domingo, 14 de julho de 2013

Histórias de futebol

Coluna de domingo (14/07), Jornal da Paraíba

Tenho ido ao Almeidão acompanhar os jogos do Botafogo. Desde o segundo turno do Campeonato Paraibano, quando o ficou claro que o Nacional de Patos, meu amor de infância, não disputaria nada, a não ser evitar o rabaixamento para a segunda divisão. Fui ao primeiro jogo da final, mas a derrota para o Treze em pleno Almeidão me desestimulou em ir a Campina para assistir o segundo jogo ao do lado botafoguense doente e professor de História como eu, Washington Feitosa, meu parceiro nessas recentes incursões futebolísticas.
Senti ter perdido aquele jogo em Campina, que provavelmente ficará para sempre na memória dos apaixonados botafoguenses por conta da vitória espetacular conquistada na casa do adversário. 

Botafogo levanta a taça, depois de jogo épico contra o Treze
Todas as circunstâncias deram àquele jogo contornos épicos: a necessidade de uma vitória por dois gols, o Amigão lotado de trezeanos, o sofrimento de dez anos sem títulos, o primeiro gol, que saiu perto dos 30 minutos do segundo tempo, o segundo logo em seguida, a angústia do sufoco pela pressão do Treze em busca de um gol que lhe daria o título e, por fim, no último minuto, o contra-ataque mortal, o pênalti e o gol que finalmente liberou o grito de “é campeão!”

Foi um desfecho arrebatador para reacender a paixão do torcedor botafoguense, quase que sozinho quando o assunto é torcida em João Pessoa, o que é péssimo porque, como todos sabem, a rivalidade alimenta a paixão. Em 2013, foi como se brotassem novos torcedores ou como se, desencantados ou reencantados, eles reaparecessem nos estádios e nas ruas para exibir sua paixão. João Pessoa e o Botafogo merecem.

Virou a casaca?

Os amigos nacionalinos de Patos, o professor Helder George e o competente jornalista de futebol e política, Genival Júnior, também flamenguistas como eu e, portanto, parceiros dessa bigamia assumida que é torcer, com a mesma paixão, por dois times de futebol, devem se perguntar depois de ler essa coluna se eu virei a casaca. Eu os tranquilizo que não. O Naça, assim como Patos, jamais deixarão de ocupar um generoso espaço em meu coração. E espero, para o bem do futebol paraibano, que o Nacional consiga montar no próximo ano um time à altura de nossa tradição de ter sido, por muitas décadas, o quarto melhor time paraibano, depois de Botafogo, Treze e Campinense.

Entre 1960 e 1986, nenhum time fora desse grupo dos três maiorais, como se dizia antigamente, foi campeão paraibano. Por 26 anos seguidos, Campinense, Botafogo e Treze, nessa ordem, foram os únicos a erguerem as cobiçadas taças da FPF que, acreditem, não tinha Rosilene Gomes ainda como presidenta. Nesse período, o Campinense foi o grande vencedor com 13 títulos, o Botafogo com nove e o Treze com cinco. E apenas em três ocasiões, o vice não foi um deles, sendo que em 1978, para a frustração de um menino de 11 anos, o Nacional foi Vice-Campeão, um “título” que representa para os nacionalinos que o acompanharam igual ao que Copa de 1982 representa para os brasileiros. Merecíamos vencer, porque tínhamos o melhor time e porque o Nacional jamais havia sido campeão paraibano. Nós merecíamos vencer. Eis uma das amarguras que eu carrego do início de minha adolescência.

Manoel Messias

Manoel Messias
Foram durante esses anos em que Manoel Messias, com aquele estilo clássico dos eternos camisas 10, encantou a Paraíba, ali em fins dos anos 1970 e início dos anos 80. Do time do Nacional, lembro também de Clóvis, João Grilo, Menon, Levi. Todos eles eu vi jogar, em partidas inesquecíveis no José Cavalcanti, que só tinha uma arquibancada, onde ficava a torcida do Nacional. Todos eles jogadores feitos em casa, produtos das peladas no campo do Pedro Aleixo, quando tudo quanto era jogador se reunia para bater bola, naqueles finais de tarde memoráveis para um moleque que cresceu torcendo e admirando aquele futebol boêmio de jogadores boêmios.

Messias foi o melhor jogador que eu vi jogar em campos paraibanos. Aquela era uma época em que o meia se colocava no centro do campo, quando seu time tinha a posse da bola, para organizar as jogadas com seus lançamentos milimétricos, dos raros gênios do futebol que conseguem enxergar o jogo como se estivessem no alto da arquibancada. Messias era um deles. Eram os tempos em que os ídolos se entranhavam no coração das torcidas por sua identificação com o time e se tornavam uma coisa só. Feliz da torcida que tem um ídolo para cultuar, como a do Flamengo tem a Zico. Mais do que ídolos, eles se tornam mitos. Quer lugar mais adequado para o mito do que o futebol?

Messias encantou por muitos anos a torcida do Nacional e depois a do Botafogo, para onde foi trazido para vestir a camisa 10. Mas o brilho não foi o mesmo porque faltava a aura que só a torcida do Nacional emprestava ao Messias, que caminhava nas ruas com ela, frequentava os restaurantes e, principalmente, os bares de Patos. Era um tempo em que o moralismo do torcedor não incomodava os jogadores em sua vida boêmia. Havia um certo descompromisso, que combinava bem com a alegria que é jogar futebol, uma brincadeira de gente grande, e que o “profissionalismo” dos grandes negócios que engoliu o futebol cuidou de enterrar.

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