segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O espaço de Eduardo Campos

Eduardo Campos troca o apoio de Lula e Dilma...
Todo candidato precisa além de discurso, precisa de aliados. Quando o Governador de Pernambuco, Eduardo Campos, tomou a decisão de romper com Lula e lançar sua candidatura à Presidência da República, ele já sabia que o espaço que lhe restaria não seria o que hoje é ocupado pelo PT. 

Ou seja, Campos sempre soube que não teria condições de disputar a base política e social que dá suporte à hegemonia petista no governo federal. E um exemplo disso foi o não que Campos recebeu do PCdoB, o mais fiel e tradicional aliado que o socialista tem em Pernambuco. 

Se nem o PCdoB apoia Eduardo Campos, que quem ele pode contar como aliado?

Daí sua movimentação à direita que faz hoje o governador de Pernambuco. 

Não foi por acaso que o PPS, dominado pelo serrista Roberto Freire, que atua em Pernambuco, mas é deputado federal por São Paulo, foi parar no colo de Campos. 

Freire, que nutre um ódio quase visceral ao PT, esperou o quanto pode pela filiação de José Serra ao PPS para lança-lo novamente ao Planalto. Como Serra permaneceu no PSDB, restou a Freire duas opções: voltar para os braços dos tucanos ou experimentar o aconchego nordestino de seu conterrâneo.

... pelo da direita, que ele sempre combateu.
Aproximação com o PSDB

O PPS é um exemplo do que restou de espaço para Eduardo Campos disputar. E a incursões do pernambucano são ainda mais à direita. 

Ele já foi recebido, por exemplo, pelo catarinense Jorge Bornhausen, um expoente do conservadorismo brasileiro, o por Ronaldo Caiado, ruralista e fundador da UDR (União Democrática Ruralista), que surgiu para impedir a reforma agrária na última Constituinte. 

Nesse deslocamento à direita, Campos busca uma aproximação também com o PSDB, no que tem tido absoluta reciprocidade, já que ambos os partidos tem como estratégia ter o apoio um do outro no segundo turno, já que é mais do que improvável que os dois tenham mais votos que Dilma Rousseff no primeiro. 

Estratégia que conta com a discordância de Marina Silva, que sempre buscou se constituir como uma alternativa tanto ao PT quanto ao PSDB. 

Mas, a ex-petista não leva em conta, ou leva e faz-se de desentendida, que o buraco é mais embaixo. Campos deseja ser uma alternativa ao PSDB no meio conservador no qual os tucanos sempre passearam livres, leves e soltos.

É a agenda do PSDB, ou seja, são as ideias tucanas que Eduardo Campos deseja subscrever. 

Por exemplo. Campos tem advogado a necessidade de o governo realizar “um duro ajuste fiscal”, palavras que devem soar como música nos ouvidos de banqueiros e do mercado. 

Duro ajuste fiscal significa aperto principalmente nos gastos públicos, que são a mola propulsora do crescimento brasileiro nesses anos de crise internacional. 

A isso Campos tem chamado de “choque de responsabilidade”, mas tem gente que chama mesmo é de compromisso com os mais ricos. 

Campos também é contra o reajuste automático do salário mínimo, que é baseado na soma da inflação mais o crescimento do PIB dos dois anos anteriores, e que tem permitido ganhos reais e pode de compra aos assalariados.

Enfim, Eduardo Campos não rompeu com Lula e o PT. Ele mudou definitivamente de lado.

PT vai para cima de Campos

Quem não leu a nota que o PT nacional publicou em seu perfil no Facebook é bom dar uma olhada. 

A começar pelo título (“A balada de Eduardo Campos”), que é uma menção quase direta, tanto ao estilo de vida do Governador de Pernambuco quanto ao aventureirismo de um político que coloca em primeiro lugar seus interesses pessoais à frente dos do país. 

Mais ou menos na linha de Ciro Gomes que, depois de anunciada a candidatura de Eduardo Campos, tratou-o como "um zero completo, um oportunista puro e simples”.

A palavra mais branda com que Campos foi tratado pelo PT foi “tolo”, por ter ele se deixado estimular “pelos cães de guarda da mídia” até o ponto de “vender a alma à oposição”. 

Para o PT, o socialista não tem “projeto”, não tem “conteúdo” e perdeu também a “compostura política”, traços que faria o avô, Miguel Arraes, morrer de desgosto caso ele não tivesse morrido antes.

Campos renegou o apoio que teve de Lula

A nota é enfática ao lembrar o grande apoio dado por Lula ao atual Governador de Pernambuco, fato inquestionavelmente decisivo para o sucesso de sua administração. 

O PT faz questão de lembrar as obras estratégicas que tanto Lula quanto Dilma Rousseff dirigiram para Pernambuco, entre elas: a Refinaria Abreu e Lima, as obras da transposição do Rio São Francisco, a Transnordestina, o Estaleiro Atlântico Sul, afora  as sete escolas técnicas federais, os cinco campi da Universidade Federal Rural espalhados pelo interior. 

Além dessas obras, o PT lembra que os recursos provenientes Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania), que, segundo a nota, contribuíram “para a diminuição da criminalidade no estado, por muito tempo um dos mais violentos do país” e mais os 30 bilhões de reais do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, investidos em Pernambuco.


O texto se encerra com uma lacônica sentença a respeito do caráter fugaz de Eduardo Campos: “Quem achava que conhecia o governador do PSB, ao que tudo indica, ainda vai ter muito o que lamentar.” 

Enfim, a nota do PT é apenas uma amostra de como Eduardo Campos será tratado durante a campanha presidencial que se avizinha. 

E a linha é mostra-lo como um traidor, cuja inspiração pode ter sido o mestre da literatura ocidental, Miguel de Cervantes, segundo quem “ainda que a traição agrade, o traidor é sempre odiado.”

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