terça-feira, 25 de maio de 2010

RICARDO COUTINHO E LAMPEDUSA: MUDAR PARA DEIXAR AS COISAS COMO ESTÃO

Há meses, o mundo - e o submundo - da política paraibana debate qual será o destino do PT nas eleições 2010 na Paraíba. Um debate inútil desde quando Rodrigo Soares elegeu-se presidente do PT. Quando o último voto foi colocado nas urnas do PED (Processo de Eleições Dietas), realizado no final do ano passado para eleger a nova direção do PT paraibano, o destino do PT foi definido com a eleição não apenas de um novo presidente, mas de uma sólida maioria que vem reafirmando, a cada oportunidade em que é chamada a decidir, a linha de apoio ao projeto de reeleição do governador José Maranhão. E com um candidato do PT na vice.

Desse debate, tornaram-se comuns especulações a respeito da possibilidade do PT romper com o PMDB e aderir ao projeto cassista-ricardista. Na esteira disso, o deputado federal Luís Couto é sempre chamado a dar declarações quando surgem boatos de que ele pode vir a ser candidato na chapa majoritária governista. E Luís Couto, ao agradar esses segmentos da imprensa tranqüilizados com a manutenção do seu afastamento do PMDB, aprofunda o buraco que ele cava para si próprio.

Ricardo Coutinho e Lampedusa: mudar para deixar as coisas como estão

Portanto, em relação às especulações a respeito da possibilidade do PT vir apoiar Ricardo Coutinho eu afirmaria, com convicção, que as chances de que isso possa acontecer são próximas de Zero. A não ser que degringolassem as negociações do PT com o PMDB para a constituição de uma aliança nacional para presidente, que é o suporte principal contra as investidas do PSB para reverter a posição do PT na Paraíba.

Mas, mesmo que isso viesse a acontecer, o mais provável é que o PMDB paraibano mantivesse a posição de apoio ao PT para presidente, como aconteceu nas duas últimas eleições, apoio que, em nenhuma das vezes, foi rejeitado pela ala petista-ricardista, muito pelo contrário. O apoio de José Maranhão foi saudado como avanço, diferentemente da de Cássio Cunha Lima, que preferiu nas duas vezes marchar ao lado dos adversários do projeto de poder petista.

Aliás, essa mesma ala liderada por Luís Couto foi quem inviabilizou a candidatura a prefeito de Ricardo Coutinho em 2000, segundo as palavras do próprio ex-prefeito de João Pessoa à época.

E tudo isso, segundo Coutinho, por conta de uma proposta de casamento que o grupo de Luís Couto e Júlio Rafael ("Judas" Rafael, lembram?) receberam do próprio Cássio Cunha Lima, que que começaria como um namoro nas disputas para a prefeitura de Campina Grande naquele mesmo ano de 2000, quando o PT indicou Cozete Barbosa para ocupar a vaga de vice na chapa cassista, e terminaria em núpcias na eleição seguinte, em 2002, quando os paraibanos elegeriam um novo governador.

E, ironia das ironias, o pomo da discórdia que levou à renúncia de Coutinho à condição de candidato a prefeito foi exatamente a indicação de Walter Aguiar como candidato a vice, indicação feita pelo grupo de Luís Couto. O mesmo Walter Aguiar que foi anunciado dias atrás como o coordenador do programa de governo do hoje candidato pelo PSB, Ricardo Coutinho. O mesmo Walter Aguiar que continua filiado ao PT.

Isso tanto é uma prova de como a política dá mesmo muitas voltas como do quanto Ricardo Coutinho despreza e desrespeita os partidos e suas direções. Nisso, ele foi mais uma vez aluno aplicado do cassismo.

Mas, tudo isso pode indicar algo mais. Que o canto de sereia cassista, apesar de senil, parece ainda muito sedutor para algumas pessoas. Tanto que Luís Couto caminha, às cegas e enfeitiçado, no convés de um navio em noite de tempestade. E sem preocupar-se em cair no mar revolto.

O canto inebriante salpica-lhe doces notas nos ouvidos de padre e Couto não resiste à tentação. Repete Adão no Paraíso. E a mesma maçã que lhe é oferecida hoje é a mesma que já foi oferecida a Ricardo Coutinho dois anos atrás, e pela qual o ex-prefeito de João Pessoa abandonou tanto seu paraíso político como seu futuro promissor. Em breve, viverá em meio aor mortais comuns, como Adão preferiu viver, sobrevivendo com o suor do próprio rosto.

Não só Luís Couto poderia ter recusado a maçã, como poderia estar ancorado com seu navio em terra firme, com o PT unido em torno dele e, de quebra, com o apoio de Lula, Dilma e José Maranhão, para iniciar uma tranqüila viagem rumo ao Senado. Ao contrário, Couto prefere a lengalenga cassista-ricardista a apostar no futuro, onde o PT poderia ter seu lugar conquistado, assim como acontece hoje em todo o Nordeste.

De maneira diversa, prefere a companhia pouco recomendável de Efraim Moraes e do Dem, e recusa a de antigos companheiros que o ajudaram a conquistar os mandatos de deputado que até hoje conquistou, honrando com sua atuação as tradições do PT e as bandeiras da esquerda.

Luís Couto e seu grupo não perceberam ainda que a candidatura de Ricardo Coutinho é a expressão mais legítima da máxima que Tomasi de Lampedusa imortalizou através dos seus personagens, o Príncipe de Salinas e Tancredi, seu sobrinho, em diálogo imortalizado nas páginas de O Leopardo: "Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude". Tancredi havia aderido às tropas do republicano Giuseppi Garibaldi, que lutava pela República e pela unificação italiana, sendo, portanto, expressão de modernidade, do novo. O Príncipe de Salinas mantinha-se aferrado às tradições aritocráticas da dominação familiar. Convencido de que a mudança era inevitável, o Prícipe adere à nova ordem para mantê-la conservadora.

Só com a vitória de Ricardo Coutinho os Cunha Lima continuarão a ser o que eles sempre foram: um grupo familiar disposto a tornar o Estado e suas instituições a extensão dos seus interesses familiares (a Prefeitura de Campina Grande, o Governo do Estado, a Assembléia Legislativa, o TCE); só assim, um político como Efraim Moraes, esse sim, o atraso em pessoa, pode ter esperanças de retornar ao Senado para promover mais 8 anos de uma oposição conservadora ao governo do PT. Ao invés de contribuir para inanição de um grupo que é expressão do que Ricardo Coutinho diz combater, alia-se a ele para torná-lo mais longevo ainda.

É por esse motivo entre outros que o PT não marchará com o candidato do PSB ao governo, porque essa é uma questão que transcende os acordos "por cima", como preferiria Ricardo Coutinho, para continuar sendo fiel à máxima de Lampedusa. Enquanto o Brasil caminha para mudança, isolando os conservadores e o conservadorismo no canto onde os despojos da política, vez por outra, são colocados, na Paraíba aqueles que poderiam representar o avanço preferem a companhia da direita.

Companhia que mesmo o candidato que a representa nacionalmente (José Serra) tenta dela se afastar, afirmando ser de "esquerda". E qual não foi a intençao de Cássio Cunha Lima ao aproximar-se de Ricardo Coutinho que não limpar-lhe a imagem, dando a ela uma nova coloração, menos conservadora. O problema é que enquanto o sujo se limpa, o limpo se suja. Se Cunha Lima ganha um pouco de Coutinho, Coutinho ganha muito de Cunha Lima. Inevitável.

No Brasil da "modernização conservadora" promovida sempre pelas elites, mudanças sem povo, realizada em acordos cujos objetivos sempre foram mudar para deixar tudo do mesmo jeito, é preciso avançar mais na Paraíba. É preciso romper com os entraves políticos do conservadorismo. E o primeiro passo é derrotar Cássio Cunha Lima e Efraim Moraes. Mesmo que Ricardo Coutinho, de lambuja, seja derrotado. Afinal, como se diz por aí, é impossível fazer uma omelete sem quebrar os ovos.

Na próxima postagem, argumentarei porque acho que o PT vai indicar o cargo de vice na chapa de José Maranhão. Para a decepção das novas e velhas viúvas do cassismo.

3 comentários:

heliojampa disse...

Voce tem razão quando diz que não se pode fazer omelete sem quebrar os ovos. Nessa lógica, Ricardo pode estar cavando a sua própria sepultura. Como petista histórico, arrisco dizer que a atual direção paraibana do PT não está sendo muito diferente de Ricardo e fatalmente o PT escorregará para o mesmo buraco.
Se quando Lula esteve no auge o PT daqui não cresceu, imagine sem Lula!

Christiano Almeida disse...

O pensamento múltiplo congrega de mui de meus pensamentos. Ricardo Coutinho, infelizmente, demonstrou aquilo que amigos do PT de João Pessoa já me diziam: "atropela mesmo". É a tese do "Eu". "Sai da frente!" Por outro lado, e aí analiso as entrelinhas, a direção estadual é linha dura, ou melhor, direita à esquerda. Rodrigo tem sua origem política aonde? No dia a dia do trabalhador? Não! Não me venham com essa história de advogado militante. Vejam aonde busca votos! E o porralouca do Rafael, Walter Aguiar? Hum, nao sei não. Muitos querem o poder para si. Poucos, o poder para poder mudar alguma coisa!

Lucio Ricardo disse...

Acho, que o PT não indica a vice porque já estaria amordaçado por Maranhão. Pois, alguns petistas já ocupam cargos no Estado( João de Deus eterno representante dos comerciários, Eliezer Gomes tesoureiro do sindicato dos comerciários e seu filho etc.). Maranhão, acha que já está de bom tamanho a fatia dada ao PT.Se colocarmos na balança os nomes de Maranhão e Ricardo, o segundo tem mais história ligada a luta do povo paraibano e se colocarmos os partidos de cada um, o PSB é um partido mais a esquerda do que o PMDB. Aliás o PMDB é uma frente e faz política na base do toma lá da cá.Maranhão, também representa oligarquias e tem uma prática patrimonialista de fazer política.Recentemente, práticas equivocadas e desrespeitosas ele vem adotando: não reconhecer a autonomia da UEPB, não convocar os concursados, ameaçar prefeitos para aderir ao seu projeto de reeleição, contrair empréstimos em cima de empréstimos para o Estado, humilhar o PT e Luciano etc.