domingo, 5 de janeiro de 2014

Ricardo Coutinho e os perigos da “Cozetização”

Um neologismo foi criado em 2009 para definir o futuro do então Prefeito de João Pessoa, Ricardo Coutinho, em caso de uma aliança com Cássio Cunha Lima: “cozetização”. O termo era uma referência pouco sutil àqueles que, em ascensão política, preferiram romper com seus aliados tradicionais para se aninhar nos braços de antigos adversários.

Cozete, ascensão e queda

Cozete Barbosa foi uma das mais destacadas líderes
da oposição campinense. Foi.
Esse foi o caso da ex-prefeita de Campina Grande, Cozete Barbosa. Já na primeira eleição de que participou como candidata a Vereadora, em 1992, Cozete foi a terceira mais bem votada da cidade. 

Entretanto, Barbosa só conseguiria vaga no parlamento municipal na eleição seguinte, em 1996, quando o PT finalmente conseguiu atingir o quociente eleitoral para ser representado na Câmara de Vereadores campinense. 

Naquela eleição, a então petista foi a vice-campeã de votos, só perdendo para o atual Vice-Governador da Paraíba, Rômulo Gouveia, e por uma diferença de 158 votos ou 0,9%.

Com o prestígio em alta, na eleição seguinte, a de 1998, Cozete Barbosa foi lançada pelo PT ao Senado, quando obteve 19,75% dos votos, ficando na terceira posição, atrás de Ney Suassuna e Tarcísio Burity. 

Entretanto, o resultado mais importante foi o obtido em Campina Grande, quando a candidata petista a mais votada com 42,54% dos votos dos campinenses! 

Cozete começava a incomodar a hegemonia do cassismo na cidade.
A ascensão de Cozete Barbosa foi interrompida aí. 

Na eleição seguinte, Cássio Cunha Lima, rompido desde 1998 com José Maranhão no PMDB, inicia uma aproximação com o PT, num namoro que prometia casamento quando chegasse a hora de Cássio abandonar o barco peemedebista. 

Os petistas acreditaram nas promessas, entre elas, a de apoio a Lula em 2002 e, especial, na mais palpável de todas: assumir os destinos de Campina Grande quando Cássio, reeleito, renunciasse ao mandato para se candidatar ao Governo da Paraíba na eleição seguinte. 

Foi assim que Cozete Barbosa, cuja trajetória até então fora marcada pela oposição aos Cunha Lima em Campina Grande, deixou de lado as promessas do futuro, preferiu o atalho que lhe foi oferecido para conquistar a Prefeitura campinense e aceitou ser vice na chapa do candidato à reeleição de Cássio Cunha Lima.

O final dessa história todo mundo conhece. Cássio preferiu as largas asas dos tucanos em 2002, deixando o PT a ver navios, e Cozete Barbosa se viu numa saia-justa. 

Já no primeiro teste de fogo como prefeita petista, ela decidiu votar para governador no tucano contra a orientação partidária, esperando (em vão) pela retribuição cassista à sua reeleição. 

Cássio optou por Rômulo Gouveia e Cozete Barbosa amargou um terceiro lugar na disputa para Prefeitura de Campina Grande. 

Cozete dançou com Cássio...
Antes, num último e fatal ato de desforra, a petista resolveu apoiar Veneziano Vital no segundo turno da eleição campinense, e acabou decidindo a eleição (a diferença final não chegou aos 800 votos) em favor do candidato do PMDB, que herdou – vejam só! – a liderança da oposição que fora um dia de Cozete Barbosa. 

Hoje, a ex-prefeita campinense vive no completo isolamento e ostracismo político.

Modo RC de governar em questão

Ricardo Coutinho corre o mesmo risco? Tudo dependerá do resultado da disputa que se aproxima. 

2014 será uma eleição que, entre outras coisas, decidirá se o atual Governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, terá renovada a chance de continuar governando a Paraíba, ou se perecerá numa derrota que pode leva-lo a abreviar sua fulgurante carreira política. 

Em caso de vitória, o modo ricardista de governar receberá mais do que o aval, a legitimidade do povo, dando mais uma vez razão ao senhor já cinquentão que habita hoje a Granja Santana. 

O modo RC de governar – e tudo que isso implica para aliados e adversários – será, então, aprofundado.

Em caso de derrota, o futuro não se mostrará tão cheio de promessas para RC como acredita ele, mesmo que sem a dureza quase espartana dos primeiro anos quando ingressou na política. 

Para acabar nos braços de Veneziano.
Especialmente, depois dos últimos doze em que governou João Pessoa e a Paraíba. E, como a reafirmar a conhecida frase de Karl Marx segundo a qual a história só se repete duas vezes, “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”, Ricardo Coutinho tem grandes chances de seguir o destino de Cozete Barbosa, também como ele, ex-petista.

A solidão de RC no poder

Em caso de derrota, quais dos atuais auxiliares mais próximos de RC continuarão a segui-lo quando a solidão, agora da falta de poder, se apresentar com toda a sua força? 
Do antigo “Coletivo”, dos dedicados militantes da causa pessoal de RC dos primeiros e difíceis anos, poucos ou quase nenhum restaram para lembrar que o governador é, hoje, resultado da soma de todos aqueles esforços. 

Derval Golzio, Luciano Agra, Roseana Meira, Alexandre Urquiza, Nonato Bandeira, entre outros, foram sendo tratados com adversários até não restar-lhes outra alternativa a não ser o rompimento. 

Foi assim que, no auge do seu poder, RC perdeu não apenas as antigas companhias. Muito por conta delas – e isso certamente importou mais para RC – Coutinho perdeu João Pessoa para o PT, num eloquente recado dado pelo povo sobre o comportamento de Coutinho no governo.

A beligerância foi a marca principal da gestão política da administração Ricardo Coutinho. 

E os aliados que o governador mantem, hoje, são, em grande parte, aliados do governo. 
Eles se manterão assim até quando a expectativa de poder for maior do que o desconforto do governismo. 

Desapareceu a militância das paixões que só a esperança desperta. Estas deram lugar à frieza de um governador que se acredita portador de um projeto de poder que é só dele. 

Ninguém é bom o bastante para reivindicar compartilhá-lo.


Por isso, soa estranho RC falar hoje em lealdade e cobrá-la, por exemplo, de Cássio Cunha Lima, que nunca se sentiu representado nas ações de governo e criticou muitas delas. 

E, paradoxalmente, RC continua a depender de Cássio. Sem o apoio deste, sobrarão mais dúvidas do que certezas a respeito do destino do atual governador, que deve ter arrepios ao pensar no rompimento com o senador tucano. 

E no estrago que ele provocará. É nessas horas que o fantasma de Cozete Barbosa deve aparecer para assombrá-lo.

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