terça-feira, 9 de julho de 2013

Manifestações: um balanço

A partir de hoje e pelos próximos 15 dias, assumo a redação da coluna de Rubens Nóbrega, no Jornal da Paraíba. Além do jornal impresso, os possíveis leitores podem acessá-la na página do JP Online. Reproduzirmos diariamente também aqui no blog. 

Manifestações: um balanço

Um mês depois do início das grandes manifestações, que se espalharam por todo o país como um rastilho de pólvora durante o mês de junho, mesmo sem terem se esgotado completamente, apesar do visível refluxo, já é possível vislumbrar uma análise dos seus resultados políticos, especialmente os mais visíveis e de curto prazo. Os de longo prazo, só o tempo nos revelará o verdadeiro alcance dessas manifestações.

O certo é que elas ajudaram a chacoalhar o ambiente político nacional, acomodado, de um lado, pelo enfadonho lengalenga da oposição tucana, que sonha trazer de volta seu programa liberalizante, mesmo com a maior parte da Europa – Espanha e Itália, principalmente – vivendo hoje uma quebradeira generalizada e níveis de desemprego sem precedentes desde o fim da Segunda Guerra Mundial, exatamente porque seus governos teimam em esgotar as economias nacionais para manter os compromissos assumidos com os bancos. Se a menção a isso não é suficiente, relembremos o fato de que o Brasil quebrou três vezes seguidas nas três grandes crises que aconteceram durante o último governo tucano (México, em 1995; Rússia, em 1997; e Coréia, em 1998), sendo em todas elas obrigado a recorrer a pesados empréstimos com o FMI .

Pelo lado do governo, a ampla aliança pela “governabilidade” levou o PT cada vez mais a se afastar de seus compromissos mais à esquerda. Dez anos depois de assumir o governo, as manifestações representaram a primeira crise não gestada no âmbito do parlamento ou por denúncias da grande imprensa. E nesse teste, a base parlamentar do governo que é amplamente majoritária, se mostra cada vez mais incapaz de oferecer o suporte que o governo Dilma precisa para enfrentar a crise. Depois de recuar na proposta de convocar uma Constituinte, Rousseff enfrenta uma clara má vontade da maioria dos partidos de sua base parlamentar até para por em prática a ideia da realização de um plebiscito sobre a reforma política. O PMDB conspira abertamente contra a proposta, argumentando falta de tempo para realiza-la. Todo mundo sabe que o tempo do Congresso é o tempo político. Se houver mesmo disposição e vontade política, não é necessário mais que um dia para votar a proposta, como ficou demonstrado em várias ocasiões no passado e mais recentemente.

Pressão para o diálogo

Manuel Castells: Dilma foi a “primeira líder
mundial a ouvir as ruas"
O fato é que toda essa movimentação no âmbito do governo e entre os partido foi provocada pelo atordoamento político gerado pelas manifestações. De tão surpreendentes, o governo e o PT ainda não compreenderam com clareza o que aconteceu no país no último mês e os motivos que levaram centenas de milhares de pessoas às ruas. Acostumado a liderar essas manifestações pelo menos até assumir os destinos do país em 2003, o PT foi obrigado pela primeira vez durante o seu governo a ter de dar respostas às demandas originadas nas ruas, que o fez lembrar que existe política para além das antessalas do poder.

Mesmo sob pressão, felizmente, Dilma Rousseff não tapou os ouvidos ou fechou os olhos para o vulcão que esparramava lavas pelas ruas do Brasil, desde 1992 adormecido. Como bem lembrou o sociólogo espanhol Manuel Castells, Dilma foi a “primeira líder mundial a ouvir as ruas", o que talvez explique o aparente refluxo atual das manifestações, ao lado do medo que passou, como sempre, a tomar conta de parte da classe média quando as manifestações começaram a despertar preocupação por conta de sua radicalização.

Conquistas da cidadania

Castells sabe bem do que fala. A crise europeia é exemplar para demonstrar a atual incapacidade daqueles governos para o diálogo em situação de crise como a que quase toda a Europa enfrenta hoje. Todas as “amargas soluções” (corte nos gastos públicos, redução de salários, demissão de servidores) enfrentam forte oposição popular, para as quais os governos europeus se mantem indiferentes. Ao que parece, como eu já disse, dar segurança aos bancos vem primeiro que o bem estar da população.

No Brasil, que passou ileso pela maior crise econômica mundial desde a de 1929, a situação econômica não é tão grave como a da Europa, sendo as manifestações muito mais o resultado de insatisfações políticas com o modelo institucional da democracia brasileira, onde não há canais para a expressão de vontades e insatisfações. Foi esse diálogo que as manifestações forçaram que acontecesse, e que a presidente aparentemente se dispõe a estabelecer. Isso se os partidos que a apoiam, a exemplo do PMDB, permitirem.

Por isso, uma reforma política que apreenda esse sentimento das ruas e seja capaz de criar canais de participação em que o cidadão comum, que não se sente representado pelo atual modelo representacional, possa se expressar. Talvez seja essa a maior conquista da cidadania brasileira dos últimos tempos, afora o aumento do gasto público com educação, saúde e mobilidade urbana já assegurados depois das manifestações.

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