segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

UFC: o espetáculo da violência*

No vídeo acima, veja os "limites" do MMA. 
Continua a pergunta: onde foi parar nossa humanidade?


Na madrugada do último domingo, parte do Brasil que ficou acordada para assistir à “luta do ano” entre o brasileiro Anderson Silva e o americano Chris Weidman, acabou por se defrontar com uma cena chocante que, se foi inesperada, foi apenas por que tratou-se de um acidente: a tíbia de Silva dobrou-se em “L” depois de um violento chute que pretendia derrubar o lutador que empunhava as luvas do outro lado.

Logo assim que acordei na manhã de domingo, comecei a escrever um despretensioso texto comentando em breves palavras o caráter desumanizado que eu identifico sempre que assisto as lutas do UFC. 

Ao publicá-lo no blog pessoal que mantenho na internet e depois no Facebook, surpreendi-me com a repercussão imediata que o texto teve, dividindo opiniões e mostrando o incômodo para os seguidores daquelas lutas que causaram as críticas ali esboçadas. 

Em defesa da modalidade, muitos reagiram com ataques por escrito também violentos, o que é uma mostra, senão de todos, pois tenho grandes amigos que são admiradores da luta, do perfil de uma parcela significativa que sente prazer em acompanhar aqueles espetáculos de violência. 

Ao longo da semana, meu blog teve mais de 110 mil acessos e quase 200 comentários foram lá postados até a última sexta-feira! 

A coluna de hoje volta ao assunto num esforço de aprofundamento, ainda que limitado pelo espaço disponível.

O que é o esporte?

A violência extrema que eu identifico no MMA (Mixed Martial Arts ou Artes Maciais Mistas, em bom português), o distancia inquestionavelmente do que historicamente as sociedades sempre entenderam por “esporte”, a partir daquela relação intrínseca que essa atividade tão bem promove: a sanidade do corpo e da mente através da competição saudável, do esforço físico que condiciona os músculos, desenvolve habilidades, aperfeiçoa a beleza plástica dos movimentos e potencializa a rapidez de sua execução.

E a prática do esporte, mesmo sendo atividade física, não estava relacionado a trabalho ou a qualquer fim instrumental que envolvesse alguma coisa que não fosse a saúde física e o desenvolvimento dos músculos. 

Enfim, o esporte sempre foi visto desde a Grécia Antiga como culto à saúde corporal, que os gregos acabaram por transformar em “Educação Física” e que, hoje, infelizmente, começa a perder importância nas escolas. 

Esporte, para os gregos, não era mero culto ao corpo, mas a busca do equilíbrio nas atividades do cotidiano que envolviam o pensar e o agir. 

Elas valorizavam os cidadãos de tal maneira que Homero, numa das passagens da Odisseia, usou o esporte para distinguir Ulisses não apenas pela sagacidade, mas também pela força e habilidade.

São também criação dos Gregos as Olimpíadas, como sabe qualquer estudante, um evento que se propunha a integrar os Helenos através dos esportes, mesmo em tempos de guerra. 

Era o momento em que as diferenças entre eles davam lugar a disputas que nada tinham a ver com a guerra, a violência e a morte, mas eram manifestação plena de civilidade.

Esporte e modernidade

Quando as Olimpíadas foram trazidas diretamente para a modernidade pelo barão Pierre de Coubertin, o ideal olímpico ("O importante não é vencer, mas competir com dignidade"), que valorizava a participação acima da vitória, se defrontou imediatamente com uma ética avassaladora que transforma e dá a tudo um valor. 

Aristocrata, Cobertin desejava que valores menos utilitários envolvessem e dominassem o esporte. 

Tanto que ele proibiu que atletas profissionais participassem dos Jogos Olímpicos, e assim foi mantido até que o esporte, transformado em profissão, foi, nas décadas finais do século passado, finalmente capturado pelas empresas de material esportivo e pelas TVs.

Não soa estranho para muita gente que cervejarias promovam eventos esportivos, como já promoveram antes os fabricantes de cigarros. 

Ou que as TV moldem, e algumas vezes determinem, as regras de alguns esportes para que se encaixem melhor em suas programações. Ou que atletas recebam salários milionários. 

O sucesso de um esporte está relacionado à capacidade dele de arregimentar expectadores. São eles que promovem o esporte e arregimentam patrocínio. 

E a atenção do consumidor-telespectador que incansavelmente os promotores desses eventos perseguem em transmissões cada vez mais apuradas e cheias de detalhes.

MMA, a violência como espetáculo

Essa digressão teve por objetivo localizar o MMA no debate ético sobre o esporte na atualidade e, por isso e nesse aspecto, não diferenciá-lo de outras modalidades. 

Nesse ponto, o MMA, como esporte profissional, foi tão engolfado pelo mercado quanto qualquer outro esporte. 

O problema está em outro lugar: na violência associada ao esporte, na insanidade que leva atletas, em sua busca incansável pela vitória, pelo reconhecimento e por dinheiro, a chegar ao extremo de quebrar o braço de seu oponente para que ele, finalmente, reconheça sua derrota. 

Ou a que lutadores, resistindo em aceitar a derrota, continuem a lutar, mesmo que um imenso hematoma, que toma conta de quase toda sua testa e quase o impede de enxergar, não canse de mostrar que aquele lutador está incapacitado momentaneamente para a luta.

Mas, mesmo assim, os juízes permitem que o massacre continue. E sabem por quê? Porque o espetáculo tem de continuar. 

Telespectadores sedentos de sangue e dor querem continuar testando os limites daqueles homens ensanguentados, saber até onde eles aguentam. 

Uma das situações mais insanas é quando alguns lutadores, tendo desferido um golpe certeiro e, mesmo tendo nocauteado seu oponente, continuam a golpeá-lo na cabeça para não perder a oportunidade da vitória. 

Os apreciadores chamam isso de “finalização”, e pode continuar até que o juiz perceba que o oponente caído está inconsciente. 

Não. O problema não está apenas nos lutadores. 

Está do outro lado, na assistência presencial e naquela que fica sentada nos sofás das salas e nos bares em frente à TV. 

É ela que permite toda essa brutalidade, pois sem sua anuência esse show de imagens, cuja brutalidade é produzida incansavelmente e a cada luta, não seria possível - os ossos quebrados, os hematomas gigantescos, o sangue em abundância que se produz a cada sessão de lutas. 

A imagem da perna de Anderson Silva quebrando, mostrada em detalhes numa supercâmara lenta, por si só produziu em mim um profundo desconforto, mas para o público do UFC, acostumado a imagens fortes, e talvez já insensível pela repetição, aquilo foi mais uma entre tantas outras. 

Em que momento ele finalmente vai se perguntar se são humanos aqueles que lutam e se destroem mutuamente na sua frente? 

(*) Coluna publicada no Jornal da Paraíba de domingo (05/01/2013)

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