terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A miragem da candidatura de Nonato Bandeira

Ilhado no PPS e sem o aval de Luciano Agra, Bandeira foi novamente preterido
 Conheci Nonato Bandeira ainda quando éramos estudantes durante minha curta passagem pelo curso de Comunicação da UFPB. Eu era um afoito calouro. Bandeira, um veterano, ao lado de um célebre grupo que incluía, entre outros colegas, Derval Golzio, hoje professor, meu amigo e colega de UFPB, e Luiz Henrique, apelidado pelos dirigentes da universidade à época de “chapéu de couro, atualmente jornalista em Goiás.

Os três compuseram o maior, mais amplo, mais provocativo e mais inteligente grupo de anarquistas que conheci na vida.

Por isso mesmo, aglutinou em torno deles uma míriade de estudantes oriundo de várias matizes, entre eles os à época proclamados comunistas, como o hoje advogado Marcos Alves (Marquinhos), Eder Dantas, hoje professor no curso de Pedagogia da UFPB, e Antônio Radical, hoje professor de história da Rede Pública e conhecido dirigente do PSTU da Paraíba, todos seduzidos pelos encantos autogestionários de um movimento estudantil que acabara de sair da ditadura e começava a se defrontar com outros inimigos menos visíveis.

Na liderança intelectual desse grupo pontuava Nonato Bandeira, cuja verve irônica e sagaz era mais destruidora e difícil de combater do que o discurso chapado de trotskistas ou paratrotskistas, como Coriolano Coutinho, ainda estudante de Administração, e seu irmão, já funcionário da UFPB.

O ano de 1987 foi o “ano de ouro” do anarquismo na UFPB: o grupo transformou o CA (Centro Acadêmico) de Comunicação numa “autogestão” e, no final do ano, o próprio DCE (Diretório Central dos Estudantes), que seria presidido por mim no ano seguinte. 1987 foi também o ano em que entrei para o curso de Comunicação para, dois anos depois, migrar definitivamente para o de História, desencantado com o futuro trabalho de jornalista onde a ausência do exercício da liberdade intelectual é a marca da profissão, a não ser para raros jornalistas.

Nonato Bandeira terminou o curso e ingressou no mundo. Os sonhos descompromissados do jovem anarquista deram lugar ao pragmatismo da luta pela sobrevivência. Nonato se transformara em jornalista e, no Correio da Paraíba, sua inteligência e sagacidade seriam logo aproveitas.

Algum tempo depois, folheando um exemplar do Correio, deparei-me com um sugestivo título de um artigo na página de opinião do jornal: “Viva a imprensa burguesa!” Logo abaixo, a autoria: Nonato Bandeira, que saudava no seu corrosivo texto a liberdade de imprensa sem citar os donos dela, obviamente. Bandeira abandonara o Anarquismo e resolvera fazer política, no sentido pleno do que isso significa.

Nonato candidato

 
A ascensão à condição de super-secretário que Nonato Bandeira tem hoje acompanhou a ascensão política do seu chefe, Ricardo Coutinho, como, aliás, de todo o “Coletivo”. Mas, com um detalhe: Bandeira é, de longe, o mais perspicaz e inteligente assessor de RC, e por isso pode ensaiar voos próprios, mesmo com limitada capacidade de manobra.

E, se isso pode ser considerada sua principal qualidade, pode ser também sua desgraça. Bandeira é um ótimo “operador político”, mas, ao que parece, sua atuação não o permitiu ir além disso. Bandeira foi decisivo, por exemplo, na estratégia que primeiro levou RC à Prefeitura e, depois, ao Governo do Estado. E isso não apenas por dentro da imprensa.

Foi ele o principal defensor no interior do “Coletivo” da aliança com Cássio Cunha Lima, quando boa parte do agrupamento torcia o nariz para ela, colocando seu pescoço na guilhotina naquela que era uma operação de alto risco, mas que resultou na vitória que catapultou RC à condição de principal protagonista político da Paraíba, ao lado de Veneziano Vital. Nesses momentos-chave, qual a contribuição de Luciano Agra ou Estelizabel Bezerra?

Entretanto, mesmo com todas esses relevantes serviços prestados, Nonato Bandeira foi preterido por duas vezes seguidas. A primeira, na reeleição de RC, quando este indicou Luciano Agra para vice, mesmo sabendo de suas limitações políticas. Agora, na sucessão de Agra, Bandeira novamente viu seus projetos irem para o ralo quando Eslelizabel Bezerra foi ungida candidata do governador e do prefeito de João Pessoa.

Duas vezes preterido, não é a toa que Bandeira insiste em espernear, mesmo sabendo de suas limitadas chances. A não ser que tudo mude, ou seja, RC mude de opinião, o Secretário de Comunicação do governo tem reduzidas chances de assumir a condição de candidato situacionista. E eu passo a levantar a seguir alguns motivos.

O primeiro, é a indisposição de RC. Na origem disso, existem alguns aspectos que transcendem as desconfianças do governador em relação a Bandeira e que se localizam, de uma lado, na capacidade de agregação do candidato do PPS, bem como na estratégia eleitoral que RC monta.

Quanto ao primeiro aspecto, é relevante ressaltar que Nonato Bandeira conta com a firme oposição do prefeito Luciano Agra, seu adversário dentro do “Coletivo”, ao seu nome. E isso, por si só, é um óbice cujas dificuldades de superação parecem intransponíveis.

Esse conflito entre Agra e Bandeira se desenrola desde a primeira administração ricardista na prefeitura e chegou ao seu ápice na definição do candidato a vice-prefeito na eleição de 2008, quando Luciano Agra venceu a “disputa” no interior do Coletivo. Nesse aspecto, considero que Agra engoliria qualquer coisa, menos Nonato Bandeira candidato. E trata-se de ninguém menos que o prefeito da cidade, que renunciou à disputa da reeleição em nome do “projeto do PSB”.

Um outro aspecto relevante a depor contra a candidatura de Nonato Bandeira são suas dificuldades de ampliar o arco de apoio de sua eventual candidatura. Sendo do PPS, partido de oposição ao governo Dilma e ao PT, Bandeira candidato anularia a possibilidade de ter o PT como aliado, não apenas no primeiro, mas também no segundo turno.

E se o candidato a ser enfrentado no segundo turno for José Maranhão, do PMDB, as chances de um candidato do PPS ter apoio do PT numa disputa para prefeito de capital seriam ZERO. E, numa disputa que promete ser acirradíssima, esse apoio pode ser decisivo, inclusive se vier no pacote a presença no palanque do hoje carequinha Lula.

É bom lembrar que o PPS não faz oposição apenas ao governo Dilma – aliás, uma oposição mais enfática do que a que fazem PSDB e Dem, – mas ao de Eduardo Campos, em Pernambuco, estado originário das duas principais lideranças do PPS, Roberto Freire e Raul Jungmann, ambos deputados federais.

É por esse motivo que o PPS, sem a candidatura de Nonato, tende a apoiar inclusive o oposicionista Cícero Lucena, por mais que esperneiem os cassistas alojados no partido. Bandeira pena também por ter sido alojado fora do PSB e num partido de oposição.

Uma terceira e última dificuldade para Nonato Bandeira é quanto ao perfil do candidato. Estelizabel Bezerra é considerada “técnica” e mulher; Bandeira é “político” e, numa eleição que tende a ser dominada por homens, não agrega muito ser mais um deles. A estratégia ricardista, além da defesa da administração atual, é centrar o debate na história e nas características pessoais dos candidatos.

Enfim, Bandeira deve se contentar com o papel que tem hoje na política e na administração, que, aliás, não é pequeno. Sua insistência em manter a candidatura o fragilizará ainda mais diante do governador e do “coletivo”. Resta-lhe retira-la imediatamente para estancar o “fogo amigo” e depois abandonar o PPS, um partido da nova direita brasileira.

Nonato Bandeira não tem asas para um voo próprio por um outro motivo, este bem mais simples: sem Ricardo Coutinho, o que sobraria dele, afinal? Nesse caso, até Armando Abílio conseguiria adivinhar o futuro de Bandeira. Longe dele, de preferência.

Um comentário:

Anônimo disse...

Vc apenas esqueceu de dizer que era o único oportunista da turma do CA de Comunicação. È tanto que você fez o CA regridir para o presidencialismo!