sexta-feira, 14 de maio de 2010

José Serra não é mais o candidato tucano. É o candidato camaleão

A semana do candidato a presidente do PSDB-DEM, José Serra, começou com uma sacrificante entrevista para a Rádio CBN na segunda, às 8 da manhã. Como todos sabem, José Serra é notívago e costuma trocar as madrugadas pelas manhãs, o que o leva a acordar sempre mais tarde do que a maioria dos mortais comuns. Bom, isso é pra quem pode, é coisa para quem pertence a massa cheirosa do nosso país.

Na referida entrevista, ficou óbvio o esforço do candidato de, primeiro, não confrontar Lula e o seu governo – afinal, Serra é ou não o candidato da oposição? – e, segundo, afastar-se da pecha de neoliberal. Serra chegou mesmo a defender um "Estado musculoso". Sinal dos novos tempos ou um candidato acuado e sem discurso?


A entrevista, em primeiro lugar, pode ser definida, como disse Paulo Henrique Amorin, como uma série de levantadas para as cortadas de José Serra. Pensem num bando de entrevistadores cordeirinhos. Nenhuma objeção, nenhuma interrupção no raciocínio do candidato, nenhuma réplica mais crítica que tentasse, pelo menos, indicar alguma contradição nas respostas do candidato que, afinal, foram muitas. Mirian Leitão, por ser inoportuna com o novo perfil que José Serra quer emprestar à sua candidatura, chegou mesmo a ser espinafrada ao vivo. E ninguém a defendeu.


Quando, por exemplo, no início da entrevista, Lúcia Hipólito perguntou sobre como seria a relação de um improvável governo Serra com o movimento sindical, cujas principais centrais apóiam Dilma Rousseff, José Serra tentou demonstrar que, quando governador de São Paulo, tivera uma relação harmoniosa com as centrais, especialmente a CUT. Diante da abundância de fatos amplamente conhecidos para demonstrar ser essa afirmação no mínimo questionável, instada à réplica, Hipólito apenas balbuciou: "Não, está bem, está bem". Se fosse com Dilma Rousseff...


Depois, veio a pergunta a respeito da entrevista que Lula concedeu no domingo passado ao jornal espanhol El País, quando afirmou, entre outras coisas, que achava que não haveria chances do "PT perder as eleições" (Na entrevista, Lula justificou essa opinião). Ao invés de ironizar um presumível "salto alto" de Lula, Serra fugiu mais uma vez do confronto. Perguntado o que ele achava do que dissera Lula, Serra devolveu com uma nova pergunta:


- E o que mais ele disse?


O repórter não entendeu e passou a fazer referência a outras passagens da entrevista. Não era isso que Serra queria. E continuou:


- Ele disse uma outra coisa também importante..."


Heródoto Babeiro, o entrevistador, quis então saber que coisa tão importante era essa. E Serra não se fez de rogado:
- Ele [Lula] disse que qualquer um que ganhar não vai haver nada de anormal no Brasil. Literalmente. O que é uma afirmação importante, porque há um certo jogo quase que de terrorismo em dizer: 'não, se não ganha a candidata do Lula vai dar problema etc. e tal.'

José Serra, pelo jeito, reconhece que está nas mãos de Lula. E - que diria! - a opinião de Lula de que Dilma Rousseff não perderá a eleição não tem importância diante da declaração de que José Serra não representará o fim de sua obra. O problema é que Lula não é Serra nem o PIG. Ele não usa a política do medo para mostrar o passado que Serra representa. Só basta comparar. E dizer a verdade. José Serra estava olhando para o espelho e provavelmente estava lembrando de sua própria campanha, em 2002, quando tentou espalhar o medo contra o favoritismo de Lula. Lembram Regina Duarte no programa do PSDB? O vídeo abaixo vai refrescar a nossa memória.




Uma novidade: Serra agora se considera de esquerda...

Uma outra novidade desse entrevista é que o Brasil descobriu durante essa entrevista que José Serra agora é de esquerda. Diante da pergunta: "O senhor é um candidato de esquerda?" Serra, sem nenhum constrangimento, assim respondeu:

- Do ponto de vista da análise convencional do que é ser direita e esquerda eu diria que sim.

Surpreso, o entrevistador emendou: "O que é que o senhor entende por ser de esquerda?" E, não bastasse a surpresa da declaração de que o candidato do PSDB e do DEM se considerava de esquerda, mais surpreendentemente ainda foi a consideração a respeito do porquê ele assim se considerava.

... E defensor da intervenção estatal na economia, do desenvolvimento nacional e da justiça social

- Sou de esquerda porque defendo um projeto de desenvolvimento nacional pro Brasil. De repente passou a ser uma heresia falar-se em projeto de desenvolvimento, em ativismo governamental. Eu defendo um Estado forte, não obeso, mas musculoso, no sentido de ter capacidade para ativar nosso desenvolvimento, os mecanismos de justiça social. E vou estar sempre comprometido até o fundo da alma com dois setores da nossa população, que são os trabalhadores e os desamparados.

Quando eu escutei tentei redobrar a atenção para saber se era mesmo José Serra, ex-ministro do de FHC e hoje a maior liderança do PSDB quem falava. Por um momento, imaginei estar escutando outro candidato. Mas não. Era Serra mesmo.

E para confirmar isso, em seguida, provavelmente aqueles que estavam ouvindo a entrevista talvez nunca tenham presenciado tamanha agressividade, tamanho desprezo, tamanha descortesia para com um jornalista. Não, não foi com Paulo Henrique Amorim, nem com Luiz Nassif, nem muito menos com Franklin Martins. Foi com ninguém mais ninguém menos que Mirian Leitão, a voz do mercado financeiro e, portanto, a voz do PSDB. Fiz questão de transcrever abaixo esse rico diálogo, que fala por si só do quanto incomoda a Serra a identificação com o neoliberalismo.

Mirian Leitão começa:

MÍRIAM LEITÃO: Bom, A grande dúvida na economia é se o senhor vai respeitar a autonomia do Banco Central. O senador Sérgio Guerra já disse que o senhor mudaria a política cambial e monetária, depois tentou se explicar, mas ficou essa dúvida no ar. A dúvida também é por declarações suas feitas no passado e por declarações feitas agora também. A sensação que se tem é que, se por acaso o senhor for eleito, vai ser também o presidente do BC. Queria saber isso...

JOSÉ SERRA: Isso é braçadeira, né?

MÍRIAM LEITÃO: Ahn?

JOSÉ SERRA: É brincadeira que eu, eleito presidente da República, vou ser presidente do BC. É preciso não me conhecer. Quem faz um rumor assim é (por) falta de assunto, desejo de criar outros problemas.

MÍRIAM LEITÃO: O senhor respeitará a autonomia do BC?

JOSÉ SERRA: A questão dos juros, a questão do câmbio… Ninguém, em sã consciência, pode defender a posição de que, quando há condições para baixar a taxa de juros, o BC não abaixa, (e que isso) está certo. Isso não significa infalibilidade. A questão do tripé famoso que veio do governo passado que, se não me engano, fui eu até que apelidei de tripé (câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e meta de inflação) veio para ficar. Não baixar os juros num contexto em que não tinha inflação simplesmente foi um erro. As pessoas que conhecem melhor, mesmo dentro do mercado financeiro, sabem disso. Agora, se alguém se assusta porque eu acho que a taxa de juros deve cair quando a inflação está caindo, quando tem quase deflação, é porque tem uma posição muito surpreendente do ponto de vista dos interesses do Brasil. Por outro lado, a mesa da economia brasileira, que estava no chão, eu ajudei a erguer. Todo mundo que me conhece sabe que eu não vou virar a mesa coisa nenhuma.

MÍRIAM LEITÃO: Mas a dúvida é exatamente esta. Quando o senhor fala que foi um erro do BC, se por acaso o senhor for presidente da República...

JOSÉ SERRA: Espera um pouquinho!

MÍRIAM LEITÃO: Deixa eu completar a minha pergunta.

JOSÉ SERRA: Espera um pouquinho! O Banco Central não é a Santa Sé! Você acha isso, sinceramente, que o Banco Central nunca erra? Tenha paciência!

MÍRIAM LEITÃO: Governador, deixa eu fazer a minha pergunta...

JOSÉ SERRA: Agora, quem acha que o Banco Central erra é contra dar condições de autonomia e trabalho ao Banco Central? Claro que não. Agora, de repente, monta-se um grupo que é acima do bem e do mal, que é o dono da verdade… e qualquer criticazinha já vem algum jornalista, já vem o outro, e ficam nervosinhos por causa disso. Não é assim. Eu conheço economia, sou responsável, fundamento todas as coisas que penso a esse respeito. E, a esse propósito, você e o pessoal do sistema financeiro podem ficar absolutamente tranquilos que não vai ter nenhuma virada de mesa.

MÍRIAM LEITÃO: Governador, deixa eu fazer a minha pergunta que eu não consegui completar. A questão não é se o BC é infalível; ninguém é. Mas se o senhor, quando se deparar com um erro do BC, caso seja presidente, ficará apenas com sua opinião ou vai interferir. A questão não é a taxa de juros.

JOSÉ SERRA: Imagina, Míriam, o que é isso? Mas que bobagem! O que você está dizendo, você vai me perdoar, é uma grande bobagem! Você vê o BC errando e fala: Não, eu não posso falar porque são sacerdotes. Eles têm algum talento, alguma coisa divina, mesmo sem terem sido eleitos, alguma coisa divina, alguma coisa secreta tal que você não pode nem falar: Ó, pessoal, vocês estão errados. Tenha paciência!

E então o próprio candidato encerra a participação de Mirian Leitão, que continuava do outro lado da linha: "Vamos adiante?", disse Serra. E o apresentador, meio perplexo, obedece a ordem: "Vamos..."

José Serra é mesmo o dono do PIG.

Sobre essa questão, é importante registrar aqui que se tem um setor no governo Lula que não avançou foi a política monetária, especialmente por conta da manutenção da autonomia de fato do Copom (Comitê de Política Monetária), cujos membros, como disse Serra, continuam sendo sacerdotes dos quais ninguém pode discordar. Nem mesmo o presidente, o que é um absurdo antidemocrático sem tamanho. Um grupo de tecnocratas ligados ao mercado financeiro com autonomia para determinar a política de juros de uma nação inteira, ou seja, a remuneração que o próprio capital rentista extrai do Estado, em detrimento dos investimentos produtivos.

Entretanto, é bom também lembrar, que talvez José Serra tenha sido a única liderança do PSDB, pelo menos publicamente, a expressar essa opinião nos últimos 20 anos. Desde então e até hoje, a questão da autonomia do Banco Central foi o dogma mais persistente e pernicioso para a economia nacional pois é ela a principal responsável pela principal herança maldita que FHC deixou para Lula e os brasileiros, que é da dívida pública. Dogma, diga-se de passagem, criado pelo próprio PSDB durante o governo FHC (que José Serra fez parte) e defendido ardorosamente pela grande imprensa e mantido mesmo após a falência desse modelo no ano passado. Não é a primeira vez que Mirian Leitão exprimiu essa opinião, mas é foi a primeira vez que José Serra ou qualquer outro membro do PSDB se posicionou contra ela.

E José Serra faz isso porque tem certeza que contará com, no mínimo, o silêncio da grande imprensa para defender o que defendeu, mesmo contra as suas convicções, como realmente aconteceu. Porque foi essa imprensa quem forjou e deu suporte a um "consenso" em torno desse tema, não abrindo espaço para um debate nacional consistente. Lembram como José Alencar, o vice de Lula, foi tratado por essa mesma imprensa quando criticava os persistentes aumentos de juros? O próprio Lula, mesmo defendendo a queda dos juros, preferia não se pronunciar para não sofrer as críticas que Alencar esteve sempre exposto.

Há dias atrás, por exemplo, o Copom determinou um aumento injustificado de 1% na taxa de juros do país. Só esse aumento deve provocar um gasto adicional para o Estado, através do aumento da dívida pública, de mais de 10 bilhões de reais. O que se viu foi um silêncio total e um defesa velada da decisão do Copom. Muito diferente do tratamento dado, por exemplo, ao aumento dado aos aposentados, denunciado como aumento dos "gastos públicos".

Quem sempre criticou essa política no Brasil? A esquerda que, mesmo no poder, não teve forças suficientes para derrubá-la. Já o PSDB de Serra não só a implantou, como fez de sua existência um dogma. Pelo menos o candidato do PSDB ajuda a romper esse cerco e debater a questão de maneira franca e aberta, já que o PIG não vai criticá-lo, seja qual for a posição que ele tomar na campanha, sabendo que é tudo discurso para ajudar a elegê-lo.

A estratégia de Serra, ao que parece, é criticar o PT e sua candidata pela esquerda para fugir da pecha que engoliu a candidatura de Geraldo Alckmin em 2006. Portanto, ele não tem para onde correr. Se ficar, o bicho pega; se correr o bicho come!

Só falta agora Serra dizer que é o candidato de Lula!

Para ver e ouvir José Serra espinafrando Mirian Leitão clique no vídeo abaixo.


13 comentários:

Gilson disse...

Serrinha Paz e Amor está incomodando, hein?

Gilson disse...

Vêm aí "pesquisas" Vox Populi e Sensus. Não valem nada.

Gilson disse...

40% dos pequenos municípios "pesquisados" pelo Vox Populi aparecem na lista pela terceira vez consecutiva. Isto é totalmente contra as normas técnicas de pesquisas de intenção de voto.

Gilson disse...

Na cidade de São Paulo, o Vox Populi "pesquisa" sempre os mesmos bairros, procedimento que contraria as normas técnicas.

Gilson disse...

Dilma passa Serra. Na realidade? Não, no universo paralelo chamado Vox Populi e Sensus.

Gilson disse...

Em 2006, véspera do 1º turno, o Vox Populi dava 33% a Alckmin. Ele teve 41%.

João Paulo disse...

#XupaSerra Agora é Dilma!

heliojampa disse...

O problema de Serra não está no que ele diz e sim no que ele não diz. Já que voce citou ele como camaleão, é importante dizer que o bichinho com a cabeça diz que sim, e com o rabo diz que não.
Na verdade o homem é bom de teoria, mas de prática um horror.

NAZA DO PT disse...

Elio Gaspari, articulista foi o criador da expressão "privataria" que traduz um dos maiores escândalos da história brasileira e isso irrita os tucanos, os verdadeiros golpistas e entreguistas de nosso patrimonio.
É normal que seus seguidores, os homens bombas de merda se manifestem com ataques igualmente rasteiros. É o fim deles, basta só um empurrãozinho.
Parabéns Professor.

Gilson disse...

As "pesquisas" Vox Populi e Sensus são tão sem credibilidade que sequer foram mencionadas pelo dono deste blog. Onde estão os foguetes? Cadê os rojões? Nem vocês acreditam.

Gilson disse...

No Sudeste, o Vox Populi dá Dilma um ponto à frente. No Sensus, é Serra quem está à frente, por sete pontos. A farsa foi mal combinada.

Girassol disse...

Gilson pertubado... Hahaha...

Anônimo disse...

Que pesquisa tão fajuta! Serra cai oito pontos em um mes no Sudeste e Dilma permanece com os mesmos 44 pontos no Nordeste.