sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

As chances de Maranhão

Maranhão: o novo contra o "moderno"?
Existem vários motivos para que parte da estratégia ricardista se concentre em tentar polarizar a disputa para prefeito de João Pessoa entre a sua candidata, Estelizabel Bezerra, e o Senador do PSDB, Cícero Lucena – estratégia que Lucena corrobora porque lhe beneficia.

O primeiro deles é esvaziar outras potenciais candidaturas, especialmente a do ex-governador José Maranhão.

No esforço de escolher seus adversários, Estelizabel Bezerra, assim como já tentara fazer Luciano Agra, praticamente desconhece em suas entrevistas e declarações o candidato do PMDB, como se fosse natural desconsiderar um candidato que parte com 20% das intenções de voto.
Isso sem ter feito lá grande esforço. Ao contrário. Maranhão passou mais da metade do ano passado fingindo-se de morto e fugindo propositadamente da imprensa, e só colocou as orelhas de fora (ou o bigode, mais protuberante), quando, oxigenado pelas pesquisas, começou a notar que o sangue voltava a correr em suas veias de político.

Assim como fizera com Cícero Lucena, RC ressuscitara José Maranhão, ex-aliado e que tornou-se seu principal antagonista da eleição de 2010. Isso apenas tentando desconstruir no início do governo a imagem de bom administrador que, mito ou não, Maranhão soube cultivar durante suas passagens pelo governo estadual, erro que também cometeu Cássio Cunha Lima ao assumir o governo em 2002.

Foi assim que RC caiu em sua própria armadilha. Se Cícero Lucena é seu maior adversário em João Pessoa, no imaginário do eleitor pessoense Maranhão ainda o é no plano estadual. E não é por outro motivo que são os dois os maiores beneficiários do desgaste que o atual governador amealha em sua impopularidade crescente.

Especialmente em João Pessoa, que concentra a maior parte do funcionalismo público estadual. Como bom cristão novo, RC faz questão de renegar suas crenças anteriores para afirmar seu novo credo.

E isso ele faz com o ardor dos novos convertidos para que seus pares ideológicos não tenham dúvidas de qual é sua nova religião – e, para que ninguém se apresse em empreender um tom religioso ao dito acima, adianto que a metáfora é estritamente ideológica, mesmo que para muitos o liberalismo seja uma religião.

Mas, não foi só na confrontação com os servidores, cuja megalomania impede que o govenador enxergue o grave erro (político e administrativo) que comete, certamente emprestando seus ouvidos a essa turma de burocratas que infesta o governo na administração e nas finanças.

RC perdeu na opinião pública o primeiro embate, que, de tão simbólico, deve marcar não apenas o início, mas toda a obra ricardista: a “permuta” dos terrenos, onde ficou clarividente a opção oligárquica do seu governo – para os que pensam que oligarquia tem a ver apenas com coronelismo, como Jaldes Meneses bem lembrou em debate realizado pelo programa Polêmica Paraíba, do qual participei com ele e meu colega Derval Golzio: “oligarquia” é, etimologicamente, um governo de poucos.

Forma oligárquica que eu mesmo descrevi no meu livro Sudene e desenvolvimento sustentável:

“A indústria se fez [no Nordeste]. E, em vez dos antigos coronéis da cana-de-açúcar e do algodão, vestidos em seus casacos brancos, exercendo sua autoridade patriarcal, lustrosos empresários urbanos, metidos em seus ternos bem cortados, exercem, em associação com os capitais externos à região, um mandonismo impessoal tão implacável sobre governos e governados quanto o foi o poder dos antigos coronéis protegidos pelo poder familiar.”

Eis como um termo que sempre teve um uso quase unívoco ganha atualidade no moderno governo de RC. Só falta ele acusar seus adversários de “populistas”. Mas, isso é assunto para o fim do governo. Por ora, fiquemos na imprevisibilidade das disputas eleitorais que se avizinham.

Pois bem, assim como acontece com Cícero Lucena, Maranhão também extrai sua força eleitoral do desgaste ricardista. E a candidatura de Maranhão serve menos para o contraponto que RC quer fazer em 2012.

O embate no plano administrativo

Mesmo tendo governado a Paraíba por oito anos (1996-2002 e 2009-2010), José Maranhão não se desgastou como administrador. Seu desgaste provem da longevidade de sua liderança política e, claro, da idade, num ambiente político fortemente marcado por uma lógica cultural que valoriza de forma quase fetichista o “novo”.

Nas duas administrações que fez como governador, José Maranhão pode apresentar ao eleitor um portfólio das obras de seus governos. Além disso, deu continuidade e concluiu as obras de governos que sucedeu.

E, diferentemente do primeiro governo, quando manteve uma relação pouco amistosa e, por vezes, autoritária com os sindicatos de servidores e suas reivindicações, no segundo governo, Maranhão soube exercitar o diálogo e a negociação.

Certamente isso aconteceu devido a ampliação de sua base social de apoio, que passou a incluir sindicalistas por conta da aliança com o PT, o que destoa da postura arrogante e, como gosta de se referir a oposição, “imperial”, do atual governador, ele próprio originário do sindicalismo, o que se configura, para muitos, uma contradição incompreensível.

Além disso, Maranhão deu mostras de sua capacidade de administrar as finanças públicas em situação de crise. Tendo herdado apenas o “bônus” de pagar todos os planos de carreira aprovados no apagar das luzes do governo de Cássio Cunha Lima quando assumiu o governo no auge da crise de 2008-2009, Maranhão não tergiversou um minuto sequer em pagá-los, horando todos os compromissos herdados e, mais do que tudo, consolidados por ele.

Nem esse beneplácito é concedido a Maranhão pelos sindicatos de servidores ao ex-governador: ter sido ele o principal responsável pela efetivação e consolidação de uma conquista histórica para várias carreiras do serviço público estadual.

São aspectos que, apresentados aqui de maneira superficial apenas para dar suporte ao que o ex-governador peemedebista pode apresentar em seu favor no âmbito desse debate, compõem a trajetória administrativa de José Maranhão. Se serão transformados em trunfos ou não só o debate eleitoral pode dizer.

Enfim, se RC e o PSB buscarem uma comparação com Maranhão só poderá fazê-lo em termos estaduais, já que o ex-governador nunca foi prefeito de João Pessoa. E, nesse ponto, pelo menos por enquanto, RC perde feio.

O embate no plano ético

Não tenho conhecimento de nenhuma ação judicial que questione a idoneidade moral do ex-governador José Maranhão. Qualquer dúvida sobre isso não pode ter por base conjecturas ou presunções, muitas vezes fundadas no preconceito contra todo e qualquer político. Maranhão é honesto? Não tenho meios, claro, para responder com certeza que sim, mas também não tenho para responder que não.

Ou seja, diante do mar de lama que se aproxima, não ter nesse nenhuma acusação grave de corrupção no currículo, mesmo tendo assumido o governo estadual em três ocasiões, é uma vantagem inquestionável.

Senão, vejamos. Do que os ricardistas acusam Cícero Lucena? De ser o candidato da “Confraria”; em troca, recebem hoje um golpe que anula suas pretensões de continuarem sendo os guardiões da ética (alheia): há um rosário de suspeitas que pesam sobre a administração municipal e, pelo menos, uma certeza: os indícios de corrupção no Caso Cuiá se transformaram numa ação do Ministério Público contra a atual administração.

Nesse embate, Maranhão passa ao largo porque, principalmente em campanha, é recomendável não acusar os adversários sem prova. Ou seja, se o debate “ético” dominar a campanha, Maranhão, e também Luciano Cartaxo, podem colher os frutos de uma polarização ensaiada pelos dois outros candidatos, cujo debate sobre corrupção pode acabar não interessando, mas que pode se tornar inevitável.

A capacidade de ampliação no segundo turno

José Maranhão pertence ao PMDB, um partido central na aliança nacional do PT e no bloco de apoio ao governo da Presidenta Dilma Rousseff. Diferentemente, por exemplo, de Cícero Lucena, que é de um partido de oposição. O que estará em jogo num presumível segundo turno entre situação e oposição? Os votos do PT, se Luciano Cartaxo conseguir ser candidato.

A capacidade de agregar no segundo turno será um fator fundamental para manter os partidos de oposição unidos. Caso seja Cícero Lucena a ir para o segundo turno, como eu já afirmei aqui quando analisei as chances de Cícero, é quase certo que o PT, obedecendo a uma orientação nacional, apoie a candidata do PSB.

Mas, se for Maranhão, além do apoio inquestionável que receberá de Cícero Lucena, as chances do ex-governador receber o apoio do PT são muito maiores, a começar pelo discurso oposicionista que o PT empreenderá na sua campanha em João Pessoa.

Depois, ser de um partido da base de apoio a Dilma Rousseff ajuda no discurso dos que se opõem a RC no interior do PT. Além disso, tem a força nacional do PMDB, associadas às dúvidas do PT em relação a Eduardo Campos. 

Os problemas de Maranhão

Maranhão, entretanto, terá de superar o principal empecilho que o derrotou em 2010: sua longevidade política que o associa à condição de político “tradicional”.

Esse pode ser o principal óbice que Maranhão deverá enfrentar e transpor em 2012 e que, em grande medida, o levou à derrota em 2010.

Diante de um cenário cheio de possibilidades para a oposição pessoense, a dúvida que se mantém em relação à candidatura de Maranhão é se, num embate com Estelizabel Bezerra, o eleitor estará mais propenso a votar contra RC, em função do desgaste do governo deste, ou contra Maranhão, em função do desgaste da liderança do ex-g0vernador.

Essa é uma questão que só será respondida durante a campanha, quando os programas de TV entrarem no ar. Nessa, mais do que em qualquer outra, a TV terá uma serventia definitiva para esclarecer o eleitorado das dúvidas que certamente persistem. Dessa disputa “imagética”, José Maranhão poderá ser ressuscitado ou enterrado politicamente de vez.

Mas, essa não pode se tornar uma disputa entre marqueteiros. José Maranhão deve ter aprendido em 2010 que se marqueteiro fosse importante para definir uma eleição, elas terminariam invariavelmente empatadas.

É a política, é o bom senso político a principal arma do candidato para perceber movimentos que são alheios às pesquisas qualitativas. Maranhão não foi capaz disso em 2010, mas em 2012 ele pode ter uma outra chance se atacar RC naquilo que ele tem de mais frágil: suas ideias e sua consistência política.

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