quinta-feira, 25 de março de 2010

Armando Abílio e o PTB: existe limite para a incoerência política?

A MÃE DINAH DA POLÍTICA PARAIBANA REVELOU O DESTINO DE MUITOS POLÍTICOS, MENOS O SEU PRÓPRIO

O deputado federal Armando Abílio gabava-se em cada entrevista que dava de ter sido o PTB o primeiro partido a acreditar no projeto político de eleger o prefeito Ricardo Coutinho governador da Paraíba, e de ter sido ele próprio a antecipar o apoio que o ex-governador Cássio Cunha Lima daria a esse projeto. Isso há mais de dois anos atrás.

Repetiu à exaustão aquilo que se tornou quase um bordão, tentando inverter a seu favor a ironia de adversários que o apelidaram de “Mãe Dinah” por querer prever o futuro político de Cássio Cunha Lima quando este ainda era governador. Mãe Dinah foi (ou é) uma vidente que ganhou notoriedade por tentar fazer previsões na TV, especialmente a respeito da vida das chamadas “celebridades”.

A mais conhecida delas foi a previsão de que Ayrton Senna venceria, em 1994, o GP de Ímola, na Itália. Entretanto, ao invés de carregado nos braços da torcida, Senna saiu do autódromo naquele trágico fim de semana dentro de uma ambulância, agonizando depois de um grave acidente que o levaria à morte.

Convenhamos que predizer que Senna venceria um grande prêmio dirigindo o melhor carro da Fórmula 1 à época não era mesmo grande coisa. Mas, a vidência tem dessas coisas. Das muitas previsões que ela faz, se apenas uma se realiza, é essa que ganha notoriedade e esquece-se as muitas outras que o acaso não permitiu que se efetivasse.

No início dessa semana, a Mãe Dinah paraibana surpreendeu novamente a todos/as fazendo o seu partido, depois de mais de 3 anos celebrando o prefeito de João Pessoa como a maior liderança da Paraíba, aderir ao principal adversário daquele que outrora tinha sido a menina dos seus olhos. Não sei se Abílio refez suas previsões sobre quem será o futuro governador da Paraíba, afinal suas previsões tinham prazo de validade e iam até a fase das definições das candidaturas.

Mas é certo que Ricardo Coutinho, por conta desses mistérios de finais tão previsíveis que marcam a política paraibana, já não habita mais o coração daquele que tornou-se, depois do prefeito de João Pessoa, o mais ardoroso defensor da democracia participativa, modelo que o PTB adotou com afinco e propagandeou por todo o estado como uma política mudancista.

O ex-tucano Abílio, e hoje lulista de carteirinha, finalmente havia compreendido a diferença entre democracia representativa e democracia participativa. Pelo menos teoricamente. E para não ficar como um peixe fora d’água, ou um passageiro fora do “coletivo”, Abílio também começou a chamar, mesmo os jornalistas que lhe entrevistavam, de “companheiro”! Tinha mesmo se tornado uma metamorfose ambulante o companheiro Abílio...

O homem era de uma fidelidade tão canina ao ricardismo que deve ter chegado a causar comoção no duro e pouco sensível coração de Edvaldo Rosas, certamente deixando nele uma pontinha de saudade daqueles tempos em que Rosas podia elogiar, sem que ninguém desse uma risadinha às escondidas, a forma altruísta como Abílio defendia a causa da Paraíba. Eu mesmo nunca entendi como um político com tantos anos de estrada, e com aquelas qualidades reveladas, tivesse passado de mim despercebido.

No seu afã ricardista, como o cristão-novo que deseja ser mais realista que o rei, o atual presidente do PTB conseguiu o que foi considerado um feito pela imprensa cassista: para consolidar a aliança do PTB com o PSB, Abílio chegou mesmo a convencer o até então mais ferrenho opositor no partido à tese da aliança com Ricardo Coutinho, ninguém mais ninguém menos que o suplente de senador Carlos Dunga!

Entretanto, nem bem 2010 havia começado, ao invés da comoção, alguns ricardista começaram a ficar foi com a pulga atrás da orelha. Armando Abílio começava a engrossar a voz, a dar petelecos na mesa, a estabelecer condições.

Ao mesmo tempo em que fazia isso, negava de pés juntos e com o terço nas mãos que ele ainda preserva dos tempos do Seminário, que não conversava com José Maranhão e que a única coisa que lhe interessava era o PTB. Mas, como bom cristão que é, Abílio só confessaria suas incursões pelo reduto maranhista a um padre. Mesmo assim, começou a insistir em indicar o vice da chapa do PSB, quando ele e toda a Paraíba sabiam que aquele lugar já tinha dono. Para Armado Abílio era a vice ou nada, que era uma maneira mais elegante de dizer "a bolsa ou a vida".

Dunga não percebeu, mas na verdade o que Abílio dizia era "Dunga ou Maranhão". Porque, olhando para o barco que, pela sua lógica, começava a fazer água, o presidente do PTB precisou que alguém entrasse nesse jogo para fazer o seu jogo. E de repente, Abílio, sempre pensando no PTB, escala Carlos Dunga.

E, convenhamos, Dunga agiu como se espera de um Dunga, não o técnico da Seleção Brasileira a quem eu idolatro pelo simples fato dele ter dobrado a Rede Globo e a língua de Galvão Bueno, que tentaram derrubá-lo por não ceder aos seus caprichos e regalias, mas ao Dunga da Branca de Neve, o simpático anãozinho cuja ingenuidade está expressa na face bochechuda.

Armando Abílio atraiu Dunga para fazer o seu jogo de pressão sobre Ricardo Coutinho. E ele tinha todas as qualidades que se exigia de um vice. É de Campina Grande? É. É fiel escudeiro do grupo Cunha Lima? É. Dispõe-se a ser candidato a vice-governador? Desde 1994. Com todas essas qualidades, e mesmo sendo (tirando Ricardo Barbosa, é claro) o mais cunhalimista dos cunhalimistas, o nome de Carlos Dunga só tinha um defeito, nesse caso, fatal: o de não ter Cunha Lima no sobrenome.

Mas, mesmo assim, em nome da unidade do PTB, “das oposições” e "para o bem da Paraíba" lá foi Dunga para a fogueira que Armando Abílio já havia encomendado. E se o presidente do PTB tivesse dito como fazer ele não teria feito tão bem. Primeiro, aceitou dar um ultimato a Ricardo Coutinho: o PTB só esperaria até depois do carnaval, bradaram ele e Armando Abílio. E o Mago se fazendo de morto, já sabendo que perderia o PTB.

Até hoje eu não entendi porque Ricardo Coutinho aceitou fazer o jogo de Armando Abílio. Ora, se o jogo era esse mesmo, bastava ele anunciar bocejando o nome de Carlos Dunga e deixava com Cássio Cunha Lima a tarefa de convencê-lo a retirar a candidatura mais à frente, “em nome da unidade das oposições”. Abílio não teria o que dizer, o PTB continuaria onde o seu presidente sempre desejou que o partido estivesse e ele, Abílio, teria que arranjar um outro álibi para aderir a José Maranhão.

Coutinho, entretanto, manteve-se calado e Carlos Dunga, provavelmente sem combinar com Cássio Cunha Lima, que provavelmente passou o carnaval” twittando”, cumpriu o script: renunciou solenemente, com carta e tudo, à uma candidatura que nunca existira, a não ser na cabeça dele e nos planos de Armando Abílio, que, com o trocadilho intencional, armou direitinho para, um mês depois, anunciar que estava se entregando nos braços de José Maranhão, sem exigir nem vice, nem vaga para o senado, a não ser o que brevemente será revelado, além daquilo que não pode ser.

Digo a todos vocês: eu pensava que tinha já assistido de tudo na política paraibana, mas essa mis en scéce que o deputado federal e presidente do PTB Armando Abílio brindou a todos nós vai marcar época na política paraibana. E é também provável que em nenhum momento a Paraíba tenha assistido a tamanho espetáculo de completo desprezo pelo debate de idéias, de completo desdém no trato dos alinhamentos políticos, que não resistem à mínima distância do poder.

A trajetória do PTB nos últimos 3 anos e o corolário do anúncio do apoio do partido ao governador José Maranhão talvez seja o mais expressivo exemplo do que se tornou a política paraibana, que, com as ressalvas necessárias, tornou-se um caminho aberto para políticos medíocres (de direita e de esquerda) assumirem papéis relevantes na política paraibana. E é desse ambiente marcado pela ausência de escrúpulos que eles tiram seu oxigênio para levar à frente seus projetos, que são tão medíocres quanto são suas trajetórias.

Quanto a Armando Abílio, ele poderia nos brindar com uma última previsão antes de abandonar definitivamente a alcunha de "Mãe Dinah:"que previsão ele faz para o seu próprio futuro político?

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