguém mais acredita. É só isso que explica uma mudança tão brusca e repentina de aliados.

6 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns pela análise qualificado sobre o que é ser esquerda, hoje. Longe dos localismos provincianos e do esquerdismo fácil.

ed porto disse...

Caro Flávio Lúcio,

infelizmente RC crê que o pragmatismo político não tem limites. Oxalá as urnas o demovam deste messianismo. Abs. Ed Porto.

MARCONI disse...

QUEM JÁ FEZ ALIANÇA COM JOSÉ MARANHÃO, PODE FAZER ATÉ COM O DIABO AGORA.

olhosdonorte disse...

A foto ficou muito bem posta. Outra coisa interessante é ver como os Cunha Lima, de um Ronaldo que veio do nada, hoje representa essa manutenção do status quo.
O discurso de Ricardo, de que faz alianças em torno de projeto e compromissos pessoais, algo que já passou pela boca de Cassio e Ronaldo dias desses, pode ser a expressão desse pragmatismo.
É bom dizer que esta disputa está ligada a disputa nacional e americana, mas nesse sentido é bom lembrar que ricardo é esquerdista, mais pelo sua passado e sua ação que pelo partido que está. Haja vista as alianças do PSB pelo país. Isso justifica até certo ponto a aglutinação em torno de Ricardo, e sua figura ser um dos elementos para melhorar a posição do PSB no quadro nacional.
A aliança de Ricardo com essas figuras é paradoxal. É necessário ter estrutura e apoio político, mas a que custo? A custo de uma cozetização? Ricardo virar uma Cozete...
A aliança de Ricardo com Maranhão era mais uma barreira contra a onda verde do que uma aliança de esquerda. Maranhão sabe que um dia Ricardo iria querer andar sozinho, mas parece que Ricardo está se perdendo no andar sozinho.
Em meu blog uma pesquisa que faz quase um mês, as 68% dizem que votaria em Ricardo mesmo que se alie a Cassio. Se que nao vale muito, mas....mostra como a pessoas veem a situação fora desse quadro pintado por este blog.

Anônimo disse...

Esta aliança espúria, põe a nu o pragmatismo de Ricardo Coutinho, para quem, pouco importa a opiníão pública que a condena energicamente. Ele aposta em última instância, na força das campanhas de marketing que a MIX desenvolveria. Isto, aliado ao carisma em declínio dos Cunha Lima, seriam suficientes para catapultar sua candidatura a governador. Ledo engano. A tática messiânica que Ricardo manipula, já se agastou sensivelmente com a falácia do tal "Orçamento Democrático", aplicado em sua gestão. O povo saía de suas casas no início da primeira gestão, acreditando-se protagonista de um novo estilo de governar. Porém, ao perceber que ao invés da rua calçada que havia aprovado no orçamento,veria a construção de um minicampo de futebol, percebeu que suas prioridades não estavam sendo respeitadas e retirou-se da cena farsesca. Era visível observar o esvaziamento das assembléias no início do ano em curso. Não fosse pelo pessoal comissionado que trabalha no apoio logístico, não daria ninguém. Uma pena. Algo que deu certo em vários lugares desse país afora, a exemplo de Porto Alegre e Aracaju, morreu de inanição porque o alcaide não apostou num processo gradual e contínuo de educação das massas e preferiu, celebrar alianças de conveniência nos moldes da "Realpolitik. Só um mergulho, imediato e corajoso, do prefeito Ricardo num processo de autocrítica, é capaz de salvá-lo de um iminente eclipse da liderança que lhe resta.

Eziel disse...

Cabeção, parabéns pela brilhante análise. Ajudou muito na organização de meu pensamento. Concordo com você: a continuidade, com aprofundamento das mudanças, do governo Lula é a prioridade em 2010. Como disse Simão na conferência do PCdoB, não há como a Paraíba ir bem se o Brasil for estiver mal. Também concordo com você sobre o messianismo de Ricardo. Na conferência do PCdoB ele disse que o que importa na aliança é quem dá o rumo político. Ou seja, tem a ilusão de que os aliados conservadores não influenciariam num futuro governo. O próprio governo Lula é uma prova da influência da aliança. As reformas estruturais não avançaram devido ao peso relativamente limitado da esquerda dentro da coalizão governista.