sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Administração da gestão e administração da política: Ricardo Coutinho e Luciano Cartaxo


Existem dois tipos de administração do poder público numa democracia: a primeira é a administração da gestão propriamente dita, que organiza e dá ritmo ao trabalho do governo; a segunda, é a administração da política, que dá suporte e estabilidade para que a primeira possa fluir com mais apoio e sem as pressões que geram instabilidade.
 Esse parece ser o desafio dos dois principais governantes da Paraíba, o Governador Ricardo Coutinho e o Prefeito de João Pessoa, Luciano Cartaxo.
RC, a política do conflito e do confronto
No governo Ricardo Coutinho parece haver um descompasso entre esses dois setores do governo, o que tem produzido constrangimentos políticos desnecessários e obscurecido algumas ações do governo, na medida em que os conflitos sempre aparecem em primeiro plano. 
Vejam o caso da saúde. Ontem, escutei uma declaração do Secretário de Saúde do Estado, Waldson de Sousa, desqualificando o trabalho de fiscalização do Conselho Regional de Medicina (CRM), no caso em tela, na cidade de Patos. 
Ao apontar problemas reais do Hospital Regional de Patos, como o número excessivo de mortes em dos setores daquela unidade hospitalar, o Secretário reagiu afirmando que a motivação do CRM é “política”. 
Afirmações como essas em nada ajudam ao governo, especialmente a busca de soluções para os problemas apontados. Apenas põem mais lenha na fogueira, prologando desnecessariamente um debate em que só traz perdas para o governo. 
Não custaria nada para o Secretário receber as notificações do CRM, declarar que vai averiguar e tomar as providências cabíveis.
Fatos como esses, associado a dezenas de outros da mesma espécie, acontecidos em outros setores do governo, muitos envolvendo o próprio governador, ajudaram a estabelecer e a consolidar como uma das marcas do governo a falta de diálogo e a dificuldade de lidar com a crítica. 
O imbróglio envolvendo a aprovação da LOA é apenas mais um capítulo desse cansativo histórico de conflitos, que tem o Governador como um dos protagonistas principais. Parece que RC não consegue governar sem isso.
Os problemas de Cartaxo
No caso da Prefeitura de João Pessoa, o problema parece ser de outra natureza. Diferentemente de RC, Luciano Cartaxo tem um estilo mais apaziguador e negociador, o que se reflete na ação dos seus secretários. 
Vejam, por exemplo, o caso da Secretaria de Desenvolvimento Urbano, a Sedurb. Antes, a atuação da Sedurb era marcada por violentos confrontos entre Guarda Municipal e camelôs no centro da cidade. Hoje, não há mais registro deles, e isso se deve, inquestionavelmente, à ação do Secretário Assis Freire.
Para uma comparação mais direta, vejamos o caso de Adalberto Fulgêncio, Secretário de Saúde. Eu já escutei várias entrevistas de Fulgêncio a rádios de João Pessoa. Durante todas elas foi comum, como não poderia deixar de ser, a ocorrência de críticas e de reclamações feitas pelos próprios usuários. 
Ao invés de desqualificar a crítica e o crítico, Adalberto preferiu sempre assumir o compromisso de investigar o fato e, se fosse o caso, solucionar o problema. Não é incomum escutá-lo assumir determinadas deficiências. 
Isso em nada desmerece o seu trabalho. Muito pelo contrário, apenas reforça a imagem de um gestor que vê críticas com possibilidades de desenvolver seu trabalho, especialmente num setor ainda com deficiências como é a saúde pública.
Aliados e aliados
Como eu disse, o problema de Cartaxo é outro e o recente rompimento do Vereador do PDT, Raoni Mendes, expõe uma dificuldade que pode trazer instabilidade política e dificuldades futuras, especialmente se o Prefeito pretende se reeleger, como é mais do que natural. 
Raoni foi o Vereador mais votado na última eleição municipal. Como não é muito comum ver um parlamentar, seja de qual esfera for, romper com o governo, especialmente com um que ele ajudou a eleger, fica a dúvida se a situação foi bem administrada o suficiente para que esse desfecho fosse evitado. Dos dois lados.

O caso de Raoni Mendes tem outros traços que podem torna-lo ainda mais dramático. É que ele pertence ao grupo do ex-prefeito Luciano Agra, que, como todos sabem, teve um papel fundamental na eleição do outro Luciano, o Cartaxo. 
Recentemente, o petista demitiu dois secretários também ligados ao ex-prefeito. É difícil saber o que se passa nos meandros do poder, mas a dimensão pública dos atos nos permite o vislumbre aproximado da situação real, e uma interpretação dela. 
No caso, é impossível não inferir que os dois Lucianos não mantêm a mesma cordialidade e cumplicidade que os tornaram vitoriosos em 2012. 
O que não pode ser, nem de longe, uma situação a ser comemorada pelos petistas, já que, se é isso mesmo, Luciano Agra caminha também para o rompimento. E aliados, especialmente os estratégicos, não devem ser desprezados, especialmente quando se tem claro qual é o principal adversário. 
E, antes de mais nada e principalmente, não se deve dar ouvidos a aliados de ocasião, que desejam ocupar os espaços que sobrarem de um possível ruptura, como é o caso do vereador Fernando Milanez, do PMDB, que continua a fazer ataques a Luciano Agra, no velho estilo cristão-novo. 
O desafio político de Luciano Cartaxo não é criar uma maioria ampla e absoluta na Câmara, que será sempre artificial porque fundada apenas na ocupação de espaços. 
O verdadeiro desafio é eleger os aliados que verdadeiramente contam, agora e no futuro, e preservá-los. A boa administração da política do governo petista, aparentemente, depende disso. 
O resto vem com o tempo e competência administrativa.

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