quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

As chances de Cícero

Cícero será figura-chave na eleição de 2012
O senador Cícero Lucena viveu um calvário em 2010. No ano em que pretendia finalmente ser candidato a governador presenciou seu maior pesadelo virar realidade.

Do submundo dos boatos, Lucena viu emergir com toda força a dolorosa realidade onde até as mais profícuas amizades são atropeladas pelo cálculo político: o aliado das muitas batalhas políticas travadas juntos desde 1990, Cássio Cunha Lima, a quem não cansava de chamar de “irmão”, não apenas aderiu à candidatura do maior adversário político, Ricardo Coutinho, como levou o próprio partido que era presidido por Lucena a apoiar seu desafeto.

Abandonado, isolado e desautorizado, Lucena refugiou-se na campanha para presidência para acompanhar de longe a eleição de RC para o governo que, num último esforço, tentou evitar apoiando publicamente o candidato do PMDB, José Maranhão, so segundo turno.

Como desgraça pouca é bobagem, Lucena ainda viu o grande aliado José Serra, até o início de 2010 favoritíssimo para a Presidência da República, ser derrotado mais uma vez, agora por Dilma Rousseff, até bem pouco tempo a desconhecida candidata de Lula. 


Derrota que foi também de lideranças nacionais do partido, especialmente no Nordeste, que também atingiu o PSDB com uma redução drástica da bancada do partido no Congresso.

Definitivamente, 2010 será um ano a ser esquecido para Cícero Lucena. E RC pretendeu  que o pesadelo cicerista continuasse depois que tomou posse. Depois de passar com o trator pilotado por Cássio Cunha Lima por cima do senador tucano em 2010, RC, como quem come o prato frio da vingança, foi tirando-lhes os aliados mais próximo: o deputado estadual João Gonçalves e, para deixar queixos no chão e mostrar que tudo se tornou possível na política paraibana, Hervázio Bezerra, também amigo, líder na Câmara de Vereadores e Secretário de Lucena quando este fora Prefeito. Bezerra não apenas deixou de ser vereador para tornar-se deputado, mas também líder do governo do PSB! Para os descrentes, os bois estavam voando nos céus paraibanos!

Mas, em política, assim como na farmacologia, como bem sabe o governador, doses excessivas de remédio podem se tornar veneno. E o povo começou a enxergar as chagas de Lucena expostas – e RC com o chicote na mão. E quanto mais descontentes o governador gerava, mais simpatizantes Cícero Lucena começou a arrebanhar.

E, ironia das ironias, o tucano, desmoralizado nas últimas eleições por Ricardo Coutinho em João Pessoa, começou a ser saudado como o anti-Ricardo exatamente nas ruas da cidade que antes o antipatizava. Mais ainda: uma parcela expressiva dessa população começou a desejar vê-lo retornar ao cargo de Prefeito, que ocupara por oito anos antes da ascensão de RC.  Ricardo, ao tentar destruir de vez Cícero, deu o impulso que lhe faltava para renascer.

Limites e possibilidades da candidatura de Cícero Lucena

Hoje, Cícero Lucena é candidatíssimo. Hoje. Esse detalhe é importante porque o discurso dos dois principais candidatos de oposição, o próprio Cícero e José Maranhão (depois trataremos aqui da candidatura do ex-governador peemedebista), parecem estar em compasso de espera para ver qual estratégia adotar quando tiverem que decidir de verdade seus destinos em 2012: se ambos saem candidatos ou compõem-se numa aliança.

Tudo depende daquilo que alimenta seus passaportes eleitorais: o desgaste de RC. Caso o governador consiga frear a perda de popularidade, é difícil dizer se os dois manterão suas candidaturas.

Nesse caso, o mais provável é que se componham e com Maranhão na cabeça da chapa, já que o peemedebista, além de maior capacidade de ampliação, pessoalmente está obrigado a arriscar tudo em 2012 para recobrar o prestígio perdido em 2010. E JM não tem muitas oportunidades pela frente. 


O horizonte para Cícero Lucena também não é muito alvissareiro. Em 2014, quando enfrentará o imenso desafio de se reeleger para o Senado e encontrará imensas dificuldades para realizar esse projeto, caso a aliança Cássio-Ricardo se mantenha. Mas Cícero não tem ainda o limitador da idade como Maranhão.

Entretanto, caso o governador mantenha altos níveis de rejeição ao seu governo, os dois serão candidatos a ocupar o espaço reservado à oposição nessa disputa. E Cícero Lucena terá pela frente a oportunidade de testar sua liderança e passar por um teste eleitoral que finalmente confronte sua administração de oito anos com os oito anos de gestão do PSB.

Cícero tem a vantagem de ser considerado o candidato ideal para os ricardistas, já que eles consideram que a gestão do PSB é superior em realizações e avanços se comparada com a do tucano.

Além desse ponto, existe o debate, digamos, “ético”, que deve ter um grande peso nessa eleição. Lucena tem contra si diversas acusações de corrupção, muitas por se provar, é bem verdade, e uma imagem marcante que pode ser devastadora numa campanha: a prisão realizada pela Polícia Federal durante a chamada Operação Confraria.

Nesse campo, Cícero Lucena equilibrou o jogo depois das várias denúncias de corrupção contra a Prefeitura de João Pessoa, especialmente no rumoroso Caso Cuiá. 


Se esse campo da disputa for explorado e se tornar o centro dos debates eleitorais em João Pessoa, o que é mesmo provável que aconteça, teremos um lamaçal a escorrer para dentro das casas dos eleitores em pleno horário nobre, o que torna difícil prever a reação deles.

Legitimarão a disputa ou procurarão outras alternativas? José Maranhão e Luciano Cartaxo vão esperar para ver o que sobre para eles desse embate.

Nesse aspecto, a candidatura de Cícero Lucena é peça-chave nessa disputa, pois ela permitirá um contraponto em vários campos com o ricardismo, mas de resultados imprevisíveis. 


O Senador pode ser beneficiário do desgaste das administrações ricardista, mas pode sucumbir diante da exposição de suas fragilidades eleitorais. Para saber se uma coisa ou outra, Lucena terá que pagar para ver.

A maior dificuldade de Lucena reside no caso de uma eventual ida para o segundo turno contra a candidata ricardista. Terá, com certeza, o apoio de José Maranhão, mas, sendo do PSDB, é mais do que improvável que este receba o apoio do PT, que aderirá, mesmo a contragosto do grupo oposicionista, a Estelizabel Bezerra. 


A unidade da oposição, nesse caso, estaria quebrada. Num quadro assim, o fundamental será o desempenho eleitoral dos candidatos de oposição que não forem para o segundo turno e a conjuntura eleitoral criada imediatamente após essa eleição.

Enfim, Cícero Lucena tem o campo aberto de incertezas e possibilidades. Resta saber o quão ele está disposto a se arriscar.

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